quarta-feira, 19 de agosto de 2009

BILHETES

Foto recolhida aqui


Regressava a casa depois de todas as andanças dos últimos dias. Ao colocar as chaves na porta invadia-a a ansiedade de perceber onde estariam os malfadados bilhetes desaparecidos. Mais do que a preocupação de reaver o valor dos mesmos, inquietava-a não conseguir lembrar-se onde os havia colocado. Nos possíveis locais onde os poderia ter deixado, não tinham sido encontrados. Irradiava-lhe uma ténue esperança de que a busca não tivesse sido devidamente realizada.

Quando entrou no quarto, ainda que não fosse evidente grande desarrumação, era-lhe perceptível que todos os seus montinhos de objectos tinham sido remexidos. Começou pela secretária do portátil e minuciosamente observou cada empilhamento de folhas, de fotografias, de papéis… em cima do sofá os livros, os sacos de plástico com os programas, os desdobráveis… na mesinha de cabeceira os livros… nas gavetas… nas carteiras… atrás das molduras… onde estariam os bilhetes?

Tentou refazer o trajecto daquele dia, a chegada a casa. Todos os actos. Todos os passos. Cada instante. Cada gesto. Mas não conseguia. Aquilo que já fora certeza parecia agora um enorme buraco branco. Vazio.

Sentia-se perdida, como se a casa girasse à sua volta provocando-lhe um crescente entontecimento. Resolveu desfazer a bagagem. Abriu a mochila e começou a separar o que vinha no interior, deixando no quarto o que não tinha de ir para a máquina de lavar. Dirigiu-se à cozinha e começou a organizar a primeira carga de roupa.

Antes de voltar ao quarto retirou o entrecosto que tinha congelado. Abriu a porta de cima da unidade frigorífica e tirou o saco com a carne. Levou-o até ao lava-loiça para passar a carne por água e ao separá-la do plástico detectou uma cartolina vermelha pegada ao saco. Era o invólucro com os bilhetes. Lembrou-se então que os levava na mão quando ao regressar ao carro com as compras do talho, para abrir a porta, os tinha atirado para dentro saco. ‘O peg[C]ado da carne!’, concluiu.


Antecedente
I II

2 comentários:

paletadesonhos disse...

bolas ... como me parece que já me aconteceu algo similar ... como me irrita quando me dá uma branca e não sei onde coloquei algo ... há movimentos que os fazemos automaticamente e nos foge do nosso consciente
bem ...

© Piedade Araújo Sol disse...

acho que acontece a todos.

bonita prosa.

beij