quarta-feira, 17 de junho de 2009

REGRESSO

Foto da minha Canon

‘Se o leite vem quente para quê aquecê-lo até que ferva?’, assim me questionava a mim mesmo, algumas vezes, quando o meu tio chegava com ele, acabado de ser extraído da vaca, numa vasilha de alumínio e o passava para um fervedor antes de o pôr ao lume. A porta da cozinha, tal como todas as janelas do rés-do-chão do lado poente da casa, estendia-se sobre uma vasta área de laranjeiras que, no Verão, se carregavam de pequenas bolas verdes à espera do tempo para amadurecer. Foi dessas laranjeiras que vi, mais do que uma vez, meu tio voltar com os seus troféus quando transportava, numa ratoeira, uma toupeira apanhada nos corredores das raízes daquelas árvores. Da cozinha guardo o cheiro, pela manhã, a pão algarvio torrado como complemento do tal leite a que se juntava um pouco dum produto parecido com Nescafé.

Preparado para a praia, e antes de partirmos, havia sempre tempo para umas brincadeiras, a solo, com a bola. Uma meia de dúzia de vezes essas habilidades me provocaram lágrimas ao ver a bola mal direccionada ir embater e partir uns pormenores decorativos que ornamentavam as janelas do rés-do-chão da casa. À frente da mesma havia um terreno que se prolongava, para a direita, pela frente do estábulo, até ao poço, em frente à garagem, e depois para um pomar onde residia um tanque, local de alguns dos meus sonhos onde me deliciava banhar acompanhado das rãs que faziam dele o seu território. Foi nessas zonas que retirei as rodinhas de trás à bicicleta verde. Foi em torno do poço que dei muitos tombos que me marcavam os joelhos com feridas sobre feridas. Foi ali que aprendi a andar de bicicleta.

Todas as manhãs o Fiat do meu tio nos levava até à Praia da Rocha. A caminho de Lagoa parávamos em Poço Partido para saber se havia correio para a Horta do Patrício. Depois de Lagoa, e antes de chegar a Estombar, havia uma passagem de nível. Eram longos os minutos das esperas até que a conseguíssemos atravessar. À estação de Estombar fui algumas vezes, com o meu tio, ao encontro de algum familiar que havia feito a viagem, desde Lisboa, de comboio. O meu tio era natural de Estombar, um povoado branco, salpicado com as suas chaminés cor de tijolo. Era à sua terra natal que meu tio ia encomendar a carne que se levava somente no regresso a casa, à tarde.

Um pouco depois da Mexilhoeira da Carregação, onde se voltava a perder mais algum tempo com outro cruzamento, a estrada curvava para a direita, e para os que não quisessem seguir para Ferragudo, em direcção à ponte sobre o Arade, que entrava em Portimão. Um dia o meu tio decidiu parar antes dessa curva e, quando lhe perguntei o que acontecera, recebi como resposta um pedido de calma. Passado algum tempo atravessavam a ponte, na nossa direcção, um manto de ciclistas. Era a Volta a Portugal em Bicicleta. Na minha frente vi passarem Joaquim Agostinho, Fernando Mendes, Leonel Miranda, Firmino Bernardino, Emiliano Dionísio, entre tantos, mas tantos dos meus heróis.

Quando precisava de reforço financeiro, meu tio dirigia-se ao balcão, em Portimão, da entidade bancária onde tinha conta. Deixava o cheque que só depois de almoço poderia ver saldado. Tanto quanto me apercebia era necessário confirmar com o balcão originário a provisão da referida conta. Como não havia internet, nem outras soluções entretanto desenvolvidas, o balcão em Portimão tinha de ligar para Lisboa, e através dum método pré-histórico, confirmava a provisão pretendida.

Foi na Praia da Rocha que, munido com as barbatanas que a minha madrinha me comprava numa loja de brinquedos situada do lado de esquerdo da rua que desembocava perto da estação de Portimão, eu tirei as minhas braçadeiras [ou bóias se preferirem] e aprendi a flutuar sobre a água. Era na Praia da Rocha que eu tentava dar um número de mergulhos suficiente para justificar os figos com que me presenteava na quinta.

