sábado, 12 de setembro de 2009

LER-ME

Foto de Vernon Trent


Perdi-me entre searas de palavras. Espalhei-me em espigas de emoções deixando o sol tocar-me a pele. Sorri humedecida pela ternura da esperança em encontrar o meu trevo. Cresciam os troncos que uma brisa de desejo afastava para eu andar. Alucinei-me no meu pólen de papoila e deitei-me nos rios deslumbrados de estrelas estendidos a meus pés. No céu da noite brilhava o dia e eu era capaz de caminhar nele em posição invertida relativamente ao solo. Descia num chapéu que as aves me abriam quando a minha voz entoava um cântico feminino de vida. De mão dada aos dias, abraçava as noites. O meu sono eram ventos quentes nascidos na raiz do sonho. Corria sem chegar. Mas não me cansava. E chegava antes de lá estar. Antecipadamente na certeza de te ter como destino. E nas tuas palavras descobria o olhar onde mergulhava na cegueira do querer.

Um dia sentei-me e comecei a ler-me esta história. Pedaços de mim escritos no papel. Pedaços dum conto arrancados à minha carne. E parei. Quer eu, quer a minha ouvinte já conhecíamos o argumento. Mais não era do que memórias da pele. Hoje sento-me em frente a mim mesma e recordo este desejo engolido em pequenos tragos. À espera dum novo Estio que antecipe a Primavera onde irei encontrar esse corpo que farei meu. Onde me aprisionarei em abraços, onde me saciarei de beijos e em que adormecerei escrevendo uma seara de palavras que um dia mais tarde me lerei.

2 comentários:

© Piedade Araújo Sol disse...

...de inegavel beleza poética, e muita criatividade.

gostei do toque escrito no feminino...

uma boa semana!

Tia_Cunhada disse...

Já li várias vezes este interessante texto... sinto que ainda não captei tudo...
Vou voltar. Bj