terça-feira, 6 de outubro de 2009

ENIGMÁTICO RIO II


Espreitá-la, observá-la, contemplá-la, admirá-la havia se tornado um hábito, um desejo, uma necessidade. Sentia, porém, que em alguns dias ela parecia esconder-se dele. Evitava-o. Ele respeitava as ausências dela e, um pouco mais à frente, aguardava na expectativa de que ela fizesse coincidir o seu curso com a posição que ele tomara.

Acabou por se acostumar aos afastamentos dela, acendendo mais recordações do que a acompanhando na sua corrida. Quando a avistava confirmava o ritmo dela galgando colinas, resvalando até planícies, acalmando-se em lagoas, ofertando-se como bebida a imensos bandos de aves.

Ainda que menos dependente de a ver, guardava na memória muitos dos momentos em que tinha corrido a seu lado.

No final duma manhã caminhava por entre arvoredos, muito longe das memórias quando se ouviu chamado. Era ela. As suas águas corriam calmas num convite à abordagem. Logo o seu coração acelerou. E teve de voltar atrás… de saltar paisagens, recuperar aromas, certificar vivências. E perdera-lhe de novo o rasto. Trepava ao topo das árvores mais altas mas, sem saber como, perdera-a de novo.

Alguns dias depois, deitara-se na sombra dum rochedo quando lhe sentiu o bálsamo. Demorou pouco para que ela passasse em corrida, salpicando-o com aquela magia que o deixava de novo inebriado. Levantou-se… mas quando lhe gritou ‘Espera!’, já só lhe encontrou a sombra a dissolver-se num leito esquecido.

Aquelas imagens, aquele fulgor, aquela provocação sedutora, aquela prisão a memórias recentes não se desprendiam dele. Involuntária e imperceptivelmente recuou, uma vez mais a campos do passado. E sentiu a tentação de ir mais longe. De descobrir o que nunca vira. De perceber onde nascera aquele ideal, de quem nem o afastamento, o silêncio ou a ausência, o faziam esquecer.

Desvendando novas margens, novas forças de corrente foi recuando no percurso que a levava até ao ponto onde a encontrara.

Foi com surpresa que se lhe deparou a realidade. Ela mais não era do que um afluente artificial, criado pela mão humana para cruzar terrenos esquecidos. Sentiu todo o deslumbramento secar-lhe no coração. Estancou toda a fantasia que o encantara, ao aperceber-se da falta de genuinidade. O que a ausência não conseguira, provocou-lhe a verdade da origem. Todo o magnetismo se desfez na imaterialidade que tão genuinamente o prendera.


Antecedentes I

3 comentários:

cilita disse...

Depois da imaginação corroer os nossos sentidos, eis que a realidade se transforma em decepção, nos desilude, que pena...

Tia_Cunhada disse...

A magia da montanha versus "the real world"...

Magnífico texto PasÇsos.

© Piedade Araújo Sol disse...

boa prosa, com um final inesperado.

gostei!

boa semana!