sexta-feira, 13 de novembro de 2009

ERA UMA VEZ O AMOR...

Foto de Jonas Göthlin


No princípio da verdade havia um túnel onde o amor quis entrar. Fez uma pausa. Ponderou. E ao dar os primeiros passos sentiu-se agarrado. Parou. Olhou para trás e percebeu que era a dúvida que o detinha. Olhou-a para tentar ler-lhe a intenção quando percebeu que a razão estava por perto apontando-lhe na direcção duma luz encandeante. Era a tentação. Logo em seguida a razão indicou-lhe uma rampa com uma superfície deslizante que descia em plano bem íngreme até que se prolongava por uma subida lançada em deslumbrante velocidade, mas que não permitia ver o que existia para além do cume. Disse-lhe ser a paixão. Mostrou-lhe ainda uma vereda onde existiam roseirais com lágrimas em muitas das pétalas. Para entrar nela era necessário transpor um portão onde se podia ler a palavra ciúme. Sentiu-se confuso, mas antes que o expressasse a razão segredou-lhe ser sua tarefa obrigar o pensamento. O amor perguntou-lhe então o que era uma outra área vedada por sorrisos, onde as plantações pareciam arrumadas por alturas. Explicou-lhe a razão ser um terreno onde se semeavam vontades para fazer crescer certezas. Só quem ali deixava as suas sementes se decidira a entrar no túnel. O amor assim fez antes de reentrar no túnel da verdade. Aos poucos foi ajustando a sensibilidade à luminosidade. Primeiro inexistente. Depois sentiu-se enleado por uma nebulosa que se abria na escuridão. Até que um ínfimo ponto pareceu definir o horizonte. Lentamente esse pedaço de luz foi crescendo até iluminar por completo o túnel da verdade. O amor percebeu que estava próximo do destino. Parou quando à sua frente já só descortinava uma larga, vasta e serena imensidão de água. Olhou para trás. A outra extremidade do túnel já não era perceptível. A dúvida, a tentação e outros mais caminhos haviam ficado do outro lado. A verdade não acabava ali, mas só a sombra da razão se arrastava atrás de si. Abriu os braços, fechou os olhos e deixou-se cair no lago da confiança.


5 comentários:

Tia_Cunhada disse...

Ai PasÇsos, que texto delicioso!!!Já o li várias vezes e vou repetir outras tantas...
Escrito/lido assim, até parece fácil amar..
Beijo

elisabeth disse...

Palavras que deixam ficar sem palavras, cortam a respiração,
que obrigam a ler e reler, ...

Imagens tão bem escolhidas, o túnel, a luz, os caminhos para chegar até ela, aqueles que desviam, as alternativas que nos confundem, a razão a chamar à razão, a necessidade de escolher, de semear antes de entrar no tunel, para deliberadamente deixar crescer certezas... (será possível? mas as vontades é que contam!)

Decidir entrar, seguir, adaptar-se à luz, deixar-se cair no lago da confiança...

Bela estória de amor...
mas porque "era uma vez"? dúvidas?
será condendada a ser eterna lenda?
porque não "será uma vez"...?

© Piedade Araújo Sol disse...

Pas(Ç)sos

que texto tão bem escrito, delicioso de ler.

e que a inspiração nunca te falte!

um bom fim de semana!

um beij

Parapeito disse...

:)
Gostei
"Abriu os braços, fechou os olhos e deixou-se cair no lago da confiança."
E só assim vale a pena...Confiar no amor...
Dias cheios de Confiança****

Gi disse...

Era uma vez o amor com desejo de se tornar eterno e feliz.