sexta-feira, 11 de setembro de 2009

EM MEMÓRIA DE MEMÓRIAS

Imagem recolhida aqui


Subi-a[s] três vezes. Sempre com aquela sensação de chegar ao tecto do mundo e ficar com a cidade aos meus pés. Uma dessas três vezes foi à noite o que me permitiu uma perspectiva diferente, noctívaga, iluminada, brilhante.

No último piso, as janelas rasgavam-se em vidro abaixo dos nossos pés e acima das nossas cabeças. Era a sensação perfeita. ‘A cidade que nunca dorme’ estava ali, aos meus pés. Ou fugidia num ritmo infernal que não perdoa os indecisos, ou cintilante em incontáveis luzes que a deixam eternamente acordada.

Acima desse piso tinha-se acesso a um terraço. Nele respirava-se o ar 107 andares distantes do solo. Uma sensação, para mim, indescritível. Apenas possível de comentar com quem a tenha experienciado. Uma vez em Abril, outra em Novembro tive a felicidade de sentir o sol mais perto de mim.

Faz hoje oito anos a cegueira destrui-as arrastando consigo milhares de vidas. Não me permito, sequer, comentar a razão do acto. O homem é considerado um ser racional. A minha racionalidade é insuficiente para, alguma vez, entender as razões que possam levar seres humanos a agir assim.

A minha racionalidade só me chega para acreditar que um dia, caso consiga voltar a Nova Iorque, ao chegar àquela área onde elas existiram conseguirei sentir na pele o sabor, guardado pela memória, do ar bem lá em cima, onde, hoje, só os pássaros chegam ou os homens se fazem transportar nesses veículos inventados para transportar e que um ser humano, supostamente racional, entendeu transformar em veículo de morte.

Hoje, a minha racionalidade só me chega para usar a minha memória em memória dos muitos a quem os sonhos de vida foram roubados, numa manhã de Setembro em que o mundo perdeu dois dos seus tectos.

8 comentários:

Carla disse...

entro na tua memória...através da tua escrita. Obrigada pela partilha e pela racionalidade com que descreves um acto tão irracional
beijo

Tia_Cunhada disse...

Nessa altura eu trabalhava num banco americano cuja sede era exactamente... aí.
Dias mais tarde, no site da instituição, a lista dos nossos colegas mortos...
Que estejam todos em Paz!

Gi disse...

Foi um dia que mudou o Mundo, mas para mim será sempre um dos dias mais felizes da minha vida.

paletadesonhos disse...

a partilha da dor ... é intemporal
;)

Marta disse...

bem assinalado.

sonja valentina disse...

também eu tive a felicidade de experienciar esse sentir a 107 andares do solo. e já voltei a NY depois do "11/09", inconscientemente buscam-se aqueles dois pontos de referência, de olhos fixos no céu... já lá não estão! lamentavelmente!
parabéns pelo seu manifesto em homenagem de todos os que perderam as suas vidas, consequência de um acto verdadeiramente tresloucado, (para im) irracional e, sem dúvida, condenável!!!

C. disse...

A Gi tem toda a razão. O mundo mudou nesse dia. E passou a viver sob o signo do medo. Do medo "do outro".
E já sabemos que o medo tolhe, afasta, e também leva às mais fortes e violentas reacções de defesa.

Bonito, e muito reflexivo este texto de memórias.

cilita disse...

Um dia que ficará gravado na memória de todos, e para sempre.