quinta-feira, 30 de julho de 2009

ELEGIA

Foto recolhida aqui


O tempo passa sem que dêmos por isso. A idade avança, o físico até pode derrocar com ela, mas o poder do desejo mantém-se intacto, enquanto conseguirmos olhar para a beleza com a mesma contemplação. A obra de arte é a mesma desde que criada até que o tempo passe por ela, mas nunca será igual, porque os olhares são diferentes e mesmo que o mesmo, variará com os nossos estímulos.

Poder-se-á chamar amor, o mesmo amor, o de quem gosta do que olha, apreendendo-o como a mais sublime criação universal, e o de quem gosta porque entra bem fundo e agarra o âmago do outro?

Como se podem ligar duas atracções distintas como a que se prende ao belo, ao perfeito, e a que fica presa à mestria da eloquência? Não será esta uma quase regra do amor entre o homem e a mulher? Ele deseja a imagem dela, ela o saber dele. Quantas relações vivem, sobrevivem, vegetam neste contacto que não se entende, que anos e anos nunca consegue falar a mesma língua?

Para o homem, a mulher é um quadro, uma representação, as palavras, a composição musical. Para a mulher, o homem é a tinta que tem de ser escolhida para pintar, é o conteúdo que se quer transmitir no drama, é a razão da escrita, é o coração que marca o ritmo do metrónomo.

E mesmo que a idade avance, que o tempo passe sem pedir autorização, as perdas são irrecuperáveis. Mesmo que nos mentalizemos de que as ultrapassaremos, as perdas revelam-se feridas que não saram. Podem até ficar esquecidas mas basta que se lhes toque para voltarem a sangrar. Seguramente na morte e provavelmente na doença existirão caminhos impossíveis de regressar. Mas, noutras situações, para evitar a mágoa, ou se recupera o perdido – um pai e um filho podem reaver a relação abandonada -, ou então evita-se a perda. Antes de se perder fica-se lá… com o que não queremos perder.

Os soberbos Ben Kingsley e Penélope Cruz dão corpo a muitos destes diálogos, destas dissonâncias, destas duas vozes a falar o amor. Elegia é um filme de que se sai com a sensação de levar ‘trabalho para casa’. É como se nos tivessem desarrumado sentimentos, convicções, posturas… as gavetas foram todas revoltas e agora é preciso organizá-las, arrumá-las, seleccioná-las, antes de as voltar a fechar. Porque o tempo passa pela vida sem que quase dêmos por isso. E o amor merece ser vivido e respeitado como uma peça de arte, concebido por um génio, sublime, inigualável e olhado, a cada dia, com um olhar diferente, o nosso, sempre repleto de contemplação.


5 comentários:

Tia_Cunhada disse...

Bom... tenho mesmo que ver este filme!!!
Beijo

Alexandra disse...

'ELEGIA' foi um dos mais belos filmes que, agradavelmente, pude apreciar. Tem conteúdos fantásticos e profundos da nossa existência enquanto humanos. As emoções que se pensa não existirem, mas que estão lá...e quando menos se espera... E, nessa altura, o medo surge, o preconceito social reage, emergindo o conflito. O que antes eram certezas, passam a ser dúvidas, com todo o sofrimento e lucidez que implicam.

As perdas... essas tão grandes feridas que, pensámos deixar para trás e guardar bem fundo, mas que nos deixam 'marcados' para todo o sempre... as mudanças que as mesmas nos conferem, e que, nem sempre, nos consciêncializamos.

No fundo, o retrato da nossa vida, com tudo o que pode ter de importante e de supérfluo...

Para mim, um filme a rever quantas as vezes necessárias, pois tenho a certeza que existe sempre uma mensagem nova a descobrir!

susana disse...

Se não gostar do filme vou ficar a achar que o defeito é meu... Acho que vou ver quando voltar de férias.

Gi disse...

Tu tens o condão de nos fazer apetecer partilhar os filmes que viste.

© Piedade Araújo Sol disse...

O filme é uma adaptação do romance de Philip Roth " O Animal Moribundo" , não vi o filme (ainda),mas li o livro e achei que tinha cenas muito fortes.

beij