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quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

NAS ASAS DO FASCÍNIO [(IN)DISCRETAMENTE]


Lembro-me de passar, de mão dada com meu pai, junto aos degraus de acesso àquela porta azul que marcava presença pela sua imponência. Os meus poucos centímetros acima do metro de altura, só permitiam que o olhar contemplasse bem acima do meu horizonte. Os oito degraus que se subiam para a ela chegar, ainda mais me faziam crer que aquela porta seria a entrada, se não do céu, de algum corredor que lhe serviria de antecâmara. Em muitos desses passeios com meu pai, tive a tentação de subir os degraus e chegar mais perto dela.

Seguramente porque me sentia olhá-la com tanta curiosidade, o meu pai, um dia, perguntou-me o que descobrira eu de tão fascinante naquela porta. Respondi-lhe que a sua grandeza, a sua altura, a sua cor e um ponto dourado brilhante por onde parecia sair luz. Perguntei a meu pai quem morava para lá daquela porta. Respondeu-me que só uns seres desistentes do mundo entravam naquele reino. Pedi-lhe que me explicasse melhor, mas largando-me a mão, bateu-me carinhosamente com o punho fechado no topo da cabeça. Percebi que estava a colocar um ponto final na conversa.

A curiosidade de saber qual a realidade aberta por aquela porta, não se extinguia dos meus pensamentos. Nunca, nas vezes que por ali passámos, vimos alguém transpor aquela porta. Nunca a vimos aberta. As janelas que ficavam perto eram altas demais para que pudesse perceber o que os vidros e umas cortinas opacas escondiam.

Num outro passeio, algum tempo mais tarde, fui surpreendido pela decisão do meu pai. Subimos os degraus e acercámo-nos da porta. Transpostos os primeiros obstáculos, ela, agora, parecia-me mais acessível. Mas mesmo assim imponente. Colocando o indicador direito à frente dos lábios, meu pai abortou a pergunta que me preparava para lhe apresentar. Apontando, em seguida, para aquilo que me parecera, ao longe, o tal ponto dourado brilhante, disse-me em sussurro: “Por ali entram os que desistem de voar no mundo. Só prescindido das asas conseguem penetrar. Ao transpor aquela pequena entrada, transformam-se em luz. Demasiado intensa para qualquer de nós poder olhar…”

Ouvi-o com atenção e fascínio. A minha imaginação infantil partiu em busca de seres inventados, de cenários inverosímeis, de descobertas inexoráveis. Voltamos a descer a curta escadaria e tive uma estranha sensação de que um foco de luz me era apontado às costas. O tempo de descida daqueles oito degraus prolongou-se por muitos anos, tal foi o encanto experimentado pela revelação do meu pai.

Cresci. Com a passagem da idade desvaneceu-se aquela sensação transcendente que as palavras do meu pai haviam despertado. Porém nunca as esqueceria. O aspecto da porta foi envelhecendo como se fosse todos os dias usada. O azul acinzentara-se. Só o tal ponto dourado se mantinha imaculadamente brilhante. Porque nunca registei qualquer sinal de vida por ali, a minha curiosidade manteve-se acesa.

Já adolescente, ao passar por ali num bando de colegas e amigos, subitamente o meu coração parou. Estou certo que o sangue terá mesmo estancado, tal o gelo que me invadiu. Senti perder toda a cor. A porta estava entreaberta… uma fracção de tempo que não consegui avaliar, mediou até que um vulto fizesse sombra para o exterior, pela fresta aberta que prosseguia inalterável. Mais lívido terei ficado quando vi sair, por aquela porta que ao longo dos anos alimentara grande parte da minha capacidade de sonhar, um corpo feminino. Era de uma jovem mais bela do que uma noite de estrelas. O vestido que trazia deixava perceber as formas esculturais do corpo. No topo do seu tronco assentava a cabeça vestida por cabelos cor de mel, os quais ornamentavam um rosto celestial. As palavras de meu pai ecoaram na memória do tempo. Concluí que afinal há anjos que decidem regressar à vida.


