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sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

CINZAS E SANGUE

Imagem recolhida aqui


A fotografia rapta-nos a sensibilidade. Ambiências, cores, enquadramentos, paisagens são espreitares por onde caminhamos ao encontro da fantasia que Fanny Ardant nos oferece como realidade. Na intemporalidade duma época viajamos pela sugestão de localizações, pequeno pormenor de quem quererá demonstrar que a indomabilidade duma vida é comunhão sem origem, nação ou tempo.

Há partidas que mais não são do que fugas. Convencimentos forjados de reconstrução como se fosse possível rasgar as páginas de história que não quisemos ou nos arrependemos de escrever. Calam-se segredos na negação de saber que os poluentes persistentemente se mantêm à tona das águas. E recusam-se regressos inevitáveis.

Porém, quando o sangue chama não há como enganar a realidade. Impõe-se condições. Estabelecem-se regras. Tenta-se esquecer a verdade. Mas não há como ignorar a irreverência herdada, o orgulho que é mais forte do que a razão. Os pactos que nunca chegaram a ser ensinados sobrevêm nos laços familiares. E não se consegue evitar a colheita semeada.

No desespero corre-se na ilusão de que a vontade transformará o percurso do futuro por acontecer. Cede-se um flanco na ansiedade de defesa de outro. E a simplicidade da vida limita-se a demonstrar que acabaremos, inevitavelmente, por ser réus sentados na cadeira onde Alguém nos julgará e condenará a cinzas o que abraçáramos como esperança.


terça-feira, 24 de novembro de 2009

O ANO DO PENSAMENTO MÁGICO

Foto recolhida aqui


Somos convidados a ouvir um recado dirigido a todos. As memórias de respostas sempre questionáveis duma experiência de vida que um dia chegará a qualquer um de nós. Ainda que as características possam variar, o conteúdo será sempre similar. As verdades irrefutáveis do adiamento em aceitar a partida definitiva. As mentiras que nos contamos para escamotear a realidade que está ao alcance das mãos. A eterna esperança de podermos manipular o passado se o futuro nos revelar as razões do ontem. O futuro que nunca planeámos, porque o amor faz-se de vida.

Um texto verdadeiro, particularmente bonito, escrito por Joan Didion, que Diogo Infante doou à magnitude artística e humana de Eunice Muñoz. Uma sucessão de parágrafos na voz de uma mulher que, tal como Judite de Sousa referiu no programa ‘Grande Entrevista’ do último dia 19, parece não ter idade. A mulher Eunice Muñoz demonstra ao longo de setenta minutos a tenacidade duma personalidade que, mesmo nos momentos menos moldáveis, assume a vida como algo que se controla. A actriz Eunice Muñoz demonstra porque é, e será, uma Senhora do teatro português. Cada pose, cada intenção, cada gesto, cada expressão estão minuciosamente estudados, escolhidos e trabalhados para que nós, os que nos sentamos a apreciá-la, sejamos induzidos a crer estarmos a ouvir a própria Joan Didion, e não a actriz.

Os parágrafos da história que corre nas veias de Joan Didion são acompanhadas por um jogo sublime de beleza, estabelecido entre peças abstractas dum cenário de Catarina Amaro, e diferentes níveis de abertura da cortina negra. A prova, mais uma vez, de que a simplicidade resulta quando a arte é clara e permite respirar, através dela, as sensibilidades de quem se senta numa plateia para ser surpreendido pela magia dos dotados. Referência ainda para a música original de João Gil. Tão só um pormenor mais de bom gosto que completa, tal como o apontamento final de vídeo realizado por Pedro Macedo, o encanto duma noite a desfrutar prazer.

O ano do pensamento mágico está em cena no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, até ao dia 20 de Dezembro. Entre 7 e 31 de Janeiro subirá ao palco do Teatro Nacional S. João, no Porto.

Numa primeira abordagem à sinopse ou críticas sobre O ano do pensamento mágico, poder-se-á criar a convicção de se ir assistir a um trabalho dramático, comovente, dorido. Não foi, para mim, essa a realidade. Acolhi-o como uma demonstração de como a vida pode ser valiosa se o amor a habitar. Pois mesmo quando ela nos obriga a resumir os que amamos a uma moldura, situada no lugar nobre da secretária… dir-lhes-emos repetidamente ‘amo-te mais do que apenas mais um dia!'


quinta-feira, 19 de novembro de 2009

FERNANDO TORDO NO TEATRO DA TRINDADE

Foto recolhida aqui


Seis da tarde. A cidade realiza o sprint final de mais um dia. Corre no regresso preparando a noite. Às vezes chegam palavras, chegam recados. Quando as palavras chegaram senti-as… ainda que não tivesse lhes atribuído o recado que hoje lhes saboreio. Quando elas chegaram, lembrei-me o muito que respeitava e admirava as canções dum senhor que ontem fui ouvir cantar ao Teatro da Trindade.

Um concerto curto de sessenta minutos. Pouco mais que meia dúzia de canções intercaladas por muita aprazível conversa. Muitas palavras em que as suas memórias nos levaram a simbólicas homenagens a homens como José Carlos Ary dos Santos, José Calvário, Raul Solnado, João Maria Tudela, Pedro Osório, Carlos Mendes… Palavras que nos mostraram as emoções pessoais do homem que aos sessenta e um anos se comove com o neto que a sua filha lhe ofereceu, ou com o prémio Saramago com que o seu filho foi recentemente distinguido. Palavras que nos revelaram histórias do nascimento de algumas das suas canções. Canções que elegeu para cantar ontem. Foi o prazer de lembrar a existência de João e Joana, ou Adeus Tristeza. Foi a oportunidade de trautear letras que percebi a memória não ter esquecido.

Entre o muito que lembrou e revelou, transmitiu, de novo, a facilidade com que o monstro Ary dos Santos pegava nas composições que lhe levava e as musicava com letras que são poemas dos mais bonitos escritos na língua portuguesa. Letras de canções que têm cheiro e cor, em que nos afundamos com o prazer de quem se sente abraçado pela arte da escrita.

De algumas dessas histórias tento aqui reproduzir a ocorrida quando, após terem concluído Cavalo à Solta, Fernando Tordo e José Carlos Ary dos Santos se estendiam por largo tempo à procura dum título para a canção. No meio de muitas divagações, indecisões, conjecturas e propostas, eis que João Maria Tudela, que acompanhara nesse dia Fernando Tordo, timidamente se intromete e lhes diz algo como: “Desculpem! Mas como é que dois animais que acabam de fazer uma canção como esta não vêem que o título só pode ser Cavalo à Solta?”

