segunda-feira, 6 de julho de 2009

A MEMÓRIA DAS PALAVRAS

Foto de latoday


Lembras-te de quando as palavras corriam em desafio tomando a dianteira para depois esperar pelas outras, ou qualquer delas deixando-se para trás à espera do puxão das que se adiantaram?

Lembras-te das palavras que correram a distância da maratona, num tempo de meio-fundo sem obstáculos?

Lembras-te das palavras que tropeçavam, se empurravam, caíam, se confundiam e nos deixavam sem saber se eram minhas, se tuas?

Lembras-te da sofreguidão das palavras que se embrulhavam, se não concluíam, se diminuíam para logo serem aumentadas?

Lembras-te das palavras procurando dizer tanto, em tempo de nada, e conseguiam dizer tudo?

Lembras-te das palavras que se ansiavam, se sonhavam, se desejavam, e em silêncio se liam, se inventavam em abraços demorados?

E lembras-te das palavras que esperadas, tardaram? Que mal entendidas, magoaram? Que não sendo lâminas, feriram?

Todas elas estão guardadas numa cela onde ninguém lhes pode chegar. Onde ninguém as consegue ler. Porque elas foram o alfabeto que inventámos e só ele as pode decifrar. Só ele possui o código da nossa cumplicidade.

Não sei se as lembras. A minha memória ainda tem na pele o perfume que lhe deixaste.

5 comentários:

Gi disse...

E que fiquem numa cela, essas tais palavras, e que ninguém as abra como Pandora fez à caixa.

Tia_Cunhada disse...

Profundo retrato da vida de muitos de nós...

sonja valentina disse...

deliciosas palavras... faladas, ditas em silêncio, sentidas, adivinhadas, transformadas em gestos e abraços... cumplicidades. guardadas mas apesar disso partilhadas. saudades. memórias. doces palavras... aquelas que tantas vezes os olhares trocaram.

Alexandra disse...

As palavras que não precisavam ser faladas... escritas... mas que eram sentidas, absorvidas, deduzidas!

© Piedade Araújo Sol disse...

uma prosa poética, muito bem escrita.

beij