quinta-feira, 21 de maio de 2009

LISBOA SONG

Fotografia de Amy Yoes


São dezasseis páginas. Dezasseis estrofes duma canção. Que nos leva embalados ao som dum imaginário sem tempo. Transportando-nos nos ecos duma melodia que nos perfuma a pele, nos fecha os olhos e nos transporta numa nuvem através das ruas da cidade. Lêem-se num só trago. Mas decidi lê-las de novo. Porém, na segunda vez, só uma de cada vez. Como se fossem pequenos e valiosos doces. Que não se querem acabar para não se lhes sentir a falta. Que se desejam saborear para ter a certeza de que se aproveita cada palavra derretendo na boca. Uma página, e só uma, de cada vez. Com toda a calma. Sem pressa. Com serenidade. Sem sofreguidão. Com amor. Sem paixão. Sempre e só uma página. Antes de adormecer. Para levar para o sono passagens assim: “Amávamo-nos de tarde, quando o calor de Julho se detinha sobre a cidade, e vivíamos as noites a percorrer as sombras, adivinhando esquinas para lá de portas, dramas além das janelas, amores fugazes na penumbra das escadas. Como nos amávamos, contávamos histórias um ao outro, porque o amor inventa os enredos e alimenta-se de equívocos. A nossa vida é um desperdício, disse-lhe uma vez. O nosso amor é que é, respondeu, talvez a vida não nos mereça e é isso que faz do nosso o único amor ainda possível. Eu fingia que não podia compreendê-la, mas acreditava nela, como quando se quer acreditar em alguma coisa que traz consigo a suspeita de uma mentira.” 

António Mega Ferreira, o autor de Lisboa Song, inspirou-se em fotografias de Amy Yoes para escrever este diálogo que revela ser uma homenagem ao livro Índia Song de Marguerite Duras. A impressão em papel, editada pela Sextante, não favorece as imagens da norte-americana que poderão ser melhor apreciadas aqui [numa altura em que a fotógrafa fazia referência a que os textos nunca haviam sido publicados…]

4 comentários:

Ana disse...

Saboreando as imagens e as palavras, aguçaste a curiosidade de conhecer mais.
"Para levar para o sono" melodias da minha cidade.

Alexandra disse...

Li o seu texto, segui as indicações que nos deu e deixo-lhe um MUITO OBRIGADO pela excelente partilha.

Marta disse...

Há duas Marguerites na minha vida: Duras e Yourcenar!

Gostei muito, muito
deste Passo de Vista!

Laura disse...

Sim, é belíssimo.