sexta-feira, 18 de setembro de 2009

ABRAÇOS DESFEITOS

Foto recolhida aqui

O que pode um olho, que vê, reflectir no olhar dum invisual? O que podem as mãos revelar a um olhar que não vê? Mesmo que sem ousadia de inovar, Almodovar leva-nos em Abraços Desfeitos, através do olhar sensitivo dum realizador que cegou e reconstrói aquilo que foi a sua visão objectiva sobre o amor.

Almodovar usa a sua habitual crueza para nos trazer os destemperos da vida ao ecrã. Recusa a harmonia e incomoda com os exemplos exacerbados da trama dramática do quotidiano. Almodôvar tem necessidade de ampliar cada adversidade como se nos pretendesse agredir. Mesmo em pormenores menores faz uso do prazer de os dimensionar exageradamente em grandes planos como para garantir que não nos passarão despercebidos.

Numa história de amor atropelam-se a desgraça, o ciúme, a traição, a obsessão, a violência, a paixão, a surpresa. Almodovar fala da emoção recusando a harmonia da poesia. Quase nos envergonha de sermos emocionais tal é a forma como satiriza os sentimentos. Creio que não por desrespeito. Talvez para nos obrigar a despertar e perceber as agruras que a emoção também abraça.

Para não discordar com a sua obra, Abraços Desfeitos, a mais recente obra cinematográfica de Pedro Almodôvar, é um olhar de vida sobre o amor; de quem domina, de quem expressa, de quem encobre, de quem se submete, de quem silencia, de quem se surpreende. E como sempre, Penélope Cruz está igual a ela própria: lindíssima. E a vida abraça-nos em paralelo com tantos abraços que se desfazem... desfazendo-nos.

4 comentários:

Sonia Schmorantz disse...

Deve ser um otimo filme! Valeu a sugestão.
Um abraço, bom final de semana

Marta disse...

eu gostei.
gostei.
apesar da dor.
da ângustia.
da impossibilidade.
gostei muito das mãos, do plano das mãos no écran...
gostei. muito.

C. disse...

Vi o filme e achei-o sobretudo uma belíssima metáfora da criação artística. Com o melhor e o pior que têm sempre todos os artistas e todas as obras. O tipo de cegueira de que a personagem-realizador sofre fez-me pensar também nas nossa quotidiana incapacidade para vermos o que está fora do que "não nos afecta" directamente, e que nos parece sempre "estranho". Uma leitura transversal, claro, como outra qualquer.

susana disse...

E eu que estou sem 6as culturais... fiquei com água na boca.