segunda-feira, 24 de agosto de 2009

JANELAS ABERTAS

Foto de Andrew Lin

Quando naquele dia, inesperadamente, se encontraram alguns anos tinham passado desde a última vez em que se tinham visto. Quando, terminado aquele jantar, em grupo decidiram ir a um bar, nenhum deles imaginara o que a noite lhes proporcionaria.

Conheciam-se há, aproximadamente, vinte e cinco anos, quando ele era responsável por um grupo de teatro e, um dia, ela se juntou a esse grupo. Não seria fácil, para qualquer deles, hoje, explicar que tipo de relação pessoal os ligara. Os contactos restringiam-se aos trabalhos do grupo teatral, mas ambos tinham sido convidados dos casamentos de ambos. Primeiro o dele, depois o dela. Quando o primeiro filho dele nasceu, ela foi das primeiras visitas.

No ano em que ele decidiu abandonar o grupo, ela também se afastou pois a carreira profissional exigia-lhe mais entrega e sobretudo porque a sua primeira filha tornara-se um projecto real de vida. Cruzavam-se, ainda que raramente, na rua, num café, num supermercado, por força de viverem na mesma zona. Até que ela mudou de residência. Se a memória de ambos quisesse percorrer o passado, a única vez que se tinham encontrado depois, fora num concerto a que, casualmente, as duas famílias haviam ido.

No grupo que integravam, ali naquele bar, outros mais eram conhecimentos comuns. Terá o destino escolhido que se sentassem juntos no canto dos bancos que serviam de apoio à mesa escolhida. O ambiente era calmo e as múltiplas conversas eram possíveis.

Mesmo que esporadicamente cruzados, os assuntos generalizavam-se entre as palavras do grupo, especialmente em temas como as possibilidades oferecidas pelas novas tecnologias e a facilidade com que se transportavam num mesmo equipamento fotografias, músicas, vídeos, jogos… foi então que ele lhe confessou a sua inaptidão para organizar esse tipo de ficheiros, o que, por vezes, se revelava um verdadeiro caos sempre que desejava encontrar algum que ficara perdido na sua desordem.

Quando ela lhe respondeu "a mim, era sempre o Bruno que me ajudava a fazê-lo...", ele nem se apercebeu do valor que o tempo do verbo utilizado revelava.

Com o seu olhar fixo no negro do dela, os seus pensamentos fugiram-lhe para trás, ao encontro dos tempos em que teria agido com alguma parcialidade ao elegê-la, em determinadas encenações, para representações específicas, pelo prazer de lhe ouvir a voz, para se deslumbrar com as suas movimentações em cena.

Esforçava-se, com dificuldade, por ouvi-la e dar-lhe atenção quando ela lhe tocou na mão e dois dos seus dedos se abraçaram, instintivamente, ao seu indicador. Os seus olhares estavam magnetizados. Ele totalmente perdido na conversa só de tal se apercebeu quando ela retirou a sua mão e lhe repetiu a mesma pergunta. Enquanto tentava que os dedos não perdessem o contacto com os dela, a voz feminina fê-lo despertar: "Deixa lá! Mas diz-me como estão a Sara e os miúdos? Há muito tempo que não falo com ela."

"Os miúdos estão bem! Já não são miúdos! Nós... separámo-nos.", respondeu-lhe.

"Há muito tempo?!?! Não sabia de nada... Lamento... eu e o Bruno também nos separámos há quase um ano atrás..."

Inesperadamente, o futuro parecia ter-lhes aberto janelas.

4 comentários:

Teresa Queiroz disse...

arrepiei-me ...agora sim!

cilita disse...

Quando se fecha uma porta, abre-se sempre uma janela... Que bom.

sonja valentina disse...

... mais uma vez, uma viagem no tempo, pela "mão" das suas palavras...

© Piedade Araújo Sol disse...

...penso que tem continuação.

gostei.

beij