sexta-feira, 21 de agosto de 2009

AS PALAVRAS NÃO SABEM DIZER

Foto de Jennifer S

Tenho esventrados na pele
espaços onde as carícias rareiam,
poços de vazio
por onde a saudade se escoa,
sinto a ausência dos dedos
nos rasgões da vontade insaciada.
Gela o frio do tecido
no lugar por preencher.

Dos lábios soltam-se em gritos
os beijos sem fonte onde mergulhar,
sobram os leitos
dum rio sem ter por onde navegar,
sinto a humidade diáfana
na boca seca da sede calada.
Gela o sabor tragado
no lagar de memórias por inventar.

Na invisibilidade dum olhar por abrir
estendem-se paisagens de sedução,
perde-se no deserto
a procura incessante de partilha,
sinto o anonimato que me converte
apenas num ser a mais na multidão.
Gela a visão colorida
dos muitos rostos que não se cruzam.

E as palavras não sabem dizer
o que os sentimentos querem falar,
falta-lhes expressão
onde sobra vida.
Os dias sem destino tornam-se destinatários
da sublimação do querer.
Gela a poesia do gesto
na inexistência duma folha onde o escrever.


5 comentários:

Teresa Queiroz disse...

lindo :)

e sim...as palavras não chegam ..tantas vezes não chegam lá onde queremos , s´o porque não existem ainda ninguém as inventou :)

paletadesonhos disse...

bonita partilha ... deliciosa e subtil
afinal as palavras comunicam ...

cilita disse...

"Dos lábios soltam-se em gritos
os beijos sem fonte onde mergulhar,
sobram os leitos dum rio sem ter por onde navegar".
Lindo... e sim, as palavras querem dizer muito

sonja valentina disse...

palavras "mudas" tantas vezes transformadas em gestos, olhares e outras formas de comunicação

gostei!

© Piedade Araújo Sol disse...

pois é, as palavras não sabem dizer, e por vezes nem precisam (dizer).

bonito poema.

beij