[Na era digital, também da fotografia, Ampliações são as minhas revelações de algumas sugestivas imagens de SONJA VALENTINA; são ampliações escritas, obviamente pessoais, dos pormenores com vida registados pela fotógrafa]

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

PEGADAS [E ASSIM, SIGO OS TEUS PASSOS!]



Vês aquela extensão de areia que se deita de braço dado com o mar? Vês como ele a roça, teimando em apagar-lhe as memórias do passado? Vês como ela se alonga, de novo, quando ele recolhe a sua carícia? E vês como ela aquece no calor dos raios, a que ele acorre para lhe saciar a sede? Há um jogo de sedução que se extingue na efemeridade duma rebentação e se perpetua na existência duma maré. Há um aliciamento na forma como ele a cobre, a atravessa e se esvaece sob a sua superfície. Aquela extensão de areia é o mar do tempo onde as horas se estendem. É a tentação do homem que a deseja moldar na forma das suas mãos. É a evidência do cansaço que se desfaz na sucessão dos dias. O mar são as novas horas que chegam e se sobrepõem. É a razão que desfaz a tentação. É a energia que revigora. Vês aquela extensão de areia que se espalha sob o mar? Vês aqueles passos que o mar não consegue apagar? São as pegadas dos meus pensamentos no caminho em que a ti me entrego.

[Na era digital, também da fotografia, Ampliações são as minhas revelações de algumas sugestivas imagens de SONJA VALENTINA; são ampliações escritas, obviamente pessoais, dos pormenores com vida registados pela fotógrafa]

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

ESPERA [UM LUGAR À MESA...]

Foto © Sonja Valentina


Não sei se por prece, se por obsessão. Talvez como ritual. Todos os dias preparo, à minha frente, espaço que sobra dentro de mim, dia a dia na vontade de deixar de o ser. Um espaço desocupado. Não sei se por loucura, se por fantasia. Talvez por sanidade. Todas as refeições deixo os diálogos cobrirem-se de silêncio. Palavras adivinhadas. Omitidas na emissão do sonhar. Um espaço cansado de não se sentir falado.

Todos os dias, o prato espera vazio para que a comida não arrefeça. O vinho aguarda no copo para ganhar corpo. Todos os dias há um lugar à mesa, como há um lugar em mim. É esse vazio que me enche o peito, que todos os dias se senta na minha mesa. Sem convite. Os vazios não se convidam. Implantam-se. Estendem-se. Ganham espaço. Conquistam terreno. E é para evitá-lo que todos os dias há um lugar, à espera, na minha mesa.

No dia em que esse lugar for ocupado, já o espaço ganhou raízes. Tentáculos que segurarão quem se sentar. Porque a espera criou braços que envolverão quem a quebrar. O manjar apurou. Ganhou o paladar que recusa a partida. O néctar envelheceu e inebriará quem tiver a coragem de fantasiar um regresso nesta chegada desejada.

Todos os dias há um lugar à mesa que se senta na minha frente. Eu olho-o sem que ele me veja. Todos os dias reparto a minha refeição com esse lugar que ocupa mas não é ocupado. Todos os dias vejo na minha frente esse vazio que me inocenta a vida. Todos os dias me levanto da mesa com a esperança de que será amanhã… um lugar à mesa será ocupado dentro de mim.


[Na era digital, também da fotografia, Ampliações são as minhas revelações de algumas sugestivas imagens de SONJA VALENTINA; são ampliações escritas, obviamente pessoais, dos pormenores com vida registados pela fotógrafa]


segunda-feira, 28 de setembro de 2009

... COMO [SERENAMENTE]

Foto © Sonja Valentina


como o sol que se levanta
por detrás do horizonte do mar,

como o tacto que se move
sob o
tecido da pele,
como a areia que emerge
por debaixo da espuma das ondas,
como o corpo que acorda
ocultamente na
carícia das mãos,
como o albatroz planando
sobre o
reino dos céus no domínio do mar,
como o beijo que se furta
na demora dos lábios ávidos de o receber,
como a voz que ecoa
no vale cravado entre as escarpas da montanha,
como o frio que se destapa
dos corpos submersos no algodão da madrugada,
como a medusa que cede
na fraqueza do regresso às águas salgadas,
como as pálpebras que se cerram
no mergulho de deleite no oceano dum olhar,


serenamente

como o tempo que se escoa
por entre os dedos de dois amantes
espraiados no areal da manhã,
no retorno duma onda
que refreia o ímpeto do mar.



