
Foto de Philip LePage
Com o auxílio do responsável pelo Centro de Língua Portuguesa não foi difícil conseguir quem a conduzisse até Massinga. Fanuel era ainda jovem mas a pele carregava já o peso de muitos dias corridos entre a desventura duma vida mais lutada do que vivida. Tinham-lhe assegurado que estava habituado a fazer esta ligação que cruzava parte do trajecto entre Maputo e a Beira.
Na estrada de terra batida abriam-se buracos, crateras, autênticos degraus que a viatura tinha de subir e descer. Inesperadamente um desvio por terrenos desbravados entre a arborização era opção única à zona obstruída para obras, sem qualquer aviso prévio. Mais adiante pequenas áreas de alcatrão desgastado descobriam-se no meio da poeira alaranjada que mancha o caminho e as ruínas de construções em madeira, lutando por se manterem em pé. Ao atravessar um aglomerado de habitações mais cuidadas, que anuncia a realidade duma povoação, alguns edifícios mantêm marcas de balas duma guerra civil que a muitos assustou a vida e cansou precocemente a idade. Num edifício rasgado por uma dezena de janelas no rés-do-chão e varandas sustentadas por colunas, no primeiro andar, aloja-se uma escola primária que termina numa torre com um sino.
Conforme a distância se encurtava, sentia o seu coração precipitar-se numa batida descontrolada e agressiva. Queria acreditar estar finalmente perto o objectivo que a levara a deixar Portugal e percorrer mais de oito mil e quinhentos quilómetros.
Finalmente, Fanuel indicou-lhe um pequeno grupo duma dezena de crianças que, sentadas no chão, se prendiam numa atenção extremada à voz pausada da irmã Giovanna, que fugia do italiano em busca dum português tentado. Colmos, apoiados em ramadas secas, serviam de parede e de tecto ao que seria a sala de aula. Aproximou-se do grupo e esperou que a sua presença fosse notada. Pressentiu que já a tinham percebido. Deixou que a irmã Giovanna tomasse a iniciativa. Demorou poucos minutos para que concluísse com as crianças e se lhe dirigisse.
- Buon dia. Posso aiutar?
- Bom dia irmã. Venho de Lisboa à procura do Dr. Miguel Albergaria.
A irmã Giovanna tentou controlar uma maior expressividade no rosto. Segurou-lhe num braço e…
- Acho melhor irmos falar com o Senhor Padre.
Sentiu o tempo parar naquela curta caminhada até à porta que dava acesso à habitação do Padre Salomão. As palavras emudeceram. O tempo tornara-se um vácuo. Entrou. As mãos tremiam-lhe. O sacerdote pediu-lhe para se sentar numa cadeira enquanto a irmã Giovanna providenciava um copo de água. Paulatinamente o Padre Salomão, entre desculpas, revelou-lhe que o jipe onde Miguel Albergaria se fazia transportar há menos duma semana atrás, se incendiara e o seu corpo ficara totalmente carbonizado.
Num flash reviu imagens dos últimos meses. Agora o presente era um ecrã branco, sem imagem, sem som. O amanhã perdera a projecção. Em sucessivos ontens não assumira os hojes. Recusara, adiara… confiara no amanhã. Hoje percebia que o amanhã se extinguira!
4 comentários:
Só este minuto é presente, todo o resto poderá ser ou não, ou já foi...
Um abraço
Não esperava este desfecho para a procura dela. Mas não vai ficar assim, pois não? Terá ele morrido mesmo? Sendo assim, o que vai ela fazer?
Conte lá o resto :-)
Triste quando um sonho se perde... quando deixamos que se perca.
Será?
Um beijo
Por vezes eu gostaria de saber viver um pouco mais devagar.
Por vezes, passo pelos dias e nem me apercebo do hoje. Estou já no dia seguinte.
Com a mulher do conto, sucedeu o contrário.
Adado ou antecipado, o momento quer-se no tempo certo.
Racionalmente sabemos. Emocionalmente...
Inté jazz
Bj
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