segunda-feira, 10 de agosto de 2009

A PRESENÇA NA AUSÊNCIA

Foto de Matjaz

Ausento-me da virtualidade
desta presença
e quando o vosso voo
realizarem por estas linhas,
outros céus
a minha realidade cruzará.

Parto à descoberta
de olhares desconhecidos
que irei registar no meu,
mergulhos em novos mares
pisar novas areais
conquistar novas muralhas
sentir na pele outro sol
contemplar novos sorrisos.

No regresso
farei de todas as capturas
renovados momentos
de partilha.

domingo, 9 de agosto de 2009

EM CÂMARA LENTA [V]

Foto de Lukas Wozny

Março ia avançado quando naquele dia a frescura da manhã se mascarou de tristeza. A melancolia pegou num vestido de carícias e provou-o. Puxou o fecho de ternura para se compor e, na bolsa, guardou a história de sentimentos. Mesmo distante sentia-lhe aquele fiozinho frio cortar-lhe o peito e, ainda que não houvesse lágrimas, sabia que o dia dela chorava. Tentava segurar-lhe a respiração. Sopros de oxigénio em sinais de presença como suspiros de murmúrios dizendo: "estou aqui!"

Era-lhe impossível perceber a reacção dela. Não a via, não a ouvia... só lhe sentia as palavras. E estas chegavam como escolhidas por entre as mais perfeitas alguma vez escritas. As únicas, uma vez depuradas todas as que poderiam ser lidas. Terá, já só mais tarde, percebido que as palavras que ela lhe deu a ler, naquele dia, poderão ter sido somente lágrimas que ela verteu e teve necessidade de lhe pedir que as guardasse. Quando as recebeu não as entendeu assim...

"Algumas pessoas nunca precisei chamar de nada e sempre foram e serão especiais para mim."

Conforme a noite avançava, a hora da partida aproximava-se. Ele sentia como se houvesse um laço invisível que os ligava, que lhes permitia não se afastarem. Na necessidade de ir, pressentia-lhe o desejo de que a distância se flexibilizasse, distendendo sem quebrar aquele fio de nada, indefinível, indecifrável, mas que sentiam.

E mesmo, mesmo antes de partir, as palavras de Pessoa abriram caminho para aquela revelação. E o mundo sorriu. E aquele voto que entendeu como de confiança - quiçá um grito incapaz de ser contido - desenharam-lhe um sorriso no mundo, um perfume pulverizando o universo. Aquele instante que marca o filme, independentemente de quem sejam os intérpretes. Para viver bem em câmara lenta, mesmo que em ilusão, se o realizador responder pelo nome de... sentimentos que nos provocam sorrisos interiores.

sábado, 8 de agosto de 2009

O SABOR DOS TEUS LÁBIOS


Se o sabor dos teus lábios
é a força do mar
rasgando o oceano
para nova terra alcançar...
os teus lábios quero provar!

Se o sabor dos teus lábios
é a frescura da sombra
ansiada pelo caminhante
ao atravessar o deserto...
os teus lábios quero provar!

Se o sabor dos teus lábios
é a apneia do trepador
que ao atingir o cume
se sente às portas do céu...
os teus lábios quero provar!

Se o sabor dos teus lábios
é o deslumbre do viajante
raiado no olhar incrédulo
da cidade sonhada...
os teus lábios quero provar!

Se o sabor dos teus lábios
é o silêncio da manhã
espreguiçado no acordar
dum sonho a tomar cor...
os teus lábios quero provar!


Sabes?
ainda não consegui coragem para te dizer
que quero provar
o sabor dos teus lábios.

RAUL SOLNADO

Foto recolhida aqui

Quando era criança existiam os discos de 45rpm, em vinil, com as suas ‘histórias’. Sabia-as de uma ponta à outra, como a história da guerra, a do violino, a do cabeleireiro o Caracol das Avenidas, a dos bombeiros voluntários, a do homem que se quer suicidar, a 'História da minha Vida'...

Como qualquer criança que faz umas habilidades eu era o palhacinho quando ia ao barbeiro, e com 6/8 anos, sentado na cadeira, debitava todas as suas histórias.

Hoje, quando mais um herói do Zip Zip desaparece recordo piadas isoladas das suas histórias, sem o entusiasmo de antes, mas que me deixam a saudade de mais um ídolo que partiu.