[Na era digital, também da fotografia, Ampliações são as minhas revelações de algumas sugestivas imagens de SONJA VALENTINA; são ampliações escritas, obviamente pessoais, dos pormenores com vida registados pela fotógrafa]

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

AO ENTARDECER


Sobre cada dia cai o entardecer
num convite à noite.
A cada dia percorremos o caminho do tempo
num salto até ao ocaso da vida.

Cai a tarde lá fora.
Enquanto o sol se esconde
espelham-se as águas nas despedidas dos rumos
deixadas pelos barcos que acostam.

Também eu fundeei
cansado de navegar.
Prendo amarras no limbo da esperança,
abro canais em limos do olhar.

… mas desisto.
Desço as velas,
abandono os remos
e espero.
E sonho que te tornas âncora
e te soltas desse rochedo de segredos
e sobes até mim
e te transmutas leme…

Desabrochando a noite seduzes-me a vontade,
abres-te em cartas de marear que nunca li.
Do meu corpo náufrago
fazes o leito da tua noite.

A cada dia cai o entardecer,
pequenos passos para o ocaso da vida.
Aportado no tempo quieto
espero pela tua luz farol
espero que me mostres a madrugada…

... ao entardecer abro estreitos de esperança,
fios de prata tecidos na força de crer.
... ao ocaso da vida antecipam-se as trevas
e a tua mão será a chama do meu querer.


[Na era digital, também da fotografia, Ampliações são as minhas revelações de algumas sugestivas imagens de SONJA VALENTINA; são ampliações escritas, obviamente pessoais, dos pormenores com vida registados pela fotógrafa]


sexta-feira, 3 de julho de 2009

ARRANJE-ME UM CIGARRO


Arranje-me um cigarro… que tenho de queimar tempo… o destino queimou-me a vida e a solidão a esperança. Preciso de queimar tempo para chegar ao fim da vida. Preciso de queimar vida para ver passar o tempo. Dê-me um cigarro para queimar estas cinzas de mim que teimam em não se disseminar no tempo. Talvez o cigarro queime o resto do que aqui vê…

Arranje-me lume que preciso de me aquecer. Há um frio oco que corre dentro de mim. Um frio que não guio mas me percorre. E eu quero aquecer. Para me sentir. Para identificar essa corrente gélida que me consome. Arranje-me lume que eu preciso de luz. Para me iluminar. Para me encandear neste escuro em que me vejo, em que me perco, em que naufrago. Preciso de luz que seja meu farol… deste corpo à deriva… do caminho que desconheço.

Deixe-me acabar o cigarro. Até ao fim… não desista agora! Deixe-o arder até à última brasa. Deixe essas brasas arderem em mim. Deixe-o consumir-se em prazer não interrompido. Dê-me o prazer de me sentir consumido. Não desista agora que o cigarro está a chegar ao fim. E o prazer dum cigarro é maior do que qualquer prazer na vida. A vida consome-se com menos sentir do que o do tempo dum cigarro. Não desista agora. Está mesmo perto o fim. O fim do prazer deste cigarro… do prazer de o saber ouvir-me… o prazer de estar mais perto do fim…


[Na era digital, também da fotografia, Ampliações são as minhas revelações de algumas sugestivas imagens de SONJA VALENTINA; são ampliações escritas, obviamente pessoais, dos pormenores com vida registados pela fotógrafa]


segunda-feira, 22 de junho de 2009

CASULO [abstracto]



Vivo num casulo
feito de pensamentos
enrolado em segredos que não sei desvendar
Vivo num casulo
feito de estradas
traçadas num mapa que não sei adivinhar
Vivo num casulo
feito de clausulados
estendidos em leis que não sei exercer
Vivo num casulo
feito de noites iluminadas
por vozes que não me sabem entender
Vivo num casulo
feito de línguas
espalhadas em idiomas que não sei traduzir
Vivo num casulo
feito de saudade
à procura de uma fresta por onde sair


