terça-feira, 12 de maio de 2009

MEMÓRIAS [máquina de escrever, fazenda murycana - paraty - brasil]


Naquele tempo não haviam outras memórias. Era em mim que escrevia tudo quanto precisava não esquecer, as memórias dos seus dias. Foi nas minhas teclas que descarregou todas as emoções. Eu… aprendi a senti-lo e a sentir-me. 

Não respeitava horários e forçava-me a não tê-los. Escrevia quando queria ou quando as palavras lho pediam. Não me respeitava o ritmo, nem sabia o que eram cadências de respiração. Conheci o seu âmago melhor do que ele próprio. 

Dias houveram em que se sentava, frente a mim, com uma formalidade pouco comum. Pensava durante o tempo necessário para se arrumar e escolhia-me as teclas com uma delicadeza de quem se dirige a uma qualquer individualidade com a obrigatoriedade de respeitar. Por força da rotina habituei-me a adivinhar as palavras que escreveria, como se obedecessem a uma regra, à qual teimava não fugir. 

Quando se fazia acompanhar dum copo… a escrita iria ser difícil. Ficava tempos infindos a olhar-me. Bebia. Não escolhia as teclas. Carregava ao acaso e voltava a beber. Sentia-lhe um deserto de ideias molhado no álcool que o fazia esquecer-se da sua própria secura de intenções. Para mim eram momentos de descanso, mas também de ansiedade. Na expectativa de que dissesse algo, sofrendo por lhe experimentar o vazio. 

Houveram também dias de tempestade em que a sua raiva me magoava. Escrevia a um ritmo animal, como se não pensasse e tivesse de descarregar rios de cólera. Chegava a carregar-me em duas ou três teclas em simultâneo. Escrevia. Arrancava-me as folhas que amachucava e rasgava. Penetrava-me com novas folhas brancas que enchia de novo de rasuras, correcções e muita dor. Deixava-me exausta e completamente desabitada. Sabia que descarregara as suas emoções, mas não perfumara as páginas escritas. 

Noutras alturas senti-me sua confidente. Olhava-me como se o fizesse para o interior dum coração. Passava, ternamente, os dedos ao longo das minhas teclas como se pedisse ajuda para começar. Cheguei a provar o sabor das suas lágrimas. Escrevia lentamente como se as palavras lhe pesassem ou lhe fosse difícil desprender-se delas. Como se as largar fosse uma necessidade mas, simultaneamente, uma dúvida sobre a utilidade de o fazer. Depois descansava o olhar sobre o que havia escrito e, presente, partia em viagens cujo destino só ele conheceria. 

Também existiu Verão no que escreveu em mim. Chegava desapertado com um sorriso rasgando-lhe o peito. Inventava, ironizava, ria. Atacava com malícia as teclas. Sabia por onde ia e com certeza de chegar. Havia calor nos seus dedos e tornava-me cúmplice das suas frases com ‘segundos sentidos’. Levantava-se, retirava de mim a folha, sorria uma vez mais, dava uns passos e voltava a olhar-me como se tentasse confirmar se o acompanhava no seu humor. 

Mas os dias de que guardo mais gratas lembranças são daqueles que escrevia em mim arrancando raízes do coração. Escrevia com a transparência, fluidez e lucidez do rio correndo no leito, com a certeza de chegar à foz. As palavras brotavam-lhe com a coordenação dum bando voando no céu azul. Os sentimentos nasciam-lhe com as tonalidades dum prado em plena Primavera. Transmitia o fulgor da luz varrendo a sombra. E, quase sempre, terminava com a eloquência dum pôr-do-sol colorindo o final de tarde e introduzindo o prólogo dum novo amanhã. Nesses dias, quando se levantava, parecia-me sentir um coração tal era o que ficava a ecoar em mim, enquanto ele se distanciava. 

Um dia fui substituída… como tudo na vida… como a noite substitui o dia, a escuridão a claridade, a alegria a tristeza, como a saciedade toma o lugar da sede, a lembrança o do esquecimento e até a morte o da vida. Desde então vou sendo deixada onde menos incomode. Cada vez mais distante das memórias. E faltam-me mãos para escrever as minhas próprias memórias.


[Na era digital, também da fotografia, Ampliações são as minhas revelações de algumas sugestivas imagens de SONJA VALENTINA; são ampliações escritas, obviamente pessoais, dos pormenores com vida registados pela fotógrafa]

5 comentários:

Helena Branco disse...

Quanto do que nos rodeia uma vida, em silêncio...nos retrataria se tivesse voz!

Ponho-me a acreditar que gastamos os objectos só de os olhar ou os envelhecemos de não lhes darmos atenção ...Será que entristecem?...

ABRAÇO para PASSOS

Patti disse...

Eu gosto imenso dos pontos de vista dos objectos e dos animais. Faço-o muitas vezes.
E tenho cá para mim, que essa máquina antiga não precisa de mãos para escrever as suas memórias, basta-lhe o pensamento, que quem for habilitado, ouve-a pois tudo tem alma.

Alexandra disse...

A vida num objecto inanimado...

Usámo-los mas nunca nos lembrámos que, de facto, lhes comunicamos muita coisa. Um meio através do qual canalizámos muito de nós...
A este em particular, é como se fosse um confidente, um companheiro...

Se é verdade que a evolução nos faz usar outros meios pelo seu usos mais práctico, também não deixa de o ser que muitos de nós ainda olhámos os antigos instrumentos com alguma saudade, ou nostalgia.

Até mais.

Marta disse...

eu, por exemplo, não escrevo na velha máquina de escrever que havia na casa dos meus pais. mas não a substituí!
nenhum PC, por mais fabulástico, lhe ocupará o lugar na minha memória afectiva!

e mais uma vez, uma bela fotografia da SONJA, a convidar as SUAS palavras para mais um dueto - lindo - como o que está ali ao lado!

obrigada Passos, pelos novos caminhos que descubro aqui!

abraço

Gi disse...

Belo ponto de vista, este.
N~so considero estes teus textos ampliações; considero, sim, extensões, verbalizações dos objectos que te cativam.