Na vida há momentos em que nos chegam palavras que nos mergulham num sorriso enorme. De felicidade!


sexta-feira, 30 de outubro de 2009

NORTADA

Foto de Rodrigo Sousa recolhida aqui


Uma seara à espera do vento. Um regresso em que os passos já não nos servem. Memórias que nos pertencem, mas a cuja rotina temos de nos ajustar. Como a própria Olga exprime, a Nortada sopra num ‘lugar invadido de nostalgia, de saudade, de intimidade’. É um olhar para o ontem através da visão duma criança que já não é, mas que fica eternamente presa às raízes, por mais que a distância as separe.

Uma afagosa ambiência íntima, pessoal vai-se esgaçando em sugestivas imagens, ainda que próprias, menos particulares. A primeira nasce de dentro para fora. Exterioriza-se. Amplia-se. Difunde-se. As últimas são observadas, cheiradas, apalpadas antes de serem apreendidas, interiorizadas e possuídas. Ter-me-á sido difícil ler a obra em continuidade. O que experimentei no início e me cativou, acabou por se revelar menos legível, ou mesmo indecifrável, com o decorrer do tempo. Creio não ser possível dissociar o facto da Olga ter ousado permitir que os intérpretes colaborassem num desfolhar de páginas de memórias tão pessoais, as quais dificilmente algum deles poderá ter partilhado. Possibilitou, assim, ‘desenformar’ a leitura, torná-la mais dilatada. Contudo ter-se-á dissolvido a privacidade nostálgica de memórias que lhe são exclusivas.

Foi-me agradável observar nesta mais recente criação de Olga Roriz, um registo mais poético, sereno e tranquilo, aqui e ali marcado por notas de humor. Regozijei-me de ver no mesmo palco, como intérpretes, pessoas com quem a minha vida profissional se cruzou em momentos distintos.

Nortada não será uma obra de referência no reportório de Olga Roriz, mas uma sentida homenagem de alguém a um passado que lhe pertence e com o qual pretendeu encurtar distância.


domingo, 18 de outubro de 2009

TU CÁ, TU LÁ


O aroma dum chá no deserto chamou-me, no sábado, àquele espaço onde, hoje, mora um museu de memórias da Manutenção Militar. Ia ao encontro dum encontro de palavras escritas que se reuniam numa publicação. Porventura com algum exagero é habitual chamar-se poesia a todas as palavras que não se escrevam em linhas tocando sucessivamente ambas as margens da área de registo. Mas…

A tarde começou pela recepção informal de quem ia chegando. Simpaticamente, a principal dinamizadora desta reunião de autores de palavras – Dolores Marques -, acolheu-me à entrada e anunciou-me que a única de quem eu conhecia a escrita, estaria para chegar. Alguns momentos depois dava-se luz real à comunicação que tantas vezes por aqui, ou no blog da AnaMar, se tem feito na leitura dos registos deixados. A autora de palavras que frequentemente invado para desfrutar do prazer de ler e imaginar, ganhava voz.

A tarde iniciou-se com uma entusiástica e apaixonada apresentação de imagens, objectos e recordações do historial da Manutenção Militar, pela Drª Lurdes Nunes. Descendo à ‘Padaria Velha’ iniciou-se o arrepiar das emoções. Quinze cidadãos nacionais, com uma declarada heterogeneidade relativamente às proveniências socioprofissionais, vêem reunidos, numa publicação em papel, muitos textos que derramam sentimentos, emoções que cada um terá sido incapaz de guardar dentro de si. Serão poesia? Porque não? Para mim são necessidades que têm de passar a fronteira da pele, que imigram do corpo onde nascem.

É verdade que se pode escrever como exercício. Este tipo de escrita também pode ser um desafio, uma resposta, o cumprimento dum requisito. E mesmo assim o resultado pode ser arrepiante como foi o caso da compilação concebida pela Drª Carmo Machado – a quem foi confiada a responsabilidade de apresentação da obra – que reúne palavras extraídas a textos dos quinze autores. O resultado é, num primeiro embate, inevitavelmente emocionante. Contudo ao passar, em voo cruzado, pelas palavras publicadas neste livro sob o título de Tu Cá, Tu Lá, fico com a certeza de que mais do que a intenção de escrever poesia, cada um dos autores terá sentido a necessidade de expor o seu âmago em palavras. É justamente a premência das palavras que as torna únicas e comovedoras.

E recorrendo a uma imagem que guardei das palavras proferidas por AnaMar - que assumiu a ‘indisciplina’ tantas vezes respirada na sua escrita, despreocupada quanto a regras, mas em que urge a precisão de dizer – quem assim escreve talvez não tenha a pretensão de ser poeta, mas só o de ser um poema para alguém.

Para além do prazer de personificar o rosto de palavras tantas vezes lidas, ficou-me o sabor de perceber que ao haver vontade, quando existe necessidade, o ser humano excede-se tão tranquilamente quanto expondo palavras nas quais se escreve.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

AS PALAVRAS ESCRITAS NÃO MORREM!

Foto recolhida aqui

Por razões diversas – umas entendíveis, outras inexplicáveis – não gostei, não consegui, resisti e recusei entrar na escrita de António Lobos Antunes. Há alguns meses atrás, alguém conseguiu fazer-me reconhecer que em frases soltas – apresentando-mas como citações anónimas – havia genialidade. Talvez essa pessoa, hoje, não evitará um sorriso se ler as linhas seguintes.

A entrevista de Sara Belo Luís ao Prémio Nobel português sonhado, mas ainda não concretizado, na edição desta semana da revista Visão, terá sido o texto onde consegui ler mais palavras de António Lobo Antunes, porque terão sido as que melhor compreendi e senti. Em muitas delas consegui penetrar no seu universo, consegui sorrir com o seu humor, consegui transpor para o meu imaginário alguns dos seus pensamentos expostos nesta conversa.

Um primeiro exemplo será a referência às memórias das visitas a casas tristes, habitadas por idosas tristes, decoradas com móveis que carregavam toda a tristeza da habitação e das moradoras. Ao ler as palavras de António Lobo Antunes não consegui viajar no tempo e regressar àquela casa enorme, com um pé alto que faria quatro de mim, com os tais ‘corredores compridos’ e as ‘fotografias de mortos’. São quadros que inevitavelmente ficam dentro de nós.

