quarta-feira, 7 de outubro de 2009

E SE NÃO HOUVER AMANHÃ?

Foto de Philip LePage


A dez mil metros de altitude apercebia-se de como alguns ímpetos podem romper os tecidos da razão cerzidos em princípios e ponderação. Tomava noção da fragilidade do querer quando se acendem outras vontades tentadas domar pela racionalidade, mas que insistem em se manterem activas na força dos sentires.

A decisão que tomara e a levara a estar, nesse momento, viajando para longe de casa, seria uma ideia louca e inquestionavelmente recusável há uns meses atrás.

Toda a razão cai por terra quando as emoções falam mais alto. A razão ficara para trás, abandonada em terra. Fora a emoção que a impelira a voar. A partir em busca do que recusara. Do que se esforçara por ignorar. Até ao momento de se sentir incapaz de resistir mais. Até ao instante em que a água transbordou ou o oxigénio se esgotou.

Viajar até Moçambique tornara-se a única opção possível. A única forma de encontrar quem tinha deixado fugir. De dar asas ao sentimento que tantas vezes recusara reconhecer. De deixar arder a vela que tinha pavio e não as outras que queria fazer queimar.

Partira sem referência, sem certezas de como chegar àquela necessidade de repor a felicidade no copo que queria ser por ela bebido. Partira de peito aberto, de braços estendidos, acelerada nas batidas dum coração que já não sabia esperar mais.

Já não faltava muito para aterrar.


Antecedentes

5 comentários:

milhita disse...

Mais um texto envolto em vontade de vida.. Uma força intrinseca que nos move, que nos mata e nos faz renascer.
Neste meu compasso de tempo, solto-me em ordem largada do mesmo caos.
Vontade de ser...
Um abraço

cilita disse...

Li todos os antecedentes, que me prenderam."E se não houver amanhã",porque não, ser o titulo do livro tão esperado?...Está simplesmente fantástico.

Herro Crasso disse...

Qual Schahriar, sinto a curiosidade do porvir. O suspense gera a idealidade.

A determinação e a criatividade que conquistaram outrora a liberdade, aparecem aqui numa fórmula semelhante: prendendo a atenção e despertando o interesse no encanto das palavras.

“Já não faltava muito para aterrar” soa como o romper da aurora. Quando o sol beijar a língua do horizonte que prossiga a narrativa e com ela a esperança de um novo alvor.

E assim me atrevi por aqui…

Tia_Cunhada disse...

Why not? Life is so short...

Quem me dera a coragem de fazer o que mandam as emoções... Quem me dera. Viveria, seguramente, momentos muitos felizes...

Beijo

elisabeth disse...

sim, sem dúvida, vivemos a tensão entre razão, ponderação e emoção, onde se encontrará a felicidade? como conseguir o equilíbrio? voos altos e pés na terra? ou será impossível? não é sempre preciso aterrar algures?

mas, afinal... se não houver amanhã, o que é que verdadeiramente conta, nos faz sentir vivos?

inquietações, obrigada pelas sugestões...