terça-feira, 4 de agosto de 2009

BILHETES

Foto recolhida aqui


O vento fresco desafinava a harmonia do final de tarde de Agosto, ao ritmo da luminosidade que se escoava no céu onde a noite retardava a sua chegada. Sob um tecto de videiras, as mesas predominantemente procuradas por turistas, acolhiam uma indefinível variedade de iguarias dignas do mais singular manjar celestial.

Aparentavam proximidade nas idades. As palavras pareciam ser alimento mais desejado do que a comida nos pratos à sua frente. Adivinhava-se existir uma vontade precedente, serenamente controlada até à oportunidade que hoje se abria. A conversa circulava num movimento rotativo em torno do eixo que ligava os assuntos e de translação circundando e abraçando um universo de ideias que já haviam percepcionado poder comungar. Era como se descobrissem o caminho cujas coordenadas já sabiam ir percorrer.

O telefone dela tocou. Por entre o embaraço das respostas, ele percebeu que algo de inesperado seria a razão daquela chamada. O compromisso de assegurar os pedidos vindos do outro lado da conversa mesclava-se em sorrisos que denotavam alguma insegurança quanto ao que estava para acontecer. Ao terminar o telefonema disse-lhe que teriam de alterar, ainda que temporariamente, o prolongamento da noite cujos planos ainda não haviam decidido.

Alongaram o prazer da refeição e a evolução do diálogo até ao limite do tempo em que a missão surpresa chamou por ela. As ruas percorriam-se no vazio duma cidade que fugira para as férias. O trajecto foi cumprido com precisão. Quando a luz verde da cruz, símbolo da farmácia, surgiu no horizonte dos dois, ela confirmou que haviam chegado à sua primeira paragem.

Uns instantes depois, o dueto transformara-se em trio. Um homem sexagenário guiou-a no percurso até ao destino final. Um bairro suburbano. Parca quantidade de candeeiros, iluminava com luz baça, uma rua lúgubre. Estacionou em segunda mão. Dirigiram-se os três até à porta do prédio. A temperatura arrepiava a pele. O homem mais velho procurava a chave que havia de abrir a porta de acesso.

2 comentários:

Tia_Cunhada disse...

Agora fiquei em pulgas...

Paulo disse...

Está lá tudo, clima, personagens, ambiente e mistério. Excelente.