sábado, 18 de julho de 2009

EM CÂMARA LENTA [II]

Foto de Lukas Wozny


Quando soam os últimos acordes e as luzes se apagam, o movimento repousa os corpos, a adrenalina reduz os níveis e, em fracções de tempo, há que recuperar a postura para responder, quando o escuro voltar a ser iluminado, aos aplausos da plateia.

São minutos de conforto ou desencanto, onde algumas combinações são possíveis. A confirmação de que coincidem a apreciação do público e o sentimento do intérprete; a surpresa perante uma reacção que supera a tradução que o artista fez da sua actuação; a desilusão de sentir que todo o esforço não tocou os espectadores.

Corria a primeira metade da década de oitenta. Na sumptuosa cidade de Wiesbaden o maestro ordenava a conclusão das harmonias da Sinfonia 101 em Ré Maior de Haydn, no Hessisches Staatstheater Wiesbaden repleto de camisas brancas sob fraques de cerimónia e de brilhos de variadas cores dos vestidos femininos. As luzes apagaram-se e as centenas de espectadores irromperam em calorosos aplausos. O número de agradecimentos ensaiados estendeu-se bem para além do normal; prolongavam-se em direcção à dezena de minutos de duração quando foi ordenado o derradeiro fecho da cortina.

Desfizemos a postura. Os sorrisos trazidos da interpretação transformaram-se na satisfação do sucesso. Os corpos cansados redescobriram energias e… os ouvidos alertaram-se. Os aplausos não se haviam silenciado. Mesmo que a cortina não tivesse voltado a abrir. Mesmo que as luzes da sala se tivessem acendido, os aplausos continuaram.

Foi-nos indicado que retomássemos a ‘organização’ e passássemos para a frente da cortina. As luzes do candelabro da plateia e as lâmpadas das galerias permitiam, agora, ver melhor o público, os seus rostos de prazer. Eram muitos os que de pé não desistiam no seu desejo de nos premiar com o seu reconhecimento.

E a pele ainda hoje se arrepia quando lembro a emoção sentida ao ver regressarem à sala espectadores que entretanto já tinham saído.

5 comentários:

Alexandra disse...

Acontecimentos impossíveis de esquecer pela sua beleza!!!

~*Rebeca e Jota Cê *~ disse...

Adorei!

Teresa Queiroz disse...

um arrepio na pele... :)

Gi disse...

Em câmara lenta vou-te conhecendo todos os dias mais um pouco; ou melhor vou constatando que acerto naquilo que imagino de ti.

Marta disse...

afinal, em câmara lenta já inspirou 2 momentos ;)