Mais à frente retive a ideia de que sob a forma de ‘guerra civil constante’, dentro de nós, todas as grandes opções acabam por ser irracionais. São factos vindos de céus desconhecidos que aterrando nas nossas emoções nos fazem escolher. Gostei de ler a sua convicção de que a cultura tem um poder que a politica não possui. O de, realmente, poder fazer as pessoas felizes. É ela, a cultura, que poderá responder ‘às nossas necessidades profundas, às nossas convicções, à nossa necessidade de felicidade.’ Partilho desta teoria pois acredito que é na cultura, no produto criativo cultural que o comum dos cidadãos se revê. É aí que consegue abrir portas para sonhar.

Guardo para o fim uma citação desta entrevista, porque me revi nas palavras de António Lobos Antunes quando refere que passava longas tardes com Ernesto Melo Antunes em que trocavam dez, no máximo quinze frases. Também eu creio que a comunicação é possível num silêncio parco em vocábulos, se os interlocutores se entendem. Depois sorri quando o escritor diz que se dá bem com as pessoas que falando tanto só lhe exigem um sim de vez em quando, permitindo-lhe desligar do que dizem. Finalmente algo que julgo transparecer a convicção de quem sabe que o ocultar não será a forma adequada de vencer o jogo: ‘Mas, depois da doença, aprendi a jogar com as cartas para cima porque, ao pé do nosso fim físico, tudo o resto perde importância.’

A vida mais não é do que saber jogar com as oportunidades que nos caem em sorte. De nada vale escondê-las. Saber utilizá-las será a arte que nos fará diferentes. E vencedores.

domingo, 4 de outubro de 2009

LONGE DA TERRA QUEIMADA

Foto recolhida aqui


Longe da Terra Queimada é o título adoptado em Portugal para o último filme de Guillermo Arriaga, The Burning Plain. A estrutura narrativa faz-me lembrar Babel, do mesmo autor. O tempo fragmenta-se em constantes mudanças entre o presente e o passado, bem como vagueia pelos diferentes cenários que nos conduzem ao mesmo ponto. Uma mulher bela, evidenciando um seguro desempenho profissional, transmuta-se numa apaixonada sem regras e com um desequilíbrio psicológico que nos começa por atar, a leitura, num intrincado nó. As constantes interrupções de curtas narrativas que o realizador nos propõe, obrigam-nos a uma redobrada atenção para estabelecer as ligações, para afastar a poeira que apenas confunde, para acompanhar o desfiar da tal nodosidade que nos é oferecida com instantes de alguma tensão.

Uma mulher foge de si mesma. Porquê? Porque foge dum passado que recusou fazer seu? Porque se viu obrigada a responder por uma vida que não seria a sua? Porque se sentiu no direito de comandar o presente? Porque o amor poderá ser um caminho para a descoberta? Mas também para a vingança? Porque dois seres que se amam poderão abraçar a paixão com dois objectivos distintos?

Um homem, exterior a todo o passado, acaba por estabelecer as ligações da tal linha que se vai desatando. Um estranho que a recusa, como ninguém o terá feito. Um estranho que lhe traz um pedaço do passado. Um pedaço de carne demasiado vivo para ela conseguir ignorá-lo. Um convite que a faz reconsiderar e arriscar o regresso a parte da vida de que fugira.

O amor. Como tantas vezes o fio condutor de toda a trama. De diferentes cores. Com diversos aromas. O amor proibido que determina a inibição de outro amor, que cego às fortalezas morais da família, ultrapassa as fronteiras dos espaços onde arde. O amor que explode e a faz fugir para longe da terra queimada. Mas que não consegue queimar as memórias, até porque há uma vida que abunda por entre tantas cinzas do passado.

domingo, 20 de setembro de 2009

INSPIRAÇÃO É RESPIRAR

Foto recolhida aqui


Poesia é inspiração. Poesia inspira. A poesia respira. A poesia varia consoante a respiração de quem a inspira. A poesia de João Negreiros, como já o tentei exprimir, afigura-se-me orgânica, intimista, pedaços de alma arrancados à carne, com dor, com prazer. Poder-se-á, porventura, considerar que a sua poesia transporta uma maturidade que a sua idade – se é que a idade marca o que quer que seja - poderia não indiciar.

Inspiração é Respirar é um espectáculo inquestionavelmente meritório, pelo Teatro Universitário do Minho. Para quem admira a escrita de João Negreiros, um espectáculo que pretende ser um passar pelo ‘percurso antológico da poesia’ deste jovem poeta e dramaturgo, será sempre digno de ser apreciado.

Terei de confessar, sem questionar todo o empenho, crença e obviamente amor, pelo que dizem, das jovens actrizes, que me deixou muito aquém das expectativas. Senti-o como um exercício ainda muito académico. Carente de muito do peso que a poesia de João Negreiros carrega. Mesmo que cuidada, a dicção peca, algumas vezes, por incompreensível. As inflexões traem a pretensão das intérpretes. A declamação é demasiado estereotipada. O gritar não implica, necessariamente, nem força, nem drama. Os sorrisos, ou mesmo risos, parecem-me um quanto artificiais. Aqui e ali desajustados. E naqueles que melhor conhecia, algumas respirações escolhidas desviaram sentidos dos poemas. Arrisco-me a dizer que faltará, ainda, às dizedoras a maturidade que João Negreiros revela como maior do que seria expectável.

Quando já se mastigou alguns dos textos de João Negreiros, como eu fiz, tem-se na boca, guarda-se no paladar uma gustação muito suculenta. Aquilo que eu provei em Inspiração é Respirar carece de temperos, soube-me a insonso. Mas quando há vontade, e não duvido que a haja!, há que deixar apurar, rever as doses, procurar novos condimentos. Um espectáculo tem, sempre, a obrigação de crescer. Neste exemplo há muito por onde o conseguir.

domingo, 13 de setembro de 2009

INCRÍVEL TASCA MÓVEL

Foto recolhida aqui

Considero ser pertinente perguntar se a intenção seria fazer um espectáculo. Respiravam-se uns leves laivos desta formatação, mas eram mais as não regras do que os princípios formais habituais.