Ao almoço, comíamos no Económica, um restaurante que vivia perto de onde agora reside o BES. As filas de espera eram um ritual ao qual, mesmo os clientes mais assíduos, não se esquivavam. O meu companheiro de refeição era quase sempre um linguado cujas extremidades se precipitavam para fora dos limites do prato.

A sesta foi obrigatória até muito tarde, porque toda a casa a fazia. O período entre o final da mesma e o jantar, tanto poderia ser preenchido no banho de tanque, como com uma nova ida à praia, agora na área do Carvoeiro.

À noite nova viagem até Portimão levava-nos à esplanada da Casa Inglesa. Mais uma espera, agora de mesa que vagasse. No quarteirão atrás havia um cinema com sessões ao ar livre. Ao passar por perto, o som dos filmes despertavam-me a curiosidade do que se sentiria quando se vai ao cinema. Era num quiosque ali perto que o meu tio comprava a Capital acabada de chegar, algumas quatro horas depois de sair à rua em Lisboa, por 'loucos' que faziam Lisboa-Algarve de automóvel na ânsia de conseguirem chegar sempre mais cedo do que no dia anterior.

Aproximadamente, três décadas mais tarde as alterações são radicais. Muito já desapareceu. O meu tio já nos deixou a sua ausência. O leite já se compra pasteurizado em pacotes. A quinta já foi vendida. A estrada já se transformou numa sequência interminável de rotundas e não sei se os ciclistas ainda percorrem alguma via perto de Portimão. O dinheiro já se levanta numa caixa automática. O Económica já não existe. O cinema ao ar livre também desapareceu. As esplanadas da Casa Inglesa estão mais vazias. E os jornais chegam à mesma hora a diversos pontos do País.

Resta o pão que continua a ser magnífico torrado, ou mesmo simples com manteiga. Permanecem os rochedos de toda a orla entre a Rocha e o Carvoeiro. É o mesmo o mar com temperaturas amenas. É ainda viva a capacidade de recordar todos estes momentos que me trazem de volta uma idade em que era tão fácil pintar a vida da cor da felicidade. Onde quer que estejas, obrigado tio por me permitires escrever estas palavras.


8 comentários:

Tia_Cunhada disse...

Que texto tão carregado de saudade... Fez-me lembrar os meus tempos de miúda, as férias com os meus pais, os tempos de liberdade...
Que bem escreves.

C. disse...

E eu que passei agora uns dias fantásticos entre Lagoa Carvoeiro! A zona pode estar completamente transformada(mudanças dessas aconteceram por todo o país, os recantos da infância não existem mais...). Mas é verdade que é uma das regiões mais bonitas do sul algarvio.
Bjs

Gi disse...

A saudade personificada.

clara disse...

Muito interessante, um texto cheio de gente dentro, um testemunho de coisas que também vivi. Conheci Albufeira, para onde íamos, nos idos 60-70 e hoje não se parece nada.
Há coisas melhores no Algarve,mas muitas foram estragadas, uma pena.
Obrigada por recordar.

Marta disse...

as memórias são como as cerejas...

gostei de ler estas recordações.

Patti disse...

A foto levou-me logo para as praias de Lagos, D. Ana, mais precisamente.

E o Carvoeiro? Vou lá todos os anos matar saudades (mas está tão diferente!) e mergulhar nas piscinas do Algar Seco!

Mas o tio, não sabe onde está?
É que está tão perto, porque há quem nunca parta.

Alexandra disse...

A fotografia não foi tirada na praia do Camilo? Em Lagos? Parece...

Foi muito agradável ler todas estas recordações, quase como regressar ao meu imaginário infantil e, quando falou na estação de caminhos de ferro, de imediato me ocorreram as lembranças das caminhadas que fazia de lá até ao liceu...

E o leite que ia buscar com o meu avô e que me parecia sempre tão belo à vista, mas tão desagradável ao paladar...

Há sempre quem nos deixe recordações que nos enchem a alma, mesmo que tudo já tenha sido objecto de transformação.

Adorei!

Obrigado!

sonja valentina disse...

doces recordações de infância.... trazem sempre um sorriso. as minhas vivem para os lados de Castelo de Vide, onde de vez em quando tenho mesmo que ir.