quarta-feira, 13 de maio de 2009

E SE NÃO HOUVER AMANHÃ?


Foto de Philip LePage

A fúria apoderou-se do seu acordar. Tropeçou num chinelo perdido no chão. Vociferou um qualquer impropério imperceptível. Abriu as portadas sem a certeza se seria para a claridade entrar, se para ver melhor. O sangue aquecia-lhe o furor e afastava discernimento ao pensar. Abriu a mensagem. Usou o número para realizar a chamada. Uma vez, duas vezes, três vezes, quatro vezes… ‘Não acredito que tenha o atrevimento de não atender!’ pensou. Cada toque mais e a sua tempestade desmoronava. ‘Bom-dia.’, respondeu-lhe uma voz límpida e raiando uma calma de sol ao entardecer. ‘Bom-dia…’, respondeu não se reconhecendo no propósito. A sua intenção era afrontar o autor, percebia agora, das palavras que a vinham arrastando numa desordem involuntária. Inexplicavelmente refreou e respondeu num tom em que não se reconhecia. As palavras ausentaram-se. Uns instantes de silêncio pareceram uma eternidade perante a inércia do agir. Ouviu do outro lado ‘Que agradável… finalmente a voz complementa o olhar. Que bem o faz…’ Não sabia se havia de se enfurecer ou ameigar. Não! Tinha de acordar, de reagir. Não fora para conversar que marcara o número. ‘Ouça lá, quem quer que o senhor seja, o que pretende com esta perseguição? Quem se julga ser para se sentir no direito de me importunar? De onde o conheço para me perturbar os dias?’ Foi interrompida: ‘Porque não evitamos que o tempo fuja no vento?’ ‘O quê?’, perguntou-lhe. ‘Só pode ser um doido! Deixe-me paz! Ouviu?’ A resposta repetiu a serenidade: ‘Porque não combinamos uma conversa, para confirmarmos pensamentos e provar que os nossos olhares se podem cruzar sem ser por acção do vento…’ Antes da fúria lhe fazer desligar a chamada, só foi capaz de responder: ‘Nem pensar!’

6 comentários:

Maria Clarinda disse...

Foi um prazer matinal ler este teu post, está extremamente bem escrito, e cheio de coisas que se leêm nas entrelinhas, como eu gosto.
Jinhos

Helena Branco disse...

...O que se perde por precipitação...se em vez de conjecturarmos, agredirmos... não escutamos em silêncio... O que poderá ser um vento ciciante de...



ABRAÇO para PASSOS

jardinsdeLaura disse...

Pas(ç)sos,

Uma "cena" descrita de forma brilhante! Gostei... e já agora tem continuidade ou é apenas um pedaço de vida agarrado algures e colado aqui para mura reflexão?!

Laura disse...

Pois e eu gostei destas palavras.

so_she_says disse...

Vou lendo e a expectativa aumenta...
Sei que haverá um amanhã.
Aguardemos :)

VERA DE VILHENA disse...

Uma pequena narrativa estimulante e bem escrita. Quanto à foto (são sempre escolhidas a dedo), fez-me lembrar o fotógrafo Nanã Sousa Dias, conhece? Fica aqui a sugestão, pois acredito que vá de encontro ao seu bom gosto.