quinta-feira, 28 de maio de 2009

CALCULISTA

Foto de Mal Smart

Fora, por natureza, um ser calculista. Organizado e metódico possuía traços de investidor. Nunca o evidenciara por falta de recursos suficientes para o materializar. Apostara sempre no poupar, no amealhar antes de adquirir. Muitas vezes incompreendido, tinha pautado a vida por esse princípio e poder-se-ia considerar bem sucedido. Sem qualquer queda para a agricultura, adoptara os princípios básicos da mesma. Semeava, regava, estrumava, podava para ‘mais tarde’ colher, consumir e… voltar a semear. Pusera esse empenho, essa lógica, na gestão financeira, na profissão, na família, nas palavras e, até, nas afeições. Acreditara que deveria dar aos seus para mais tarde receber. A sua distribuição de carinho, de ternura, de afectos tivera sempre como princípio o dever de o fazer para garantir poder recebê-los sempre que necessitasse. Como se houvesse no coração dos outros uma arca frigorifica onde guardassem palavras de atenção, carícias, momentos de compreensão, beijos e abraços. Como se no coração dos outros houvessem gavetas possíveis de abrir quando ele necessitasse de se sentir acarinhado, compreendido, beijado ou abraçado. A inquietude não lhe tocou enquanto se sentiu autónomo, capaz e com poder de decidir, enquanto os outros dependeram das suas ‘dádivas’ para adquirirem emancipação. Contudo todos os seus cálculos e organização não lhe permitiram perceber que os afectos não se armazenam, por muito que se semeiem nunca serão garante de que irão dar fruto. Assim, quando sentiu a sua falta ficou à espera. Seguro de que chegariam os que julgava ter capitalizado. E esperou sem pedir porque o orgulho assim o obrigava. E continuou à espera. E só depois de muito esperar percebeu que as tais gavetas frigoríficas estariam vazias ou não teriam sido capazes de conservar devidamente a pureza dos tais afectos. Só quando precisou deles se apercebeu ter desperdiçado o melhor desses afectos, de não ter aproveitado o prazer maior deles: o de senti-los enquanto estiveram vivos. E hoje contava os reduzidíssimos momentos em que tal acontecera e constatou serem tão poucos para os que tinha ilusoriamente semeado. Só então terá percebido a importância e o valor de saborear os afectos com toda a paixão, sugando-lhes todo o sumo, de espreme-los até à última gota de vida.

5 comentários:

AnaMar (pseudónimo) disse...

Os afectos trocados em momentos de dádiva. Emoções que não se reprimem.
Assumir sentires e espalhá-los pelo mundo. para que nunca nos sintamos vazios.
Viver apaixonadamente...
Excelente texto.

Bj

mariab disse...

se pudesemos semear afectos e ter a certeza da colheita tudo seria mais fácil. mas não acho que os afectos que damos sejam desperdiçados mesmo sem retorno. os afectos são mesmo para serem dados. beijos

Helena Branco disse...

Agarro-me aos ed phones para ouvir pela enésima vez esta música que me toca demais e que repete as ruínas...em que nos transformamos sem esses benditos afectos que nos salvariam mas que a ninguém importam...Tão distantes as pessoas...tão pouco incondicionais...Não amam só pela alegria de amar...

OBRIGADA PASSOS

jardinsdeLaura disse...

Pas(ç)sos,

Inquietante este seu texto...
Eu sempre pensei que distribuir ou semear momentos de afecto nos pudesse trazer de volta outros tantos! Semear pelo prazer de dar, de partilhar mas também para mais tarde poder colher seus frutos! Será isto calculismo? serei eu calculista?! Deu-me que pensar!!!

Alexandra disse...

Os afectos semeiam-se, sim. COntudo, nunca poderemos ter certezas absolutas de que um dia... serão retribuidos...