[Na era digital, também da fotografia, Ampliações são as minhas revelações de algumas sugestivas imagens de SONJA VALENTINA; são ampliações escritas, obviamente pessoais, dos pormenores com vida registados pela fotógrafa]

terça-feira, 19 de maio de 2009

ESCORREGO ATÉ AO RIO [rua da bica duarte belo, lisboa]


Subo a uma colina

inspiro

ganho fôlego

apanho balanço

desafio a ladeira

sobre a cidade

espraio meu olhar

escorrego

sobre os telhados

fecho os olhos

oiço uma guitarra

e mergulho no rio


[Na era digital, também da fotografia, Ampliações são as minhas revelações de algumas sugestivas imagens de SONJA VALENTINA; são ampliações escritas, obviamente pessoais, dos pormenores com vida registados pela fotógrafa]


quinta-feira, 14 de maio de 2009

SE TU VIESSES VER-ME... [se tu viesses ver-me...]


As madeiras rangem queixumes de décadas por entre a densidade do silêncio, qual nevoeiro sobre o rio, numa manhã de Inverno sem chuva. Apesar de ser Primavera sinto o frio da tua ausência abraçar-me quando a tarde se vai. Lá fora, nas árvores, as folhas não se movem. O aroma das flores entra pela janela enquanto cozinho o prato de que sei gostares. Condimento-o como se espalhasse beijos na tua pele. Em monólogo, dialogo contigo como se tivesses acabado de chegar e esperasses pela bebida que te preparo. Mexo languidamente o preparado como se, com carinho, meus dedos passeassem pelos teus cabelos afagando tua nuca. Invento o cheiro do teu perfume quando entro na sala e me sento no chão, sobre o tapete onde fizemos amor pela última vez. Começo uma conversa com os livros. Sinto-me uma página a desejar ser folheada. Peço-lhes que me leiam um poema escrito por ti. Em cima do tampo da secretária repousa uma caneta sobre uma folha onde ensaiei palavras não terminadas. Ordeno-lhe que escreva a voz do meu coração, o céu dos meus pensamentos, para que um dia os leias. E penso ‘se tu viesses ver-me…’. Levanto-me, caminho até à porta, deixo a noite entrar. No alpendre, acendo a candeia para que… se vieres, a saudade te veja chegar.

[Na era digital, também da fotografia, Ampliações são as minhas revelações de algumas sugestivas imagens de SONJA VALENTINA; são ampliações escritas, obviamente pessoais, dos pormenores com vida registados pela fotógrafa]

terça-feira, 12 de maio de 2009

MEMÓRIAS [máquina de escrever, fazenda murycana - paraty - brasil]


Naquele tempo não haviam outras memórias. Era em mim que escrevia tudo quanto precisava não esquecer, as memórias dos seus dias. Foi nas minhas teclas que descarregou todas as emoções. Eu… aprendi a senti-lo e a sentir-me. 

Não respeitava horários e forçava-me a não tê-los. Escrevia quando queria ou quando as palavras lho pediam. Não me respeitava o ritmo, nem sabia o que eram cadências de respiração. Conheci o seu âmago melhor do que ele próprio. 

Dias houveram em que se sentava, frente a mim, com uma formalidade pouco comum. Pensava durante o tempo necessário para se arrumar e escolhia-me as teclas com uma delicadeza de quem se dirige a uma qualquer individualidade com a obrigatoriedade de respeitar. Por força da rotina habituei-me a adivinhar as palavras que escreveria, como se obedecessem a uma regra, à qual teimava não fugir. 

Quando se fazia acompanhar dum copo… a escrita iria ser difícil. Ficava tempos infindos a olhar-me. Bebia. Não escolhia as teclas. Carregava ao acaso e voltava a beber. Sentia-lhe um deserto de ideias molhado no álcool que o fazia esquecer-se da sua própria secura de intenções. Para mim eram momentos de descanso, mas também de ansiedade. Na expectativa de que dissesse algo, sofrendo por lhe experimentar o vazio. 

