domingo, 26 de julho de 2009

EM CÂMARA LENTA [III]

Foto de Lukas Wozny

A Andaluzia derretia em mais uma noite sufocante, daquelas em que se deseja um abraço de mar, uma brisa dum beijo refrescante, um tocar de pele que passa roçando-se no frescor da sedução. A Giralda penetrava o céu que insistia manter-se azul enquanto a noite descia. Um aroma perfumado inebriava os sentidos. A alma de algum mago mouro encantava a atmosfera deliciando o sonho.

O relógio avançara as horas abraçando a madrugada e levando o desejo consigo. Por ser inevitável. Por ser querido. Por ter de ser. As palavras despiram os receios. O presente ofereceu futuro. A ilusão adormeceu no acreditar da realidade. O fósforo inflamou-se mas não se extinguiu. Durou o tempo duma cidade a arder. O Guadalquivir corria como se se fechasse num circuito para não desaguar, para não fugir para o mar. Na Maestranza o touro resistia à estocada final e o cavaleiro eternizava a lide. A sedução de Cármen ardia em todos os cigarros contrabandeados. Os toureiros sucediam-se em preces contínuas à Virgem de Macarena. Fígaro escanhoava uma interminável barba de Bartolo.

No meu peito projectavam-se imagens de Casablanca e o beijo de Bogart e Bergman delongou-se em câmara lenta, quase parada, para durar… com a paciência dos corpos que se entregam na comunhão do anseio falado pela voz soalheira da chama. A madrugada destila na manhã e o sono rende-se aos raios de luz que mostram a eternidade dos ciclos, mas a incapacidade de resistir de tudo quanto é finito… como a paixão.

4 comentários:

Marta disse...

belo momento!

Gi disse...

Onde é que está a criatividade? Onde? ;D

mariab disse...

recordações que ardem. como tudo o que é finito.
beijo

VERA DE VILHENA disse...

Obrigada por esta breve "viagem", por este momento onírico. Gosto de aparecer aqui ao fim de uns dias e ler tudo de enfiada, como se degustasse um belo manjar. É preciso tempo para estar, para ficar aqui um bocadinho e ler com olhos de ler.
Com amizade,
Vera