terça-feira, 29 de setembro de 2009

ENIGMÁTICO RIO

Foto de Anders Gunnarsson


Era um dia de Inverno em que a temperatura do sol não se fazia sentir, mas o seu brilho realçava as tonalidades das cores que pintavam o panorama. Caminhava sem rumo para preencher as horas, em busca de paisagens que lhe enchessem o olhar, descobrindo apreendendo. No topo de uma colina avistou-a. Surpreendeu-se. Chegou mais perto para tentar sentir.

A sua força extravasava para fora das margens. Os seus limites pareciam perfeitos. A natureza desenhada numa harmonia sonhada. Ele percebia-lhe uma frescura de juventude, numa certeza de maturidade. Ela corria com um vigor que só a vida pode declarar.

Aquela descoberta deixou-lhe um sorriso nas emoções e um desejo de voltar, de saber mais. Foi regressando todos os dias, com a vontade de beber, de se molhar, de acompanhar. Seguia o itinerário que ela tomava. Analisando-a, conhecendo-a, ficando preso. Tentava adivinhar-lhe o percurso. Algumas vezes confirmando-o, tantas outras maravilhado pelas revelações, pelas novidades, pela fortuna.

Tentava tocar-lhe mas um impulso dela era suficiente para lhe fugir, para esquivar-se. Furtava-se-lhe como num jogo de sedução sem pausa, sem foz.

Ele guardava para si aqueles sabores experimentados. Acatava a impossibilidade de correr com ela. Porém, sabia que ela se habituara à sua presença.

Sempre que ia ao encontro dela descobria-lhe mais uma etapa da sua corrida. Amiudadamente voltava atrás para rever pontos do percurso que já conhecia. Nunca sentira a tentação de recuar mais. De caminhar em direcção à nascente. Ela própria evocava recordações desses terrenos, enquanto avançava. Sorvia-lhes a força de progredir. Ele bebia-os, sentia-lhes o gosto como se lhe abrissem janelas na alma.

5 comentários:

Sonia Schmorantz disse...

Envolvente e encantador!
Um abraço

Gi disse...

Há lá espectáculo mais belo que a água a correr em toda a sua limpidez?

cilita disse...

Sei de um rio...
Sei de um rio...
Que corre sem margens
Procurando a sua nascente.
Lindo e inspirador...

Tia_Cunhada disse...

Que bela foto. Que belo texto...

AnaMar (pseudónimo) disse...

Uma narrativa apaixonante.