
Desenho © Alexander Ahilov
Entrou e olhou em redor
discretamente observou cada pormenor
sentou-se no banco
como se dum pedestal se tratasse
aconchegou o robe
como se um frio interior emergisse
da sua pele
nua
Ele entrou sem olhar a nada
sentou-se no banco em frente ao cavalete
desfolhou as páginas
ao encontro duma branca e vazia
em silêncio olhou para ela
nada disse
Deixou o robe descair dos ombros
escorregar pelos braços
cair-lhe das ancas
um ligeiro e incontrolado tremor
fixou-lhe a pose
Ele pegou no carvão
timidamente olhou-a
e desenhou os primeiros traços
como quem não chega a tocar
retraindo o gesto
Um vento de angústia
voou-lhe no peito
Desenhou contornos
como se fossem carícias
tocadas em cada poro da pele
sereno, sem hesitações, seguro
sem apagar
preencheu, pormenorizou, manchou
decidido, concentrado, determinado
Ela sentiu o desenho
entrar dentro de si
deixou-se desfazer no papel
O tempo tornou-se incomensurável
o relógio continuou estaticamente em movimento
Em silêncio nada disse
recuou
contemplou
e não olhou
nada disse
Levantou-se
pegou no robe para se cobrir
... e saiu
como deixasse a cama onde fizera amor com um estranho
3 comentários:
Este seu post fez-me lembrar o desenho de uma Mulher no poema de Jorge Sousa Braga:
Metade mulher metade pássaro
Metade anémona metade névoa
Metade água metade mágoa
Metade silêncio metade búzio
Metade manhã metade fogo
Metade mulher metade sonho
Belo esquisso de carvão e escrita!
fazer arte do corpo de alguém é certamente como fazer amor. o teu poema dá conta dessa entrega. muito bom.
beijos
Boa noite, PAS[Ç]SOS!
Tenho vindo aqui, mas sem tempo para comentar.
Belo esboço, pleno de sensibilidade.
Beijo,
Milouska
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