domingo, 14 de junho de 2009

FINAL

Foto de Marius Olsen


Parou o carro. Desligou a ignição e estagnou naquele desconforto renovado de ter de entrar em casa. Ao longo do dia convencia-se de que seria hoje o dia diferente. Estimulava-se a si próprio querendo acreditar que seria hoje o dia em que a normalidade regressaria. E quase acreditava. Mas quando se aprestava para subir e passar a porta, sabia que a casa ainda estaria vazia e o regresso dela só aconteceria mais tarde. Todos os dias mais tarde. Cada dia mais tarde.

Sentado ao volante abriu as páginas do livro em que era protagonista. Tão longe estavam os dias das não dúvidas, em que tudo pareciam certezas eternas de tão seguras e inquestionáveis se mostravam. Aqueles dias em que um momento sem estarem juntos, ou em comunicação, doía no peito como se pequenas partículas lhe fossem arrancadas. Doía tanto quanto a indiferença do presente. Onde estavam os momentos em que o futuro se revelava só deles? Sem a mais ínfima possibilidade de assim não ser. E os projectos nasciam de sonhos sem que houvesse um pormenor que não fosse necessariamente decidido pelos dois. Onde estava o tempo em que ninguém mais no mundo existia para ela, do que ele, e ele para ela? Quão longe estava o tempo em que um simples olhar era suficiente para perceber que eram únicos um para o outro. O tempo em que se fechavam para o mundo, dentro do universo inviolável que era só deles.

Imperceptivelmente as certezas desvaneceram-se, os segredos deixaram de ser necessários, o mundo alargou-se, assim como os olhares. Os sonhos deixaram de ser desejos para se tornarem objectivos. A presença do outro deixou de ser uma necessidade para se tornar um conforto. O futuro continuou a ser a dois mas em passos dados lado a lado e não como se fossem únicos. O universo que havia sido só deles abriu janelas.

Descuidadamente os segredos passaram a ser necessários. As dúvidas tomaram o lugar das certezas. Os olhares deixaram de parar onde antes fora impensável não estarem. Outros objectivos tomaram conta dos desejos e dos sonhos. A partilha de espaço comum passou a ser uma obrigação. O futuro começou a querer dizer tudo menos continuação. O universo que fora deles desapareceu engolido pelo mundo.

Hoje pouco ou nada restava dessa força que os fizera sentir inseparáveis. Hoje não existia nós. Hoje havia um final de história impossível de voltar a ler, de recuperar o meio, muito menos o início.

Abriu a porta, pegou no casaco, saiu. Enquanto a porta se fechava deu os primeiros passos em direcção a casa. Activou o fecho centralizado das portas e concluiu que tinha terminado o prazo de validade do seu casamento.


Há uns dias atrás, no meio dum comentário deixado pela Luísa a um dos meus posts, encontrei umas palavras que me sugeriram aproveitá-las para escrever este texto hoje publicado.


4 comentários:

© Piedade Araújo Sol disse...

os finais são sempre tristes, mas, por vezes necessários.

o texto está muito bem elaborado.

gostei de ler-te

beij

Gi disse...

Bela inspiração.

sonja valentina disse...

... sem palavras.

Patti disse...

Lá está, acabou-se a novidade.