terça-feira, 17 de março de 2009

PARA LÁ DAQUELE PORTÃO [portão - vila viçosa]


Para lá daquele portão, em tempos, existiu uma quinta onde havia uma casa. E como em todas as quintas onde existe uma casa, haviam pessoas. Enquanto pessoas viveram nessa quinta onde havia uma casa, houve história. Depois que a casa e a quinta foram abandonadas, a história transformou-se em memória. Contam as memórias dessa história que nessa casa, daquela quinta que existiu para além do portão, houve uma família com muitas gerações. De geração em geração a quinta e casa foram sendo herdadas, sem testamentos, apenas com a vontade de preservar o que era a história dessa tal família, os seus segredos e desventuras. Numa dessas gerações houve um homem que sonhou uma utopia: por cada paixão que vivesse, plantar uma árvore de corações. Ao longo da sua vida, que nem a memória, nem a história, sabem especificar quantos anos foram, esse homem plantou um pomar com árvores de corações. Com a chegada de cada Primavera percorria vagarosamente o pomar, observava com minúcia cada árvore, acreditando que iria encontrar uma que desse o primeiro coração. As Primaveras sucederam-se… os Invernos tornaram-se, a pouco e pouco, mais rigorosos e o peso do tempo começou a curvar o agricultor de corações. Um dia, descrente quanto à fertilidade daquelas árvores, chamou o único neto e contou-lhe o seu segredo. Instruiu-o quanto ao tratamento a dar ao pomar e, como única herança, deixou-lhe o sonho de utopia. Passado algumas semanas o homem faleceu. No exterior, um vento forte varreu a quinta… o rapaz, cumprindo as indicações do avô, correu para junto das árvores e verificou-as uma a uma. Junto duma delas, caída junto à raiz, uma das suas folhas tinha as seguintes palavras sulcadas: ‘Há passos que não se recuam. Os teus guardei-os no meu coração!...’

Para lá daquele portão, em tempos, existiu uma quinta onde havia uma casa. Ou terá sido para cá do portão? Onde agora cresceram ervas daninhas… e para lá do portão seja o futuro?


[Na era digital, também da fotografia, Ampliações são as minhas revelações de algumas sugestivas imagens de SONJA VALENTINA; são ampliações escritas, obviamente pessoais, dos pormenores com vida registados pela fotógrafa]

2 comentários:

Marta disse...

Há sempre um para lá do portão e um para cá do portão! Há sempre histórias a contarem imagens, imagens a contarem históras.
As que nos contam. As que nos dizem.
As que inventamos. Tantas.
A dizerem-nos tanto. Muito.

Mariz disse...

Salvé!
Para cá ou para lá do portão há sempre VIDA!
Porque sempre se vive o eterno AGORA!
Que viva cada momento como se a VIDA viesse buscar a sua vida.

Sempre...
Mariz