Uma taberna abria-se sob o céu de Lisboa. Os 'clientes' corriam em busca da melhor posição, entre mesas e cadeiras que não negavam o peso dos anos e do uso. Em jeito de circo, o mestre-de-cerimónias anunciava a noite, descrevia a proveniência dos cenários e adereços, algumas personagens confundiam-se com o público, a maioria dos intérpretes confundia-se com as personagens.

As canções dos Oquestrada, intercaladas com incursões por Itália, Ucrânia ou fados alfacinhas, arrastaram-nos vertiginosamente ao longo de mais de duas horas. Um banho de raízes que nos agarram às proveniências. Como Marta Mateus, a vocalista, refere, as canções são partidas que anseiam pelo regresso. Nelas cheiramos as géneses culturais, as origens do grupo e, inevitavelmente, somos enviados aos nascimentos de muitas partes de nós. Popular, sem ser popularucha, a actuação dos Oquestrada permite-nos sentirmo-nos dentro, parte integrante da mesma. Ora com o acompanhar rítmico, ora seguindo as letras, ora para os mais impetuosos juntando-se à festa e à dança.

Desde a estrutura e ritmo da sequência, às figuras que povoam aquele imaginário que nos é oferecido, até aos instrumentos musicais utilizados, ou forma como alguns deles são tocados, quase tudo é anti-convencional. Mas no final só se pode ter uma forte e estruturada convicção: assistiu-se a um grande espectáculo! E como se tal não bastasse, no meu caso pessoal, ainda me apelou ao sentimento, à emoção das múltiplas referências a um local insignificante, imperceptível, ignorado, incógnito, ‘inexistente’ na rede de salas de espectáculo do nosso País: a Incrível Almadense, o primeiro palco que pisei.

Na passada sexta-feira, e no âmbito do Programa "Todos, uma caminhada de culturas", a Incrível Tasca Móvel atravessou o rio e instalou-se no Martim Moniz. Foi a primeira oportunidade que tive de ver os Oquestrada ao vivo. Na sexta-feira, houve festa, da rija, na Mouraria.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

O SOLISTA

Imagem recolhida na net


O Solista é um livro sobre paixões. Sobre os impulsos que nos guiam sem que questionemos ou perspectivemos o depois. Sobre as forças que têm vida, que precisam ser alimentadas, que precisam de ser acreditadas.

Damos-lhe a mão às primeiras páginas e, ainda, antes que confiemos, já ele nos puxou para o universo das doenças mentais. Ainda sem segurança no caminhar tropeçamos nos conflitos dos que têm diagnosticados desequilíbrios psíquicos, mas que se revelam não ser exclusivos deles. Também os que se decidiram pelo seu apoio duvidam enquanto outras dúvidas nublam o caminho da certeza.

Enquanto o prazer nos leva a querer saber mais, deparamo-nos com os raciocínios planeados, estruturados dos que, supostamente, têm uma mente sã, serem desconstruídos pela argumentação, porventura, obsessiva mas reconhecidamente racional do que é clinicamente, considerado insano.

Steve Lopez mostra-nos o poder de acreditar e a forma como aquilo em que se acredita nos abre portas para caminhos por desvendar, ou que simplesmente precisam de ser iluminados. Em O Solista é a música esse elo de crença. Mas não exclusivo, mas não limitado. A capacidade de crer depende do ser humano e este é obrigado a confiar para viver, para deixar e fazer viver. Na tolerância sobrevive-se, na crença vive-se.

O Solista é um livro impregnado de sensibilidade, a que não é possível fugir sem emoção. Algumas vezes tornada comoção.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

O CHEIRO DA SOMBRA DAS FLORES

Foto recolhida aqui


O primeiro contacto foi aqui. E li. E a sensação foi tão… que corri. E na primeira livraria com que me cruzei, um livro para ler mais, procurei. Mas não encontrei. E em cada livraria que entrava, eu procurava, mas não encontrava. E depois noutra, e mais noutra e até noutro, quando fui ao Porto. E nunca o descobri e mais não li, até que de novo o vi aqui. E foi então que pedi uma mão para chegar à solução. Foi aqui que a pedi e fui remetido para ali. Por fim, depois de muito calcorrear já tenho nas mãos O cheiro da sombra das flores.

Comecei-o a ler e a soçobrar à magnitude da escrita. Num arrepio constante fui passando de poema para poema. E a pele não serenava. E eu fui ficando saborosamente estarrecido. E tentava apanhar cada pormenor como se me atirasse para o chão e, de gatas, procurasse cada migalha caída, impossível de desperdiçar. E aqui e ali um sorriso implantava-se-me nos lábios. E outro rasgava-me o peito, enchendo-me de alegria e de deslumbramento o interior. Que prazer. E esmigalhando-me fui ficando mudo, reduzindo-me cada vez mais à minha insignificância.

E sinto-me incapaz de o descrever. Por isso permito-me recorrer a excertos do Prefácio, nas palavras de Joaquim Pessoa, as quais considero serem inequivocamente assertivas. "…transformando com invulgar talento as diversas vozes que há na sua voz, de modo a oferecer-nos um canto em que a dúvida, a interrogação do outro, a confrontação do individuo com a realidade é, às vezes, dolorosa, e muitas vezes, incómoda. A sua repetição rítmica das palavras, das ideias, dos conceitos é uma arma de confronto, de arremesso contra uma realidade parada ou contra o indivíduo parado num palco que se move à sua volta."

Para mim, João Negreiros brinca com as palavras descobrindo-lhes rolamentos, cordas, elásticos, esticadores que se me afiguravam inexistentes até lhos ler em exemplos despejados de enxurrada. João Negreiros brinca com o leitor porque o leitor é cada um de nós, de vocês, é o homem, a mulher, a criança, o velho. É ele próprio. E brinca com a vida provocando-a, na expectativa de se ver confrontado por ela para, posteriormente sair, ele próprio da posição de defesa e reinvestir. Nunca se sentando. Nunca tolerando. Nunca se calando. É-me impossível eleger um excerto ou um poema para identificar as emoções que pretendi aqui deixar, mas consciente de estar a cometer alguma injustiça transcrevo um exemplo identificativo da singulariedade da sua escrita. Intitula-se O Colo, e é assim:

Dá-me esse abraço
p’ra não sentir este aperto
dá-me este amasso
p’ra te contar com apreço
que não consigo
que é muito
perco-me amei-o

nas contas do colar a ti

E ao chegar ao fim fiquei assim, com vontade de regressar para recomeçar e voltar a ler e de novo beber cada intuição, cada emoção até me sentir um oceano que engoliu uma floresta.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

DRUMMING NO FESTIVAL DOS OCEANOS

Foto do meu Nokia

À largura de todo o exterior do topo norte do Pavilhão de Portugal, estendiam-se seis palcos, cada um com uma dezena variada de instrumentos de percussão. Os seis músicos, liderados por um dos mais conceituados percussionistas internacionais Miguel Bernat, assumiam-se proprietários de cada um dos espaços conforme os compositores interpretados, trocando de ‘propriedade’ antes de cada obra.

