domingo, 8 de novembro de 2009

PANCADA[S]

Foto de Rui Palha


O fim chegou com aquela pancada seca. A interrupção abrupta que corta. O ponto final que não se escreve. O som que determina o início do silêncio ou o terminar do diálogo.

Pensou “Todos os fins são assim! Sejam imprevistos ou imagináveis, sejam surpresas ou programados, sejam espontâneos ou agendados… todos os fins são um ponto final.”

Restava-lhe, então, sair à rua e agradecer o sol ou a chuva que fizesse, como uma oferta por estar viva. Sabia que iria chorar fosse razão a alegria do sol ou a tristeza da chuva.

Enquanto caminhava anónima na multidão, cruzou-se com uma criança que de mão dada à mãe, lhe sorriu, viu um casal de namorados que se abraçava, passou por um mendigo que lhe desejou boa-noite…

Foi nesse instante que se apercebeu, por entre as nuvens, que o sol descia sobre o mar. O dia terminava. Chegava ao fim. Porém não se ouvira a pancada seca que marcava o final. O sol escondia-se dando lugar à noite. O dia dissolvia-se nas luzes artificiais. Era uma despedida suave. Como num filme, quando após a cena derradeira, a música prolonga no desenrolar dos que intervieram na edificação da película, o final para além daquela imagem conclusiva.

Caminhava. As luzes iniciavam a iluminação do dia que se apagava. Alguns pingos de chuva caíam indisciplinados tocando-lhe a pele. Percebeu que uma nova acção se poderia iniciar. Em breve, ou talvez não. A sua actuação não tinha terminado. Uma série ritmada de pancadas marcariam o novo começo.

7 comentários:

elisabeth disse...

Supreendente, radical, bonita sequência essa da pancada à despedida suave do dia mediante pôr de sol, por sinal, sobre o mar...

porquê não podemos olhar todos os fins com aquela tranquilidade que marca esse descer do sol no mar,
porquê não conseguimos atribuir a todos os fins esse sabor especial, uma ternura, uma gratidão pelo belo que encerraram e até uma esperança pelo belo que poderá vir (e se vislumbra a cada passo, como aqui tão bem descrito)?

desconfiança? pessimismo? expectativas demasiadamente elevadas perante uma vida demasiadamente humana, errónea?

novas pancadas... evita-las? só baixando as expectativas, mas será que saberá ao mesmo?

é que parece que fomos feitos para a eternidade...

C. disse...

É que... todo o fim é sempre o princípio de outra coisa qualquer. Nunca acabamos de começar. Talvez seja essa a beleza de estarmos vivos. Quando temos esperança, claro.

Abraço

Tia_Cunhada disse...

Momentos da vida de qualquer um de nós... mas com a riqueza da tua escrita.

Um beijo

Gi disse...

Há fins que dão lugar a princípios é uma história sem fim.

Carla disse...

porque para lá do fim...há um re-início
beijos

AnaMar (pseudónimo) disse...

...E uma lágrima veio lentamente, pousar-lhe no olhar.

Bj

Parapeito disse...

...O fim...
nunca sei bem o que pensar ...sobre o fim...