segunda-feira, 1 de junho de 2009

PALAVRAS COREOGRAFADAS

Foto de King Douglas


Rodopias sobre ti mesma num falso tempo de valsa. A mão direita ergue-se acima da cabeça num sinal que tanto poderá ser de chamamento como de adeus, ou ainda o de alguém que se afundando tenta deixar uma marca fora de água. A mão e antebraço esquerdo seguram o decote solto que te tapa o busto.

A primeira impressão de que o inesperado havia provocado a situação, subitamente se desvanece quando as espirais se reproduzem e os braços vão trocando de funções. Torna-se perceptível a intenção de jogar.

Os movimentos desmultiplicam-se. O braço solto passa a ser usado, também, como suporte dum corpo que depois de se erguer, se liberta, antes de voltar ao chão. Deitada e de costas tens dois braços que nada seguram. E eu segredo-te ‘Deixa-o cair…’

É de costas que deixas o vestido cair. As costas nuas ficam viradas para mim. Entro no teu jogo de provocação pudica de sedução e pergunto baixinho: ‘Porque não te viras?’

Sem que me oiças fazes-me a vontade. Não sei se é o teu olhar que conhece as minhas fraquezas, se é o desejo que percorre trilhos diversos mas convergentes.

De frente para mim, a mão tapa-te um seio enquanto o antebraço oculta o outro. O braço livre continua, em permanente troca com o que te protege, a movimentar-te, a apoiar-te, a sussurrar-te, a esconder-te, a gritar-te, a tocar-te.

Por entre tanto movimento, entre tantas palavras não faladas, entre tantas imagens retidas, apagadas, refeitas, transformadas, revelo-te baixinho. ‘Se as tuas mãos fossem as minhas…’

O teu braço esquerdo estende-se no chão enquanto prolongamento do corpo deitado. Estás de costas para mim. É no braço que te apoias para reerguer. A tua mão direita tapa-te o seio oposto quando te voltas de frente. O braço esquerdo cai-te ao longo do tronco. Lentamente o cotovelo direito desce revelando o peito do mesmo lado. Deixas cair a mão direita. E de olhos fixos nos teus pergunto-te: ‘Porque o fizeste?...’

2 comentários:

AnaMar (pseudónimo) disse...

Porque te ama...

Bj

© Piedade Araújo Sol disse...

um bom momento de prosa poética.

parabéns!

beij