O concerto abriu com um dos movimentos de Plêiades de Iannis Xenakis, compositor romeno, que estudou na Grécia e um dos mais influentes compositores contemporâneos. Seguiu-se-lhe Marés de Moçambique de António Chagas Rosa, inspirado em trabalhos de Luís Noronha da Costa cuja pintura prima pela tentativa de desfocagem do objecto. A terceira obra, intitulada Rosa Noir de l’Étoile, é de autoria de Gérard Grisey, compositor francês que nela retrata a descoberta e o pulsar das estrelas. Para concluir o concerto, um regresso a Xenakis, com outro movimento de Plêiades.

Um programa complexo que terá tido bastante dificuldade em agarrar um público disperso por uma área demasiado abrangente e, cuja maioria, expectava algo mais ritmado. Nas oito colunas arquitectónicas, bem como no centro delas, foram projectados, ao longo de todo o concerto, uma série de imagens e de efeitos luminotécnicos que visavam concentrar o público na área de actuação. Receio que não tenha sido conseguido. Quem se encontrava no centro do espaço reservado ao público pôde experimentar pormenores curiosos do desenho de som. Seis colunas de monitorização colocavam-se junto dos palcos. Efeitos sinuosos faziam-nos perder a noção sobre a origem de cada som, pois ao ser amplificado do lado direito poderia bem ser o do palco do lado esquerdo. Um efeito realmente ilusório, mas porventura demasiado enganoso.

Como me dizia Miguel Bernat no final do concerto, é necessário trazer composições novas ao público. Concordo! Limitarmo-nos ao que sabermos ir ser sucesso, pode vender bilhetes, mas não provoca a evolução do público. Contudo, e quanto a mim, lamentei que a excelência daqueles exímios intérpretes quase tenha passado despercebida. As pessoas desistiram, viraram costas… enquanto a lua, plena no seu esplendor, subia lentamente no céu sobre o rio Tejo, e num prolongado namoro com o Oceanário.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

ELEGIA

Foto recolhida aqui


O tempo passa sem que dêmos por isso. A idade avança, o físico até pode derrocar com ela, mas o poder do desejo mantém-se intacto, enquanto conseguirmos olhar para a beleza com a mesma contemplação. A obra de arte é a mesma desde que criada até que o tempo passe por ela, mas nunca será igual, porque os olhares são diferentes e mesmo que o mesmo, variará com os nossos estímulos.

Poder-se-á chamar amor, o mesmo amor, o de quem gosta do que olha, apreendendo-o como a mais sublime criação universal, e o de quem gosta porque entra bem fundo e agarra o âmago do outro?

Como se podem ligar duas atracções distintas como a que se prende ao belo, ao perfeito, e a que fica presa à mestria da eloquência? Não será esta uma quase regra do amor entre o homem e a mulher? Ele deseja a imagem dela, ela o saber dele. Quantas relações vivem, sobrevivem, vegetam neste contacto que não se entende, que anos e anos nunca consegue falar a mesma língua?

Para o homem, a mulher é um quadro, uma representação, as palavras, a composição musical. Para a mulher, o homem é a tinta que tem de ser escolhida para pintar, é o conteúdo que se quer transmitir no drama, é a razão da escrita, é o coração que marca o ritmo do metrónomo.

E mesmo que a idade avance, que o tempo passe sem pedir autorização, as perdas são irrecuperáveis. Mesmo que nos mentalizemos de que as ultrapassaremos, as perdas revelam-se feridas que não saram. Podem até ficar esquecidas mas basta que se lhes toque para voltarem a sangrar. Seguramente na morte e provavelmente na doença existirão caminhos impossíveis de regressar. Mas, noutras situações, para evitar a mágoa, ou se recupera o perdido – um pai e um filho podem reaver a relação abandonada -, ou então evita-se a perda. Antes de se perder fica-se lá… com o que não queremos perder.

Os soberbos Ben Kingsley e Penélope Cruz dão corpo a muitos destes diálogos, destas dissonâncias, destas duas vozes a falar o amor. Elegia é um filme de que se sai com a sensação de levar ‘trabalho para casa’. É como se nos tivessem desarrumado sentimentos, convicções, posturas… as gavetas foram todas revoltas e agora é preciso organizá-las, arrumá-las, seleccioná-las, antes de as voltar a fechar. Porque o tempo passa pela vida sem que quase dêmos por isso. E o amor merece ser vivido e respeitado como uma peça de arte, concebido por um génio, sublime, inigualável e olhado, a cada dia, com um olhar diferente, o nosso, sempre repleto de contemplação.


quinta-feira, 23 de julho de 2009

LEITE DERRAMADO

imagem à solta na net


Da minha leitura de Budapeste lembro, especialmente, o ritmo alucinante de escrita que obrigava a uma leitura sem fôlego, que exigia uma atenção redobrada como quem pretende guardar todos os pormenores das viaturas que cruzam uma auto-estrada a alta velocidade.

Esta imagem marcou-me de tal forma que ao pegar em Leite derramado, o mais recente romance de Chico Buarque, angariei resistência e preparei-me para uma leitura duma nova escrita a alta velocidade.

Conforme fui entrando no quarto onde o moribundo vai narrando parte da história da sua vida, fui-me apercebendo que o ritmo esperado não existe antes é substituído por uma impressionante capacidade imaginativa de encarnar o final de vida dum idoso decadente. No princípio chego a questionar-me se teria sido distracção minha a sensação de já ter lido a descrição sobre o momento de atracção por Matilde. E feito néscia considero ‘Ups! Há por aqui gralha…’ E só como terceira hipótese percebo que poderá ser o declínio das capacidades psíquicas do narrador a provocar o ‘erro’.

