sábado, 5 de dezembro de 2009

NAQUELA RUA HÁ UMA ESQUINA

Foto de Bror Johansson


Naquela rua há uma esquina
onde a viagem termina
e o sonho começa.
Adivinham-se olhares
nos passos por percorrer,
guardam-se palavras
dispensadas de dizer.
Quando te pressinto
sob o contra-luz da tarde,
no rio, os navios
anunciam o desejo
de ancorar no cais.
Traduzes num sorriso
o desejo dum abraço
e o caminho encurta-se
nessa rua sem fundo.
No horizonte dum beijo,
os corpos dominam
os olhares que se fecham
na moldura enlaçada
pelo murmúrio do reencontro.
Entrega-se a tarde
no princípio duma frase
prolongada no pôr-do-sol
onde as palavras se repetem
no eco das mãos e dos lábios.
...
Quando a noite adormece
a cidade devolve-nos
aos ruídos do silêncio
em que o desejo cresce.
E ao dobrares a esquina
dessa rua terminada,
o sonho adia-se
na sombra da saudade.


5 comentários:

susana disse...

O fim é tristinho...

C. disse...

"Entrega-se a tarde
no princípio duma frase"

Belíssima conjugação da imagem e de versos (como estes). Uma toada de fado pela calçada.

Tia_Cunhada disse...

Onde fica essa rua...?

Um beijo

sonja valentina disse...

apenas me ocorre dizer uma palavra: fabuloso!

um abraço!

elisabeth disse...

"o sonho adia-se
na sombra da saudade..."

tristeza envolvente, envolvida num fado desenhado por uma estreita ruela, ligeiramente curvada e horizonte luminoso que projecta a sombra, mas permite vislumbrar algo mais...

mais um fado, pleno de ternura

bonito!