quinta-feira, 26 de Novembro de 2009

NA SOMBRA DUM MOMENTO

Foto de Codrin Lupei


Nos teus lábios
seguro o tempo,
o mesmo que me foge
no vazio entre os dedos
quando as mãos se despegam.

No teu olhar
seguro as marés
de palavras repetidas
pelo eco dos ventos
que sopram no peito.

Em cada abraço
seguro o rio
paisagem desaguada
nos corpos que se fundem
em estuários do amor.

Solta-se o ritmo ordeiro
dos corações cavalgantes
por planícies que raiam,
no perfume que fica nas horas,
no tempo que se cola na pele,
à distância dum intervalo
interregno dum encontro
na sombra dum momento
numa mesma margem...


quarta-feira, 25 de Novembro de 2009

A SUSPENSÃO DOS PASSOS


Corria… não para chegar. Antes num regresso. Sem caminho. Como se nunca quisesse ter saído. Seguramente. Sem dever ter partido. O labirinto era um terreno plano, árido, sem paredes, nem obstáculos. Mas é impossível apagar o caminho que já se percorreu. Era esse o desafio. Era essa a impossibilidade. Apagar o que nunca poderia ter sido trilhado.

Dei um salto. Estava escuro. Passei a mão pelo rosto. Estava molhado. E frio. Os olhos ainda estavam fechados. Tentei localizar-me. Procurei o interruptor do candeeiro. Em cima da pequena mesa-de-cabeceira, a luz verde do relógio digital marcava 3:41. Era madrugada. Fora mais um pesadelo. Percebi então. Só mais um. A somar a tantos outros.

Quanto mais tentava, conscientemente, fugir daquela noite, mais percebia o quanto ela pesava no inconsciente. E era sempre em fugas que ela se traduzia. Quanto mais fugia dela e me esforçava por a deixar para trás, mais ela se mostrava uma evasão impossível. Um destino sem saída. Um rumo sem mapa.

O coração abrandara as batidas. Levantei-me. Deambulei até ao lavatório. Molhei o rosto já molhado. Respirei fundo. Engoli um pouco de água. Regressei à cama na expectativa de recuperar o sono. Faltavam pouco menos de três horas para acordar.


terça-feira, 24 de Novembro de 2009

O ANO DO PENSAMENTO MÁGICO

Foto recolhida aqui


Somos convidados a ouvir um recado dirigido a todos. As memórias de respostas sempre questionáveis duma experiência de vida que um dia chegará a qualquer um de nós. Ainda que as características possam variar, o conteúdo será sempre similar. As verdades irrefutáveis do adiamento em aceitar a partida definitiva. As mentiras que nos contamos para escamotear a realidade que está ao alcance das mãos. A eterna esperança de podermos manipular o passado se o futuro nos revelar as razões do ontem. O futuro que nunca planeámos, porque o amor faz-se de vida.

Um texto verdadeiro, particularmente bonito, escrito por Joan Didion, que Diogo Infante doou à magnitude artística e humana de Eunice Muñoz. Uma sucessão de parágrafos na voz de uma mulher que, tal como Judite de Sousa referiu no programa ‘Grande Entrevista’ do último dia 19, parece não ter idade. A mulher Eunice Muñoz demonstra ao longo de setenta minutos a tenacidade duma personalidade que, mesmo nos momentos menos moldáveis, assume a vida como algo que se controla. A actriz Eunice Muñoz demonstra porque é, e será, uma Senhora do teatro português. Cada pose, cada intenção, cada gesto, cada expressão estão minuciosamente estudados, escolhidos e trabalhados para que nós, os que nos sentamos a apreciá-la, sejamos induzidos a crer estarmos a ouvir a própria Joan Didion, e não a actriz.

Os parágrafos da história que corre nas veias de Joan Didion são acompanhadas por um jogo sublime de beleza, estabelecido entre peças abstractas dum cenário de Catarina Amaro, e diferentes níveis de abertura da cortina negra. A prova, mais uma vez, de que a simplicidade resulta quando a arte é clara e permite respirar, através dela, as sensibilidades de quem se senta numa plateia para ser surpreendido pela magia dos dotados. Referência ainda para a música original de João Gil. Tão só um pormenor mais de bom gosto que completa, tal como o apontamento final de vídeo realizado por Pedro Macedo, o encanto duma noite a desfrutar prazer.

O ano do pensamento mágico está em cena no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, até ao dia 20 de Dezembro. Entre 7 e 31 de Janeiro subirá ao palco do Teatro Nacional S. João, no Porto.

Numa primeira abordagem à sinopse ou críticas sobre O ano do pensamento mágico, poder-se-á criar a convicção de se ir assistir a um trabalho dramático, comovente, dorido. Não foi, para mim, essa a realidade. Acolhi-o como uma demonstração de como a vida pode ser valiosa se o amor a habitar. Pois mesmo quando ela nos obriga a resumir os que amamos a uma moldura, situada no lugar nobre da secretária… dir-lhes-emos repetidamente ‘amo-te mais do que apenas mais um dia!'


segunda-feira, 23 de Novembro de 2009

NOS TEUS DEDOS


Procuro entre teus dedos
o compasso da melodia
que quero compor;
ritmos de quem canta
sem ser compositor.