E com o desenrolar das páginas chega a tornar-se incómoda a forma tão factual como Chico Buarque encarna, nas suas palavras, a demência dum velho que gasta o seu tempo entre o recordar e o relatar dum amontoado de memórias, ora desarrumadas no tempo, ora na realidade do contador.

Nos últimos parágrafos arrepiei-me com a lembrança de visita ao seu tetravô, que assumi tanto poder ser uma recordação real, quanto o ver-se a si próprio ao espelho, nos últimos momentos, nos derradeiros suspiros, nas palavras finais duma história.

Leite derramado não confirma a qualidade de escrita descoberta em Budapeste, antes a potencia com a revelação de novas ferramentas dum senhor que não sabe só cantar, nem só escrever letras de canções, nem só derreter corações femininos, nem só jogar futebol… Chico Buarque consagra o que já era sabido: É um grande Senhor também na literatura!

terça-feira, 21 de julho de 2009

UMA ONDA... DE MARÉS VIVAS

Foto recolhida aqui

No sábado, fui arrastado numa maré viva. Num impulso meio adolescente, ainda que previamente delineado, deixei-me ir na onda e rumei até ao Cabedelo, onde se prometia um conjunto de concertos digno dos 25,00€ pagos para ter acesso.

Confesso que ainda nunca me aventurara em alguma destas iniciativas que, de ano para ano, marcam mais os Verões. Uma teria de ser a primeira. E ainda que para fiscalizar (sem controle remoto) a adolescência que me descende, lá fui até ao palco mais procurado na área do Porto, no passado dia 18.

Perante a minha total inexperiência e desconhecimento sobre o funcionamento destes acontecimentos, uma vez que fora anunciado os concertos se iniciarem pelas 18h00, e as portas abrirem uma hora antes, organizei-me para lá chegar entre uma hora e a outra. Assim aconteceu.

Já passava das 17h00 quando o autocarro me deixou na última paragem, a que dava acesso ao Festival. Uma multidão aglomerava-se à entrada e uma fila ordenava-se para um dos lados da estrada. Civilizadamente fui colocar-me no final da fila. Mas abertura das portas não era acto que se vislumbrasse. O tempo foi correndo e, à boa maneira portuguesa, foi formada uma outra fila para o lado oposto… às 18h00, quando a primeira banda portuguesa iniciava a sua actuação, resolveram franquear os acessos.

À entrada, os fiscais obrigavam a que nos desfizéssemos das garrafas de água com tampa, ou pelo menos desta última. Princípios de segurança que se revelaram inconsequentes, pois dentro do recinto vendiam garrafas de água com… tampa! O concerto de Gabriela Cilmi anunciava-se [pelo boca a boca, pois no site oficial não conseguira descobrir] para as 20h30. Faltava muito tempo! Dois destinos monopolizavam já os milhares que haviam entrado: os primeiros lugares junto ao palco principal e a área das comidas. As bandas portuguesas actuavam num palco mais pequeno para algumas dezenas de pessoas.

Com alguma antecedência, fui tomar o meu lugar sentado, no chão entenda-se, e aguardar. Por instantes sentia-me fora do contexto quando olhava à minha volta e não via ninguém que se aproximasse da minha idade. Tranquilizava-me quando avistava um progenitor acompanhado da sua ‘cria’.

Impreterivelmente à hora marcada, Gabriela Cilmi subiu ao palco e iniciou a sua actuação. Ao ritmo de uma hora para cada concerto, intervalado por meia hora de montagens técnicas, afinação de luzes e som, e mais acertos, sucederam-se Colbie Caillat, Jason Mraz e os Keane. Gabriela Cilmi, porventura, a menos mediática de todos os que actuaram, surpreendeu pela sua maturidade e o modo como conseguiu agarrar o público para além do seu êxito mais conhecido:
Sweet about me.

O espectáculo cresceu com Colbie Caillat que fez incursões pelos blues, que reviveu
Killing me softly with this song, de Roberta Flack, permitindo juntar adolescentes e adultos a cantar com ela, e que se fez acompanhar por uma extraordinária banda onde destaco Justin Young. Terá pecado, na minha opinião, por exagerados mimos à plateia, os quais me soam sempre a acções de charme dispensáveis por não serem totalmente sinceros. Antes de cantar Bubbly lamentou que Jason Mraz estivesse atrasado e não pudesse cantar com ela o dueto Lucky, esperado pela esmagadora maioria dos presentes. Eu incluído, confesso! Era obviamente mais uma acção de charme.

Jason Mraz chegou antes do dia mudar. A noite tomou, ainda, mais a temperatura do Verão ao som dos ritmos das percussões caribenhas e do trio de instrumentos de sopro. Foi sem dúvida quem colocou a plateia mais em acção, incitando a participação duma forma mais intuitiva. A meio da sua actuação satisfez a expectativa da multidão chamando Colbie para o momento, arrisco, mais esperado da noite. A concluir, recorreu à composição de Lionel Richie para pôr os milhares de pessoas a cantar
All night long.

Os Keane fecharam a noite. Os mais consagrados de todos os actuantes seriam os que traziam maior número de canções popularizadas. Apresentaram, em sucessão, inúmeros temas como
Nothing on my way, Somewhere only we know, Everybody’s changing ou This is the last time, cantados por muitos milhares de vozes.

Nesta onda de marés vivas senti um inesperado conjunto de horas com idade indefinida. Rodeado por
teenagers, senti-me velho por ali estar. Mas, por outro lado... Talvez... Durante a actuação de Jason Mraz, uma adolescente, mesmo ao meu lado, de trinta em trinta segundos gritava o nome do intérprete seguido de um grito agudo histérico. E porque denotava uma genuinidade extrema era impossível não sorrir perante a sua atitude. E… acabei por me sentir mais jovem, por ali estar.

domingo, 19 de julho de 2009

OUTROS

Foto à solta na internet


Na sexta-feira, o ‘Sã João’ estava lotado. Um público extremamente informal e heterogéneo, que ia dos pais aos filhos e dos netos aos avós.

OK! Esqueçamos as limitações vocais que se tornam ainda mãos notórias nas canções que não são as dele. Mas não conseguimos passar indiferentes à entrega, ao quanto ele põe em palco, do seu interior, do seu eu. O espectáculo chama-se Outros, porque Pedro Abrunhosa canta essencialmente canções de outros, mais algumas dum ‘careca do Porto’. Eu diria que não é propriamente um espectáculo. Imaginei-me a entrar no seu quarto num momento em que ele folheava um álbum que não era de fotografias, mas de canções que ouviu na sua infância e na sua adolescência. Como Pedro Abrunhosa é apenas uns meses mais velho do que eu, a maioria dos temas que relembrou são também das minhas infância e adolescência.

