terça-feira, 31 de março de 2009

DIZ-ME

Foto © Agnieszka Kowalska

Diz-me! O que faço às cinzas da paixão que deixámos arder? E as memórias do que fomos deixando ser nosso, onde as guardo? E os desejos que ficaram por revelar e por realizar, como os posso domar? Sabes? Diz-me se souberes. Às cinzas tenho medo de as enterrar. Podem transformar-se em sementes e voltar a florescer, ainda com mais força, com redobrado vigor, e dar como fruto uma paixão ainda mais ardente. Alojo as memórias no coração? Sim, sem dúvida, é o local privilegiado por natureza para o fazer. É o terreno onde a ternura sabe cuidar, sabe tratar o que se quer guardar para preservar. É verdade!... mas queres que te diga? O coração fica no peito. E o peito está tão apertado e tão tenso que não sei se vai suportar um coração forçado a duplicar-se, ou mesmo triplicar… ainda que as memórias fiquem bem aconchegadas, bem juntas, bem abraçadas como lhes sabe bem estar… E os desejos? Seguro-os? Diz-me como! São resistentes… mais fortes que o vento… que a corrente dum rio… mais obstinados que a inevitabilidade do destino. Mesmo que não queira teimarão em voar… em desbravar terrenos, explorar o céu… atropelarão as estrelas… derrubarão as palavras… e, incapazes de se desprenderem das cinzas e libertarem das memórias, temo que o seu destino seja o não pretendido…

2 comentários:

Gisela Rosa disse...

...as cinzas podem regenerar-se (no peito) nas mãos de quem as escreve...


Sabe que conheço a autora da imagem? Agnies para os amigos, veja aqui:

http://www.freewebs.com/agnies/

sonja valentina disse...

lança-las ao vento será suficiente...