É o ritmo de teu coração
que procuro nas tuas mãos.
É em busca do tempo certo
que as abraço,
para que me sintas
na afinação demandada
nos batimentos que ouço
nos teus dedos.

E na harmonia de encontrar
tuas mãos nas minhas
fica-me a certeza de cantar
a felicidade de ouvir
o teu ritmo em mim.


sexta-feira, 20 de Novembro de 2009

MANTO DE PALAVRAS

Foto de Vernon Trent


Estendeste-me um manto de palavras
que colhi como se fossem pétalas
duma flor a quem queria conhecer o cheiro.
Eram tuas, senti-as minhas.
Não as conhecia, sabia-lhes o sabor,
nunca as lera, conhecia-lhes as letras.
Caminhei entre significados,
descobri intenções.
De algumas fiz pele
de outras, véu de aconchego.
Deitei-me nelas e afaguei-me…
Bebia-as e traguei-lhes o calor,
olhei-as e extrai-lhes a cor,
sussurrei-as e copiei-lhes o som…

… cheguei à tua boca.
… nos teus lábios depositei
a doença
que as tuas palavras
me curam.


quinta-feira, 19 de Novembro de 2009

FERNANDO TORDO NO TEATRO DA TRINDADE

Foto recolhida aqui


Seis da tarde. A cidade realiza o sprint final de mais um dia. Corre no regresso preparando a noite. Às vezes chegam palavras, chegam recados. Quando as palavras chegaram senti-as… ainda que não tivesse lhes atribuído o recado que hoje lhes saboreio. Quando elas chegaram, lembrei-me o muito que respeitava e admirava as canções dum senhor que ontem fui ouvir cantar ao Teatro da Trindade.

Um concerto curto de sessenta minutos. Pouco mais que meia dúzia de canções intercaladas por muita aprazível conversa. Muitas palavras em que as suas memórias nos levaram a simbólicas homenagens a homens como José Carlos Ary dos Santos, José Calvário, Raul Solnado, João Maria Tudela, Pedro Osório, Carlos Mendes… Palavras que nos mostraram as emoções pessoais do homem que aos sessenta e um anos se comove com o neto que a sua filha lhe ofereceu, ou com o prémio Saramago com que o seu filho foi recentemente distinguido. Palavras que nos revelaram histórias do nascimento de algumas das suas canções. Canções que elegeu para cantar ontem. Foi o prazer de lembrar a existência de João e Joana, ou Adeus Tristeza. Foi a oportunidade de trautear letras que percebi a memória não ter esquecido.

Entre o muito que lembrou e revelou, transmitiu, de novo, a facilidade com que o monstro Ary dos Santos pegava nas composições que lhe levava e as musicava com letras que são poemas dos mais bonitos escritos na língua portuguesa. Letras de canções que têm cheiro e cor, em que nos afundamos com o prazer de quem se sente abraçado pela arte da escrita.

De algumas dessas histórias tento aqui reproduzir a ocorrida quando, após terem concluído Cavalo à Solta, Fernando Tordo e José Carlos Ary dos Santos se estendiam por largo tempo à procura dum título para a canção. No meio de muitas divagações, indecisões, conjecturas e propostas, eis que João Maria Tudela, que acompanhara nesse dia Fernando Tordo, timidamente se intromete e lhes diz algo como: “Desculpem! Mas como é que dois animais que acabam de fazer uma canção como esta não vêem que o título só pode ser Cavalo à Solta?”

Na vida há momentos em que nos chegam palavras que nos mergulham num sorriso enorme. De felicidade!


quarta-feira, 18 de Novembro de 2009

A SUSPENSÃO DOS PASSOS

Foto de Benoit Michelot


Sentada em frente ao estirador sentia-se capaz de contemplar o Universo. Aquele era o reino da sua segurança. A aridez de intenções que lhe desertificava a rotina do dia-a-dia, ali tornava-se mar, oceano imenso, profundo, incomensurável. Transfigurava-se em frente àquela prancheta. As ideias transformavam-se fauna sucedânea em ciclos reprodutivos.

Nas suas mãos, o carvão riscava com a liberdade dos pensamentos soprados por ventos de inspiração. Os esquiços tomavam forma esbatendo-se, alongando-se, desfigurando-se em traços, em contornos e, de novo, em figuras. Em frente àquele estirador não tinha incertezas. Sentia-se suficientemente distante das águas paradas em que mergulhava ao sair para a rua e entregar-se ao anonimato da multidão.

Ainda que ali se realizasse… Mesmo que ali se reconhecesse… Só no horário profissional ali se entregava. Recusava-se ignorar que lá fora, também uma fracção do mundo lhe pertencia. Por método, por rotina ou talvez por crença que um dia chegaria, em que consigo se cruzaria uma história diferente. Uma chuva diluviana que se entranharia pelas fendas abertas no deserto da espera.