Houveram também dias de tempestade em que a sua raiva me magoava. Escrevia a um ritmo animal, como se não pensasse e tivesse de descarregar rios de cólera. Chegava a carregar-me em duas ou três teclas em simultâneo. Escrevia. Arrancava-me as folhas que amachucava e rasgava. Penetrava-me com novas folhas brancas que enchia de novo de rasuras, correcções e muita dor. Deixava-me exausta e completamente desabitada. Sabia que descarregara as suas emoções, mas não perfumara as páginas escritas. 

Noutras alturas senti-me sua confidente. Olhava-me como se o fizesse para o interior dum coração. Passava, ternamente, os dedos ao longo das minhas teclas como se pedisse ajuda para começar. Cheguei a provar o sabor das suas lágrimas. Escrevia lentamente como se as palavras lhe pesassem ou lhe fosse difícil desprender-se delas. Como se as largar fosse uma necessidade mas, simultaneamente, uma dúvida sobre a utilidade de o fazer. Depois descansava o olhar sobre o que havia escrito e, presente, partia em viagens cujo destino só ele conheceria. 

Também existiu Verão no que escreveu em mim. Chegava desapertado com um sorriso rasgando-lhe o peito. Inventava, ironizava, ria. Atacava com malícia as teclas. Sabia por onde ia e com certeza de chegar. Havia calor nos seus dedos e tornava-me cúmplice das suas frases com ‘segundos sentidos’. Levantava-se, retirava de mim a folha, sorria uma vez mais, dava uns passos e voltava a olhar-me como se tentasse confirmar se o acompanhava no seu humor. 

Mas os dias de que guardo mais gratas lembranças são daqueles que escrevia em mim arrancando raízes do coração. Escrevia com a transparência, fluidez e lucidez do rio correndo no leito, com a certeza de chegar à foz. As palavras brotavam-lhe com a coordenação dum bando voando no céu azul. Os sentimentos nasciam-lhe com as tonalidades dum prado em plena Primavera. Transmitia o fulgor da luz varrendo a sombra. E, quase sempre, terminava com a eloquência dum pôr-do-sol colorindo o final de tarde e introduzindo o prólogo dum novo amanhã. Nesses dias, quando se levantava, parecia-me sentir um coração tal era o que ficava a ecoar em mim, enquanto ele se distanciava. 

Um dia fui substituída… como tudo na vida… como a noite substitui o dia, a escuridão a claridade, a alegria a tristeza, como a saciedade toma o lugar da sede, a lembrança o do esquecimento e até a morte o da vida. Desde então vou sendo deixada onde menos incomode. Cada vez mais distante das memórias. E faltam-me mãos para escrever as minhas próprias memórias.


[Na era digital, também da fotografia, Ampliações são as minhas revelações de algumas sugestivas imagens de SONJA VALENTINA; são ampliações escritas, obviamente pessoais, dos pormenores com vida registados pela fotógrafa]

domingo, 26 de abril de 2009

SUSPENSO [suspenso]


À distância de um olhar
contive a tradução do sentimento
gotas de verdade engolidas
na dúvida imperceptível do leitor
à distância de um abraço
retive a chama dum corpo
barco sequioso de fundear
num mar de galhos vivos
à distância de um beijo
embarguei a sede molhada
estuário dum desejo ardente
alagado em esperança adiada
à distância dum sim
evitei o não
calado na pergunta por fazer
tragado pela resposta não dada

e… ficou suspenso
à distância de um olhar
à distância de um abraço
à distância de um beijo
à distância de um sim


[Na era digital, também da fotografia, Ampliações são as minhas revelações de algumas sugestivas imagens de SONJA VALENTINA; são ampliações escritas, obviamente pessoais, dos pormenores com vida registados pela fotógrafa]


sábado, 18 de abril de 2009

ARE WE DANCERS? [... or are we dancers?]

