quarta-feira, 5 de agosto de 2009

E SE NÃO HOUVER AMANHÃ?


Foto de Philip LePage


Alguns meses haviam passado sobre aquele encontro à beira-rio. Tinha imposto comedimento a si própria. Tinha percebido não poder ignorar, mas decidira tomar pulso à emoção e racionalmente ir apagando aquela ‘loucura’. Nos primeiros dias optara por responder-lhe de forma cordial. Progressivamente fora se obrigando a espaçar as respostas. Apagava no imediato o que recebia, para não sentir-se tentada a reler e… até a responder. Só ela saberia quantas vezes se arrependia de o fazer. Quantas vezes desejou não o ter feito. Quantas vezes quis tanto reler o que tinha destruído.

Certamente, como consequência da atitude dela, ele desistira de lhe telefonar. Limitava-se a enviar-lhe mensagens, e-mails, muito raramente uma carta. Tudo parecia mais moderado e controlável quando ele comunicava. Mas bastava que algum tempo passasse sem que ele lhe dissesse algo e a ansiedade dela aumentava. O último e presente interregno já durava há muito. Isso inquietava-a. Sem o controlar procurava repetidas vezes as caixas de entrada na procura de alguma novidade. Mas já se tinham passado algumas semanas desde a última comunicação dele. Nunca poderia precisar qual o tempo exacto. Tinha-a destruído em seguida.

Irracionalmente, num acto de desespero pegou no telemóvel e marcou o número dele. 'O número para o qual ligou não está atribuído.' Foi a resposta que ouviu. Tentou de novo. E outra vez ainda. Sempre a mesma resposta. Mas tinha a certeza, fora sempre aquele que utilizara para lhe responder. Fora sempre através daquele que recebera todas as ligações dele. Telefonou para a operadora e confirmaram-lhe que o número não estava atribuído. Tinha sido desactivado! Não estavam autorizados a facultar informações sobre o titular anterior.

Quis convencer-se de que teria sido uma providência suprema a resolver a situação dela. Por isso decidiu não pensar mais no assunto. No fundo ele também revelara desinteressar-se. Afastara-se. Nada dissera. Desaparecera. Não se despedira. Ponto final. Terminara.

Mas não para a sua ‘segunda consciência’, que não parara de procurar solução para chegar ao contacto. E encontrou. O irmão da Laura trabalhava na operadora. Seguramente conseguiria ajudá-la.

Antecedentes
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5 comentários:

Teresa Queiroz disse...

adorei :)

e como entendo isso tudo

C. disse...

Sempre a esperança...
Ou será antes uma certa teimosia, um desafio do que parece, como dissera antes a personagem, "uma irrealidade"?

Bom fôlego narrativo, sim senhor. Estou a seguir...
:-)
:-)

susana disse...

Acho que vou ter que ler para trás, mas não hoje, que tenho muito sono e fquei irritada com a perseguição dela. A rapariga não se enxerga? O amor insano magoa-me. Antes de amar alguém, a pessoa precisa de se amar a si.
A tua escrita tem um toque "brasileiro". Conta lá.

© Piedade Araújo Sol disse...

Pois!

eu agora quero ler, como vai ela conseguir o novo numero.

quem desdenha quer comprar...já dizia alguem....

gostei do seguimento da trama...

bom fim de semana

beij

Tia_Cunhada disse...

Conheço essa ansiedade... Veremos o final!
Muito bom.