quinta-feira, 26 de março de 2009

MERGULHO


Mergulhado num mar de incertezas, dúvidas e indefinições sentei-me num rochedo da verdade. A cada passo falso volto àquela horta seca, diariamente percorrida, na esperança de encontrar uma palavra perdida, ainda por ler, que possa fazer minha e, com ela, preencher os silêncios que sulcam vazios na alma. A cada partida, o tempo transborda de momentos sem promessa de vida, escritos com emoções repartidas, acasos que teimam em mostrar que esse é o trilho a desvendar. É o teu olhar que me guia, repetidamente, no caminho aprendido de cor. Na certeza do teu olhar leio os pedidos que são minhas respostas, cruzamentos distantes, fatais. A cada sonho abro-te um novo dedo e leio os sentimentos que queres guardar, teimosamente não revelados. E peço-te ‘escreve mais alto!’ que não te ouço. O vento replica o teu silêncio e a minha maré vaza. Inseguro quanto ao teu regresso e à tua próxima enchente. Caotiza-se o ciclo das marés. Do céu chovem paradoxos e abraço-me ao que me faz sentir falta do que nunca tive. No deserto dos dias planto esperanças e regresso às hesitações. Procuro fórmulas certas para o que não tem porquês e… desisto. Agarro a inocência do olhar duma criança para conseguir dormir feliz, mesmo que não consiga fechar os olhos. Exausto, deito-me na areia de que todos os dias recolho um pedaço para misturar com palavras e colocar numa ampulheta, na expectativa de que o tempo desacelere. Fecho os olhos e observo o céu. Início a contagem. Eternamente repetida. A cada final o número aumenta. E desespero! Procuro a nitidez do teu olhar. O cansaço verga-me e caio no sono. Perdido no sonho, volto a convencer-me que te espero. Não consigo confirmar se mergulhaste. Só amanhã quando retomar a contagem… só amanhã se as tuas palavras regressarem… ou ainda agora se sentir teus dedos na minha mão…

1 comentário:

Gisela Rosa disse...

"Agarro a inocência do olhar duma criança para conseguir dormir feliz, mesmo que não consiga fechar os olhos."

Adorei, que felicidade poder escrever assim. Parabéns! Um abraço, Gisela