Foto © Sonja Valentina

Suspensos nesta trave que nos suporta e é nossas pernas, nossos pés, somos ombros fictícios mas reais. Em nós repousarão, antes de entrarem em palco, as segundas peles que vestirão os protagonistas da noite. É a nós que confessam todo o nervoso, a ansiedade, as inseguranças, o desejo de que não haja falhas. Somos nós que as recebemos impecavelmente preparadas para vestirem os corpos, para os transformarem, para os auxiliarem a exceder-se e fazer sonhar todos os que sentados na plateia se iludirão com a magnificência desses corpos humanos mas irreais, capazes de fazer voar pensamentos, rodar vidas, inspirar desejos. É em nós que ganham ímpeto, procuram estímulo, erigem vigor. Chegam os corpos tiram-nas de cima de nós e colocam-nas em ombros de carne e osso. Durante minutos ficamos despidos. Limitados à nossa estrutura quase inexistente. Perdidos em corredores ou camarins. Atirados para cima de cadeiras, das bancadas, ou mesmo no chão. Longe da música, do palco, das luzes, das palmas. O silêncio faz-nos companhia e apenas ouvimos as conversas dos técnicos que aproveitam para se dirigir ao bar e beber mais uma cerveja, ou das zeladoras de guarda-roupa que consomem os minutos em conversas tantas vezes repetidas do quotidiano como sendo uma novela que se confunde com as novelas que querem modificar os quotidianos. Ao fundo ouvem-se aplausos, ouvem-se risos, em alguns dias lágrimas, vozes falando agora mais alto, e sobre nós começam a ser colocadas as mesmas peles, quantas vezes trocadas, porque nós não temos nome, agora mais pesadas, transpiradas, amarrotadas, mas com mais um espectáculo para contar. Agora não têm o aprumo anterior. São-nos depositadas umas por cima das outras. Temos de nos preparar para, por vezes, nos serem deixadas duas, três. Porque nenhuma nos pertence. A nenhuma pertencemos. E acabamos por ser mero local de repouso antes que nos voltem a retirá-las para as preparar para o próximo espectáculo, antes de lhes renovarem os vincos e o ar fresco de quem nunca foi ainda utilizado. E, nós, voltamos a ser ombros de metal, sozinhos, ignorados, menosprezados, eternamente sem resposta… are we human? or are we dancers? my sign is vital, my hands are cold…


[Na era digital, também da fotografia, Ampliações são as minhas revelações de algumas sugestivas imagens de SONJA VALENTINA; são ampliações escritas, obviamente pessoais, dos pormenores com vida registados pela fotógrafa]

quarta-feira, 15 de abril de 2009

ÚLTIMO COMBOIO [sem destino nenhum]


Ao final da tarde sentava-se na borda da plataforma inactiva e parecia ficar a olhar para o infinito… para o destino indefinido que os carris indicavam. Faria cálculos… contaria as travessas de madeira, multiplicá-las-ia pela distância que as separava e perspectivaria quantos quilómetros distariam do fim da linha… final inexistente? Imaginava estações intermediárias, destinos desconhecidos, caminhos para lado nenhum… inventados… imaginados… idealizados… locais onde se parasse para ficar… ou para conhecer e partir até ao próximo.

Ao final da tarde sentava-se na borda da plataforma inactiva e viajava. De permeio escrevia… anotaria rotas?... redigiria notas?... esperava… mergulhando num percurso só por si conhecido e, em segredo, transmitido ao caderno com capa de papel pardo que poisava sobre os joelhos como uma toalha onde se disporão os pratos com quem se repartirão momentos a recordar.

Ali ficava na beira da plataforma inactiva à espera do nada. Os comboios chegavam, pessoas saíam, entravam e os comboios partiam… aparentemente sem aguardar o que quer que fosse… permanecia à espera de… talvez que o tempo se dissolvesse…

A cada dia, quando o último comboio partia, olhava-o até que se perdesse no infinito, a caminho de destino nenhum… e só ao ter a certeza que já não pararia, que não regressaria, escrevia as últimas palavras… se levantava, fechava o caderno, tapava a caneta, guardava-os e caminhava de olhos no chão. Quem sabe se repetindo cálculos? Quem sabe se a tentar perceber a que distância estaria o comboio desse destino desconhecido?