Sem ser exaustivo nos autores/cantores interpretados, Abrunhosa recordou nomes como Leonard Cohen, Prince, Art & Garfunkel, Tom Waits, Lou Reed, Bob Dylan, Ray Charles e os portugueses Fausto e… Pedro Abrunhosa.

Diz o intérprete/autor que “Na história das minha música cruzam-se vozes, sombras e ecos de autores que por dentro foram moldando o horizonte dos meus próprios passos. (…) com Outros presto tributo aos que inventaram afectos através do formato ‘canção’. É tão pesada a herança quanto o desafio.”

Relativamente a Pedro Abrunhosa e especialmente aos seus poemas, diria que ele não inventa, antes traduz os afectos que pulsam em mim. Ao ouvir, ao ler, ao cantar, as suas canções, são os meus afectos, ou a sua inexistência, que se escrevem com as palavras que ele inventa.

O concerto são duas horas e meia de entrega, de prazer e de muita, muita realização pessoal, de Pedro Abrunhosa. Acompanhado por cinco fantásticos intérpretes, tenho de destacar, ainda que muito curta, a participação de Edgar Caramelo. Ao longo de todo o concerto, Abrunhosa revela um apurado sentido crítico e de humor. Lê alguns curtos textos de poetas e escritores portugueses contemporâneos. De entre muitos retive umas curtas palavras de Jorge de Sousa Braga, que o próprio Abrunhosa identificou como tendo um título maior do que o poema: “Ao menos | os teus olhos permanecem | verdes todo o ano” sob o título Nos semáforos da Rua de Santa Catarina. Não se coíbe de ser mordaz e pôr em causa a inércia dos governantes; quer os que estão nos ministérios, quer, e sobretudo, os líderes municipais com especial ênfase para Rui Rio.

O espectáculo conta com a projecção de imagens pejadas de sensibilidade, de Augusto Brázio, e dumas interventivas luzes de Nuno Meira. No fundo são diferentes espectáculos, no mesmo evento.

Para colmatar tudo o que narrei, fui um dos contemplados com um aperto de mão quando Pedro Abrunhosa desceu à plateia. Que mais pode ambicionar um fã, que teve o privilégio de ouvir, ao vivo, canções como Ilumina-me, Se eu fosse um dia o teu olhar, Eu não sei quem te perdeu ou Quem me leva os meus fantasmas?

domingo, 12 de julho de 2009

A PROPOSTA


Uma comédia simpática que nos vai fazendo sorrir. O poder exercido por uma mulher líder que na profissão vai espalhando o ódio entre os súbditos que a temem, mas não a respeitam e cujo assessor é um fiel apoio, porque movido por interesses de promoção profissional. Ela é editora e ele, para além de ambicioná-lo ser, gostaria de ver publicado um manuscrito de sua autoria. Como contraponto imediato a uma posição em que, uma vez mais, fez uso da sua autoridade, Margaret [interpretada pela bela Sandra Bullock] vê-se confrontada com uma inesperada realidade que lhe provoca uma desagradável surpresa. Uma vez mais recorre aos seus atributos e ‘obriga’ Andrew [interpretado por Ryan Reynolds] a tornar-se seu noivo. Contudo a sua posição fragiliza-se e Andrew percebe que poderá valer-se disso, assumindo o controle sobre o desenvolvimento dos acontecimentos próximos.

Por entre sublevações entre personalidades, a comédia leva-nos através de momentos que nos fazem pensar nos valores da família, na dificuldade em aceitar as diferenças e na força que se derrete quando o sentimento ressuscita de memórias esquecidas.

Inesperadamente, o drama, algumas vezes ameaçado, toma conta da comédia e a leveza do filme entristece. Depois… o inesperado não acontece e o humor volta a tomar conta das últimas imagens.

Um filme que se vê aprazivelmente se não criarmos a expectativa de ir encontrar uma obra cinematográfica sublime. Um filme agradável se não formos à procura de algo que nos enriqueça o dia. Uma forma de aliviar o domingo quando se pensa que amanhã é segunda-feira.

domingo, 5 de julho de 2009

PITIÉ!

Foto recolhida aqui


Antes das luzes se apagarem foi pedido um minuto de silêncio por Pina Bausch. Terão sido raríssimas as vezes de que me lembro uma plateia ter cumprido tão rigorosamente mutismo absoluto por tão longo tempo. Não se ouviu um único tossir, espirrar, fungar, acerto de garganta… foi bonito de sentir.

Quando o pano revelou a cena, perceberam-se uma dúzia de peles pendendo de diversos pontos da estrutura da teia. Na mezzanine duma estrutura revestida a madeira, oito instrumentistas; sentados ao redor duma mesa, três cantores; num banco ao fundo da cena, oito bailarinos. Descobrir-se-ia pouco depois que enormes lençóis de plástico encobriam os corpos dos bailarinos que totalizavam a dezena. O silêncio foi cortado por um grito: ‘Que as palavras se transformem em carne!’. Ditas em português, por uma voz que reconheci… e me provocou mais um arrepio... era a do Romeu, do Romeu Runa.

E os corpos começaram a gritar, a usar a pele e a carne, para escrever sobre compaixão, sofrimento, misericórdia, amor. Platel usa uma mensagem comum a muitas das narrativas sobre a história de Cristo: ‘Amai-vos uns aos outros.’ para trespassar para a plateia o sentido de amor ao próximo. Outra referência a que recorre é da própria
Paixão segundo São Mateus ‘estamos na terra para morrer’. Porque ‘qualquer nascimento é uma condenação à morte’ pretende o criador belga que os espectadores sintam a irreversibilidade da necessidade de cultivar a solidariedade, ‘alicerçada na consciência partilhada de que somos todos iguais; que vamos todos morrer e que, talvez, um sentimento de misericórdia possa emergir’.

Os corpos não dançam! Movem-se usando toda a beleza que pode advir da expressão de um corpo que quer dizer. A pele é, quase, literalmente arrancada à carne. Os bailarinos usam-no para sentirem o outro, para o moverem, para lhe provocarem a reacção. Não são movimentos bonitos. Serão mesmo incomodativos. Mas deles nascem ondas de sequências onde a harmonia toma conta de dez corpos expressando-se em uníssono, um vocabulário corporal que nasce nas vísceras, que tresmalha a carne, arranca a pele e esbofeteia a plateia. São sucessivos murros no estômago que o espectador vai sofrendo na sua contemplação.

