quarta-feira, 4 de novembro de 2009

A SUSPENSÃO DOS PASSOS

Foto de Benoit Michelot


Era habitual a sua primeira fuga matinal terminar naquela mesa. Fugia da solidão que a madrugada semeava em cada manhã, para se encontrar consigo mesma naquela paragem onde uma ‘meia-de-leite’ e uma torrada lhe entreabriam o dia, por sussurros de conversas alheias que se difundiam e os pensamentos que se tinham de organizar.

Por regra sentava-se na mesma mesa, de costas viradas para a entrada. Não aguardava, pois era o pormenor da paisagem que não se destacava perante qualquer olhar, tal era a sua integração na mesma. Virava-se para dentro de si mesma como se a limitação do seu próprio espaço fosse uma lei não transmutável.

Depois de pagar, com a quantia que habitualmente já tinha em valor exacto, arrumava entre as suas ideias palavras soltas recolhidas nas oratórias que não lhe eram dirigidas. Partia para o dia com a decisão de quem avança convictamente. Levava consigo pedaços de outros. Ninguéns que sem saber lhe semeavam sentires para um novo futuro.


7 comentários:

paletadesonhos disse...

sedução ... hummmm

elisabeth disse...

uma rotina de solidão matinal, em paisagens de café conhecidas, nas quais se integra, tal e qual a mobília, peça de decoração,
decidida a funcionar como sempre, assumir o papel de sempre, num dia cinzento,
embora incipientemente colorido por pedaços de outros, ninguens, que se misturam no mosáico de sentires novos...

estou curiosa, o que seguirá?

Ana disse...

Guardar pedaços de outros. Guardar os passos de quem escreve. Palavras a semear sentires para um futuro que se quer novo.

Gi disse...

Esse sujeito era um aproveitador. ;)

milhita disse...

E sentia, sentia os passos por percorrer na madrugada finda. Sentia a voz de um firmamento ao alcance de um gesto, verdade tão clara para além dos momentos vazios e vagos.

AnaMar (pseudónimo) disse...

E o dia passado em função do sentir desconexo, de ninguéns sem paixão, sem cor, sem odor, sem nada, corpo virgem, sem uso.
E fechava-se em si, nos outros que permanecem incógnitos. E sabia-se mulher.

Luz disse...

Quantas vezes sentimos esta necessidade de evasão na nossa rotina..., mas no fundo é apenas uma ilusão, um enganarmo-nos a nós próprios...
Ou antes será o nosso modo de sentir, sentir com todos os sentidos sentires que em nós habitam que nos invadem a alma para além de nós..., um sentir tudo de todas as maneiras, sentindo-nos em nós e noutros novos sentires...