Um dia chegou e não se sentou. Dirigiu-se à bilheteira e pediu uma viagem de ida, no último comboio, para destino nenhum… ouviu, como resposta, que essa não era nenhuma das estações do itinerário do último comboio. Pediu, então, um bilhete até ao local onde, todos os dias, o último comboio chegava e de onde, todos os dias, regressava. Sem identificarem a derradeira paragem, venderam-lhe uma ida. Pagou o bilhete e, nesse dia, caminhou até uma plataforma diferente, aquela onde eram deixados e recolhidos passageiros transportados pelo último comboio. Olhou para o funcionário que, com a bandeira vermelha nas mãos, dava o sinal de partida a cada comboio, andou até ele e disse-lhe: “Se algum dia o último comboio, depois de iniciar marcha se detiver e dele sair alguém que regresse aqui, por favor, entregue isto a esse alguém!”, e estendeu-lhe o caderno com capa de papel pardo. Boquiaberto, o homem pôs a bandeira vermelha debaixo do braço e pegou no caderno, sem tempo para pronunciar uma palavra… o último comboio acabara de chegar e só haveria tempo para ‘mudar’ de passageiros… trocou a bandeira pelo caderno e o caderno pela bandeira… uns instantes depois erguia o braço com a bandeira e quando o baixou nem olhou para o comboio, mas para o caderno que lhe havia sido entregue… tirando-o de debaixo do braço. Incrédulo parou no tempo e ao olhar para os carris já o comboio os abandonara com destino… voltou a olhar o caderno… abriu-o e viu textos, letras, citações, viagens, pensamentos, emoções, sentimentos, revelações e… a concluir cada um dos dias, sempre as mesmas palavras: “… antes de adormecer vou dizer baixinho: Boa-noite.....!”

[Na era digital, também da fotografia, Ampliações são as minhas revelações de algumas sugestivas imagens de SONJA VALENTINA; são ampliações escritas, obviamente pessoais, dos pormenores com vida registados pela fotógrafa]


domingo, 5 de abril de 2009

UMA PORTA ENTREABERTA [will you let me in?]

Foto © Sonja Valentina


Uma porta entreaberta… será convite? ou esquecimento?

Será convite? Se assim for haverão dois braços abertos na expectativa de se esmagarem num abraço, uma boca ardente de beijos, um corpo para se afogar em carícias, milhares de palavras que em silêncio falarão mais do que mil páginas dum livro… e um tempo eterno que mesmo depois de gasto perfumará com ternura a memória dum momento vivido em labaredas dum vulcão.

Será esquecimento? Se for essa a causa encontrarei outro corpo no lugar do meu, um abraço onde meus dois braços não cabem, uma boca já saciada de paixão, palavras soltas tentando justificar o que é evidente… e um tempo escasso que perdurará eternamente com sabor amargo da mentira mergulhada num lago gelado pela traição.

Não resisti… entrei e… deparei-me com quatro paredes vazias… um espaço oco… inócuo… despido… nu… sem imagens… sem palavras… sem memórias… sem tempo… sem corpos, desejos ou mentiras… um espaço desabitado… sem reflexo… sem luz… sem sol… e uma única frase repisando nos meus ouvidos: para quê as palavras se a casa está deserta?


[Na era digital, também da fotografia, Ampliações são as minhas revelações de algumas sugestivas imagens de SONJA VALENTINA
; são ampliações escritas, obviamente pessoais, dos pormenores com vida registados pela fotógrafa]

sexta-feira, 3 de abril de 2009

CONTA-ME UMA HISTÓRIA [de mãos dadas, choupal - coimbra]