É a arte de Platel, mas nunca deixa de surpreender quando a dado momento o contratenor se revela um bailarino tão exímio quanto os outros que o haviam assumido desde o início. Quando nos surpreendemos ao ouvir um coro, e julgamos tratar-se de música gravada, mas ao procurarmos com mais atenção nos apercebemos que são os próprios bailarinos a consegui-lo. Quando se identifica uma quarta voz, e nos questionamos quem será, e acabamos por descobrir ser o instrumentista que toca flauta transversal. Ou ainda quando um novo ‘coro’ nos leva a perceber que agora é a vez dos instrumentistas calarem o violino, o acordeão, a percussão, o trompete e o violoncelo, para usar somente a voz.

As surpresas são ininterruptas. Quase nos sentimos tentados a usar o comando, de que não dispomos, para ordenar o
rewind e ver de novo, agora em câmara lenta. Quando se ouvem os primeiros acordes da adaptação, composta por Fabrizio Cassol, para a ária Erbarme dich, não é a pele que se arrepia. É todo o corpo que se contrai. É, também, essa uma das leituras possíveis nos corpos dos que dançam. Na partitura os instrumentos vão alternando protagonismo entre si e com as vozes.

Ao fim de duas horas o espectáculo deixa-nos de rastos pela sua singularidade, pela forma como vinte e um intérpretes deixam ali pedaços arrancados à sua alma.

Por mim, creio ser impossível falar desta obra, pois, na realidade, as palavras transformam-se em carne. E é esta que sofre, que grita, que se move, canta, toca e grita palavras que não se escrevem. Parafraseando Alain Platel ‘A presença da pele e da carne exprime a necessidade irreprimível de sentir o outro’. Para amar, para ter compaixão, para morrer com


pitié! de Alain Platel e Fabrizio Cassol esteve no CCB, nos dias 3 e 4 de Julho e estará no Teatro Nacional S. João, nos próximos dias 7 e 8 deste mês.


domingo, 28 de junho de 2009

DOIS DIAS PARA ESQUECER


O que pode levar um homem, criativo publicitário de sucesso, casado, com dois filhos maravilhosos e uma vida desafogada, ao celebrar 42 anos colocar em questão tudo o que construiu, tudo o que possui? Renunciando à formalidade que nos obriga a cumprir regras de boa educação e calar, quase imperceptivelmente, muito do que, tantas vezes nos apetece dizer, começa a assumir a sinceridade, a frontalidade, a verdade, obviamente magoando, opondo-se, criando uma onda de antipatia à sua volta. O que pode levar um homem a desfazer a sua sociedade empresarial? A discutir com a mulher? A pôr em causa a perfeição dos desenhos que os seus filhos lhe oferecem como prendas de aniversário? A desafiar todas as regras que sempre terá cumprido? A confrontar, um a um, todos os amigos que se reúnem para uma festa surpresa? A despedir-se da filha antes de partir, anunciando-lhe que irá para longe e não voltará? A ferir-se com o reconhecimento na manhã seguinte, antes da partida definitiva, que a vida continua sem ele, que os seus filhos mantêm viva a alegria de brincar, mesmo na sua ausência? A partir para destino longínquo arriscando na condução, na ofensa àquelas com que se cruza? A apoiar um homem a quem dá boleia? A ir ter com o pai que o abandonara e à mãe, quando tinha treze anos? A confrontá-lo com a sua ausência enquanto avô? De onde vem toda esta sede de viver como se tivesse de ser transparente… como a água mais límpida do rio onde vai pescar com o pai?

São questões a que não posso responder sob pena de revelar todo o interesse que considero revestir Dois dias para esquecer. Recomendo vivamente este filme de Jean Becker, Deux jours à tuer no original, o qual parece estar em exibição unicamente em Lisboa… para quem não o conseguir ver e tiver curiosidade de saber mais, estou a preparar uma visão mais pormenorizada e reveladora sobre o filme. Terei todo o prazer em facultá-la.

domingo, 21 de junho de 2009

MAIORCA

Foto de José Alfredo


A cena aberta permite um olhar raso sobre o palco. Quase como se assumíssemos o lugar de Pedro Burmester a olhar aqueles para quem vai tocar. Destroços dum naufrágio parecem flutuar sobre os reflexos de luz que aquecem o linóleo. São painéis e corpos, estes exaustos, que acordam dum repouso forçado pelo desaforo da sorte. Conforme os painéis se personalizam enquanto peças dum puzzle tridimensional, os corpos, numa voz gestual cujo movimento se dimensiona de fora para dentro, vão-se metamorfoseando em diversas existências. O corpo cego que se expressa num movimento falante, o movimento cego que grita um corpo exuberante. O humor também marca presença. E o movimento vai unindo-se na perfeição com o cenário. São perfeitas muitas soluções cénicas idealizadas e concretizadas com mestria. Intercalam-nas momentos coreográficos de sublime poesia como o do corpo masculino que atravessa a cena num registo de esforço quotidiano agonizado por uma tentação diabólica, ou o do corpo iluminado em diálogo uníssono e perfeito, primeiro, com o ser amado ou a certificação da razão, e depois alargando-se ao grupo, aos seguidores, às massas que lhe respeitam as orientações. Mas quando se recorre a Chopin, ainda que respeitando a diferente sensibilidade que possa despertar a cada um, incomoda percepcionar que o movimento crie mais sinergias com as peças cénicas do que com a própria música. Senti como inconveniente que, em alguns momentos, o manuseamento dos elementos cénicos criasse ruídos que se sobrepunham ao piano de Burmester. Apetecia-me que os muitos instantes inspirados se associassem como um todo e não nos deixassem o sabor de corpos isolados flutuando à superfície do oceano. Maiorca é como um poema povoado por inúmeros versos lindíssimos que, agora, precisam ser limados para se conjugarem e resultarem numa ode MAIOR.

Foi sábado à noite, no Olga Cadaval, em Sintra, integrado na edição 2009 do Festival de Música e Dança, que foi apresentada a mais recente criação de Paulo Ribeiro, com Pedro Burmester a interpretar, ao vivo, 24 Prelúdios de Fryderyk Chopin.