Hoje, Raul Solnado já não responderá mesmo que peçamos 'Podió chamá-lo?'


sexta-feira, 7 de agosto de 2009

PASSOS

Foto de Victor Holm



É tão estreito
o caminho que me leva até ti
que temo ser incapaz de conter

toda a emoção que me faz percorrê-lo

aperto os sorrisos
as lágrimas
as palavras
os olhares
os suspiros

as mãos
os passos


que buscam
carícias
afectos

abraços
certezas
passos

e é tão estreito
o caminho que me leva até ti
que temo pelos meus

passos

tão apertados
tão incontidos
tão ansiosos
tão cautelosos

nos trilhos que me abres
para que os meus
passos

me levem até ti

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

DRUMMING NO FESTIVAL DOS OCEANOS

Foto do meu Nokia

À largura de todo o exterior do topo norte do Pavilhão de Portugal, estendiam-se seis palcos, cada um com uma dezena variada de instrumentos de percussão. Os seis músicos, liderados por um dos mais conceituados percussionistas internacionais Miguel Bernat, assumiam-se proprietários de cada um dos espaços conforme os compositores interpretados, trocando de ‘propriedade’ antes de cada obra.

O concerto abriu com um dos movimentos de Plêiades de Iannis Xenakis, compositor romeno, que estudou na Grécia e um dos mais influentes compositores contemporâneos. Seguiu-se-lhe Marés de Moçambique de António Chagas Rosa, inspirado em trabalhos de Luís Noronha da Costa cuja pintura prima pela tentativa de desfocagem do objecto. A terceira obra, intitulada Rosa Noir de l’Étoile, é de autoria de Gérard Grisey, compositor francês que nela retrata a descoberta e o pulsar das estrelas. Para concluir o concerto, um regresso a Xenakis, com outro movimento de Plêiades.

Um programa complexo que terá tido bastante dificuldade em agarrar um público disperso por uma área demasiado abrangente e, cuja maioria, expectava algo mais ritmado. Nas oito colunas arquitectónicas, bem como no centro delas, foram projectados, ao longo de todo o concerto, uma série de imagens e de efeitos luminotécnicos que visavam concentrar o público na área de actuação. Receio que não tenha sido conseguido. Quem se encontrava no centro do espaço reservado ao público pôde experimentar pormenores curiosos do desenho de som. Seis colunas de monitorização colocavam-se junto dos palcos. Efeitos sinuosos faziam-nos perder a noção sobre a origem de cada som, pois ao ser amplificado do lado direito poderia bem ser o do palco do lado esquerdo. Um efeito realmente ilusório, mas porventura demasiado enganoso.

Como me dizia Miguel Bernat no final do concerto, é necessário trazer composições novas ao público. Concordo! Limitarmo-nos ao que sabermos ir ser sucesso, pode vender bilhetes, mas não provoca a evolução do público. Contudo, e quanto a mim, lamentei que a excelência daqueles exímios intérpretes quase tenha passado despercebida. As pessoas desistiram, viraram costas… enquanto a lua, plena no seu esplendor, subia lentamente no céu sobre o rio Tejo, e num prolongado namoro com o Oceanário.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

E SE NÃO HOUVER AMANHÃ?


Foto de Philip LePage


Alguns meses haviam passado sobre aquele encontro à beira-rio. Tinha imposto comedimento a si própria. Tinha percebido não poder ignorar, mas decidira tomar pulso à emoção e racionalmente ir apagando aquela ‘loucura’. Nos primeiros dias optara por responder-lhe de forma cordial. Progressivamente fora se obrigando a espaçar as respostas. Apagava no imediato o que recebia, para não sentir-se tentada a reler e… até a responder. Só ela saberia quantas vezes se arrependia de o fazer. Quantas vezes desejou não o ter feito. Quantas vezes quis tanto reler o que tinha destruído.

Certamente, como consequência da atitude dela, ele desistira de lhe telefonar. Limitava-se a enviar-lhe mensagens, e-mails, muito raramente uma carta. Tudo parecia mais moderado e controlável quando ele comunicava. Mas bastava que algum tempo passasse sem que ele lhe dissesse algo e a ansiedade dela aumentava. O último e presente interregno já durava há muito. Isso inquietava-a. Sem o controlar procurava repetidas vezes as caixas de entrada na procura de alguma novidade. Mas já se tinham passado algumas semanas desde a última comunicação dele. Nunca poderia precisar qual o tempo exacto. Tinha-a destruído em seguida.

Irracionalmente, num acto de desespero pegou no telemóvel e marcou o número dele. 'O número para o qual ligou não está atribuído.' Foi a resposta que ouviu. Tentou de novo. E outra vez ainda. Sempre a mesma resposta. Mas tinha a certeza, fora sempre aquele que utilizara para lhe responder. Fora sempre através daquele que recebera todas as ligações dele. Telefonou para a operadora e confirmaram-lhe que o número não estava atribuído. Tinha sido desactivado! Não estavam autorizados a facultar informações sobre o titular anterior.

Quis convencer-se de que teria sido uma providência suprema a resolver a situação dela. Por isso decidiu não pensar mais no assunto. No fundo ele também revelara desinteressar-se. Afastara-se. Nada dissera. Desaparecera. Não se despedira. Ponto final. Terminara.

Mas não para a sua ‘segunda consciência’, que não parara de procurar solução para chegar ao contacto. E encontrou. O irmão da Laura trabalhava na operadora. Seguramente conseguiria ajudá-la.

Antecedentes
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