domingo, 5 de julho de 2009

FAZ HOJE QUATRO ANOS


Apenas o último de centenas de outros…


...apenas os últimos de tantos mais.


A meio da tarde decidiram convocar o grupo para anunciar a decisão. Não terão tido a coragem suficiente para encarar as faces dos que receberiam a notícia, delegando a comunicação na Direcção do Serviço que os tutelava. A emoção e a tristeza era por demais evidente para que alguém conseguisse falar. Um dos directores-adjuntos limitou-se a ler o comunicado de que iriam ser distribuídos exemplares a cada um dos directamente implicados.

Chegava ao fim uma história de quase quatro décadas. Argumentavam os decisores que haviam reconhecido a necessidade de criação de novas condições de apoio àquela arte performativa. Entre os argumentos então expostos era por demais evidente a fragilidade das suas aspirações.

Num país alimentado por dois únicos agrupamentos com elencos fixos e vastos, qual a credibilidade de apoiar e incentivar a formação de intérpretes como uma das contrapartidas à extinção da Companhia que continuava a ser, a nível nacional, o principal objectivo dos que se formavam na área?

Que ilusão terão pretendido criar ao se proporem criar programas de apoio a digressões no estrangeiro com o intuito de promover a expansão da dança contemporânea portuguesa e dos seus criadores? Dizia a realidade, na altura, que o agrupamento que decidiram extinguir era o principal veículo para essa acção. O serviço estendia-se, para além da divulgação da arte performativa portuguesa, pelos muitos criadores nacionais que beneficiavam da visibilidade da companhia que os interpretava, e sobretudo a própria instituição cujo nome era inquestionavelmente o da Companhia. Mas um pormenor mais deverá ser referido: o tempo vinha revelando um significativo decréscimo dos custos envolvidos, nalguns casos provocando receitas relativamente às despesas directas. Porém a nova proposta passaria por assumir custos para esse apoio a terceiros.

Passam hoje quatro anos sobre esse dia. O que melhorou na dança portuguesa com a extinção do Ballet Gulbenkian? Quem beneficiou realmente com a sua extinção? De que vírus padeceria a companhia para que a sua extinção não se tenha limitado ao seu ‘desfazer’? Qual a necessidade da sua exterminação? Dentro de alguns anos os jovens deste País não saberão que existiu uma companhia onde começaram, por onde passaram, muitos dos principais nomes da dança em Portugal. A necessidade de a apagar da memória e da história só é comparável às fatalidades que precisamos tudo fazer para esquecer que aconteceram.

Hoje ao passarem quatro anos sobre a decisão da sua extinção, escrevo estas palavras como uma homenagem a todos os que acreditaram na importância do Ballet Gulbenkian, quer tenham sido intérpretes, criadores, dirigentes, administrativos, técnicos, críticos, programadores, historiadores, público anónimo.

A todos os que fizerem o favor de ler estas linhas peço que me ajudem a encontrar no site da
instituição as referências à existência do Ballet Gulbenkian. E deixo-vos com este questionar: Valeu a pena? Para quem?

Nas muitas palavras de conforto há quatro anos enviadas, alguém escreveu: ‘No meu País, Gulbenkian quer dizer dança!’ Pormenor insignificante para quem decidiu.


* as imagens vídeo são do último espectáculo! No dia 31 de Julho de 2005.

9 comentários:

Luísa disse...

Lamentável, de facto!
Mas, as eleições estão aí outra vez! Façamos justiça a quem manda ou talvez não!
Beijinho terno, com imensa pena por termos perdido!O país perdeu!

paletadesonhos disse...

a favor da vaga da " sustentabilidade económica" apagam-se projectos que são ( porque continuam a ser) os valores culturais de todos nós ...
aprecio que se fale destes factos ... estou aí
;)

Alexandra disse...

Então faz hoje quatro anos que ouvi esta notícia. Não queria acreditar...como seria possível tomar uma decisão destas?

Pensei que algo ainda pudesse ser feito, mas... quando 'outros valores se levantam'... pouco ou nada há a fazer.

É de importância fundamental que se tente manter uma luz, por pequena que seja, para que de alguma forma não seja totalmente esquecido aquilo que tentaram e conseguiram 'calar'.

Infelizmente para nós, mais uma vez, a cultura ficou em desvantagem!

Até quando?

C. disse...

É sempre assim: quando acham que não há verbas para..., é sempre a cultura que fica a perder. Vivemos num país que ainda não se convenceu que, para sê-lo verdadeiramente, tem de dar prioridade à educação e à cultura.
O seu texto torna-se, por isso, de uma importância vital.

Bj

Tia_Cunhada disse...

O tempo voa... que voe também para estes governantes sem outra visão que não o seu próprio umbigo.
Um beijo

Gi disse...

Sinto que viveste e ainda vives esta perda por dentro.

Gi disse...

Passos perdidos? Não!
Passos voados, passos fundidos, passos encontrados e reencontrados.

sonja valentina disse...

por todas as memórias e recordações valeu e vale a pena para todos aqueles que lá estriveram... que se entregaram e acreditaram.

não há passor perdidos. apenas passos relembrados e até sonhados... uma , duas, três, quatro..., ..., ..., tantas e tantas vezes sonhados!

Parapeito disse...

...quatro anos...parece que foi ontem...
Que triste o país que não "sabe ou não quer dançar".
Um abraço*