sexta-feira, 30 de outubro de 2009

NORTADA

Foto de Rodrigo Sousa recolhida aqui


Uma seara à espera do vento. Um regresso em que os passos já não nos servem. Memórias que nos pertencem, mas a cuja rotina temos de nos ajustar. Como a própria Olga exprime, a Nortada sopra num ‘lugar invadido de nostalgia, de saudade, de intimidade’. É um olhar para o ontem através da visão duma criança que já não é, mas que fica eternamente presa às raízes, por mais que a distância as separe.

Uma afagosa ambiência íntima, pessoal vai-se esgaçando em sugestivas imagens, ainda que próprias, menos particulares. A primeira nasce de dentro para fora. Exterioriza-se. Amplia-se. Difunde-se. As últimas são observadas, cheiradas, apalpadas antes de serem apreendidas, interiorizadas e possuídas. Ter-me-á sido difícil ler a obra em continuidade. O que experimentei no início e me cativou, acabou por se revelar menos legível, ou mesmo indecifrável, com o decorrer do tempo. Creio não ser possível dissociar o facto da Olga ter ousado permitir que os intérpretes colaborassem num desfolhar de páginas de memórias tão pessoais, as quais dificilmente algum deles poderá ter partilhado. Possibilitou, assim, ‘desenformar’ a leitura, torná-la mais dilatada. Contudo ter-se-á dissolvido a privacidade nostálgica de memórias que lhe são exclusivas.

Foi-me agradável observar nesta mais recente criação de Olga Roriz, um registo mais poético, sereno e tranquilo, aqui e ali marcado por notas de humor. Regozijei-me de ver no mesmo palco, como intérpretes, pessoas com quem a minha vida profissional se cruzou em momentos distintos.

Nortada não será uma obra de referência no reportório de Olga Roriz, mas uma sentida homenagem de alguém a um passado que lhe pertence e com o qual pretendeu encurtar distância.


3 comentários:

Alexandra disse...

Algo mais e importante que ficamos a conhecer. Obrigado!

AnaMar (pseudónimo) disse...

Olga Roriz, inesquecível.Intemporal.
Bonita homenagem a tua. De ver com olhos de sentir.
Bj

susana disse...

Não levas a mal se eu ficar com dor de cotovelo? Ainda não consegui retornar à cultura...