sexta-feira, 27 de março de 2009

COISAS QUE O TEMPO NÃO NOS ENSINA A ENSINAR

Foto © Denis Olivier


- Pai, o que é amar?

- É gostar muito...

- Pai, eu gosto muito de gelados. Eu amo os gelados?

- ...! Não sei... talvez... talvez amar seja mais do que isso...

- O quê?

- Amar é gostar muito, mas também... começar a pensar 'em', quando se parou de pensar 'em'... é sentir saudade antes da despedida... é sofrer 'por'... é sentir falta 'de'... é precisar de repetir o que se sente quando acabámos de o dizer...

- E quando se começa a amar?

- ... quando o coração te der sinal...

- E que sinal é esse?

- Se o sentires bater mais rápido...

- Quando acabo de correr o coração bate mais rápido...

- Sim... mas não é só isso... se o sentires apertar-se... se o sentires crescer tanto que te pareça não caber dentro do peito... e te obrigar a inspirar fundo para conseguires respirar...

- E o que se pode amar?

- Muita coisa...

- Tudo?

- Não! ... não sei... podes amar uma pessoa, um livro, uma música, uma paisagem, uma cidade...

- E tudo ao mesmo tempo?

- Receio que não... talvez uma de cada realidade, mas...

- O que queres dizer com isso?

- Que poderás amar uma cidade, uma música e uma pessoa ao mesmo tempo. Mas dificilmente duas músicas em simultâneo...

- Não se pode amar duas pessoas na mesma altura?

- Sim... se fores pai, por exemplo, amarás os teus filhos e podes amar uma mulher...

- E se eu amar uma pessoa quer dizer que essa pessoa me ama?

- Nem sempre...

- E o que acontece?

- Se quem amas te amar, sentir-te-ás como um pássaro num céu azul, como um peixe num oceano, como o tempo num dia sem fim...

- E se não?

- Tens de controlar os teus sentimentos, os teus desejos, a tua vontade...

- Como um preso?

- Talvez... como as palavras fechadas numa folha que não se dá a ler, como um pássaro fechado numa gaiola, como uma música que não sai da partitura...

- E o que acontece ao coração?

- O coração sofre...

- E eu não lhe posso dizer para não amar?

- Podes. Mas o coração é irreverente...

- O que é isso, pai?

- É o que tu és, meu amor.

- ...?

- ... o que tu és quando desobedeces... quando te dou uma ordem e tu... tens necessidade de não ouvir, de fazer o que queres, o que precisas, o que desejas... de trilhar o teu caminho...

5 comentários:

Marta disse...

Fabuloso! Terno! Tão Lindo!

Nem sei que lhe diga :)

sonja valentina disse...

coisas que não nos conseguiram ensinar e que jamais conseguiremos ensinar... por muito que doa ver sofrer.

Milouska disse...

Um texto tão ternurento, tão real também...
Um beijo,

Milouska

Laura disse...

Obrigada pela visita ao meu canto.
Gostei deste espaço.
Voltarei.

elisabeth disse...

Sim, tudo verdade, tão real, tão bonito e tão cruel...

é tão raro, mas tão especial, quando o tempo fica suspenso em voos altos partilhados, quando o coração parece rebentar no peito...

é tão especial que corremos atrás deste sonho, mesmo sabendo que arriscamos cair, muito fundo, queremos acreditar...

mesmo pressentindo a queda, o coração não obedece, aposta tudo, quer iludir-se e voar no imaginário...

pois pode por vezes até ter razão...