
Todas as manhãs voltava àquela carta. Refugiava-se no sótão apenas protegido pelas telhas da intimidade. Sentada via aquelas palavras como se fossem, todos os dias, as primeiras. Agulhas de luz penetravam os passos isolados por que optara, mas aquelas linhas eram a mão porque ansiava, os dedos que queria entrelaçar nos seus.
Isolava-se do mundo e percorria palavras que a levavam por aromas de especiarias. Involuntários raptos por arrebatadores campos de paladares há muito guardados.
Através de parágrafos sonhados sentia aqueles vocábulos, expressamente escritos para si, tocarem-lhe a pele. O incenso invadindo as narinas inebriando-lhe os sentidos em essências exóticas exuberantes.
Prosseguia na redescoberta de se descobrir em cada sentido encapuçado, em cada frase encobrindo verdades disfarçadas, desejos que procuravam se revelar. E sentia-se coberta por tecidos de seda, mil cores aquecendo paisagens, paletas de sonhos à espera de pincel para correrem folhas, telas ou o seu corpo que requeria uma imersão de tons de Verão.
Lia. E a cada recomeço sentia-se fruto ansiado por ser tocado, saboreado, apreciado. … alperce, uva, kiwi… a pele num arrepio, o sumo que escorre na tez peganhenta…
Todas as manhãs regressava àquela carta, como se outras não houvesse. Porque aquela era a única que a fazia sentir-se singular. Ali naquele sótão coberto por telhas de cumplicidades sentava-se num voo de regresso à terra mãe, de que bebia o cheiro, engolia descrições, tacteava palavras que já sabia de cor e se esforçava por esquecer, para as olhar como se em cada dia nunca as tivesse lido.
10 comentários:
artimanhas do esquecimento...
gostei :)
bj
teresa
Magnífico. Há momentos assim na nossa vida. São esses momenos que nos fazem acreditar...
Eram as suas palavras, que podia usar como bem que quisesse, e por isso sentia-se unica, naquele momento...
Um abraço
Eu tardo em regressar às palavras. ;)
são um pouco de nós , aqueles momentos, aquelas palavras escritas numa simples folha de papel ...
«Mas aquelas linhas eram a mão porque ansiava, os dedos que queria entrelaçar nos seus... E a cada recomeço sentia-se fruto ansiado por ser tocado, saboreado, apreciado...» Como sempre romântico e sensual, lindo.O que todos desejamos amar e ser amados.
há cartas a que vale a pena regressar. sempre.
... e viva a anarquia, mais a falta de tempo e a ausência da disciplina militarista.... =))
há alturas assim!
acho que este poema podia ser meu, so teria que mudar uma coisa.
não seria a carta, mas o livro.
gostei muito de ler.
bom domingo
Melâncolia. Um ciclo perigoso. Dependência...
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