- Pai, conta-me uma história!
- Aqui? Agora? Nem sequer trouxe um livro…
- Mas pai… apetece-me uma história!
- … uma história?... estamos a passear…
- Conta-me uma história… vá lá…
- Sabes que todas as noites te leio uma história, mas não tenho jeito para as contar sem livro…
- Inventa!
- Não sei inventar histórias…
- Então conta-me uma real!
- Uma história real? Sobre o quê?
- Tu é que sabes! Tu é que a viste… ou ouviste!
- Vamos ver… na margem dum rio havia um salgueiro cujas folhas caíam com muita facilidade. Era um salgueiro crescido. Houve uma altura em que essa árvore estava muito, muito triste e nas folhas que perdia estavam escritos os seus desgostos, as suas perguntas, as coisas que muito queria e outras com que sonhava. Na outra margem desse mesmo rio, mas muito longe dali, havia uma flor com pétalas amarelas, mas tantas, tantas, tantas que parecia um areal de pétalas tal era forma de se disporem umas agarradas às outras, umas sobre as outras. Esta flor gostava muito de estar virada para o sol… que a aquecia… que lhe dava luz… sabes como se chamava esta flor?
- … era amarela?... gostava do sol? … ternura do sol! Era?!...
- Não!… esta flor chamava-se girassol. Como te disse, o salgueiro perdia muitas folhas que caíam no rio… e levadas pela corrente navegavam à superfície das águas até se perderem… Um certo dia, a flor que estava na outra margem, viu uma dessas folhas e… pegou nela… olhou-a… e percebeu que a podia ler… a flor conseguia perceber o que a folha do salgueiro queria dizer. Depois de a ler uma, duas, três vezes… guardou a folha muito escondida e… ficou com atenção às águas do rio. Acabou por perceber que mais folhas vinham, como que perdidas, trazidas pela corrente. Foi pegando nelas, lendo-as e guardando-as. Começou a gostar tanto do que lia naquelas folhas que teve vontade de dizer qualquer coisa sobre elas. Arrancou uma pétala e pediu ao comandante do cardume de peixes, que todos os dias nadava contra a corrente do rio, que a levasse a um salgueiro que estaria na outra margem do rio com um aspecto muito sensível.
- O peixe lá levou a pétala, com muito cuidado, à procura dum salgueiro que tivesse um ar muito sensível… ‘Esta flor inventa com cada coisa!’, pensou o peixe; ‘não tivesse ela a luz que tem…’, continuou o peixe nos seus pensamentos, até que reparou num salgueiro com muitas folhas caídas à sua volta. ‘deve ser este!’, arriscou; ‘salgueiro, tens aqui uma pétala que mandaram para ti’. O salgueiro pegou na pétala, leu-a e ficou feliz por alguém lha ter oferecido. Depois desta primeira troca, as folhas do salgueiro continuaram a flutuar na corrente do rio e as pétalas da flor nadavam contra a corrente com o cardume de peixes. Foram tantas as folhas e pétalas trocadas que o salgueiro e a flor ficavam cada vez mais ansiosos pela chegada de novidades. Estavam muito longe um do outro, mas era como se sentissem muito perto. Em cada folha perdida, em cada pétala arrancada, foram percebendo que gostavam de tanta, mas tanta coisa em comum… que quase parecia não ser possível. O tempo voava e quase todo, aqueles dois seres consumiam-no a trocar folhas por pétalas, pétalas por folhas. Um dia, a flor teve uma vontade tão grande, tão grande de ver o salgueiro… que lhe mandou o seu olhar, nítido como um girassol O salgueiro, ao recebê-lo, nem quis acreditar, não poderia estar a acontecer… e na resposta mandou, à flor, o seu olhar.
- Mas… oh pai… as árvores não têm olhar!... nem as flores!
- Espera!... já vais perceber…
- A partir daquele dia, tanto o salgueiro quanto a flor conseguiram ver-se melhor, porque tinham o olhar um do outro.
- Mas, oh pai… explica-me lá essa ‘história’ do olhar que eu não estou a perceber nada… Ah e é verdade, não inventes porque eu pedi-te uma história real!
- Sim, eu sei. Nem o salgueiro, nem o girassol têm olhos… mas o olhar é uma capacidade que não se resume aos olhos… todos nós conseguimos também ver com a alma…
- Com quem? O que é que é isso? … é alguma lente para os óculos?...
- Nããão! A alma é uma coisa que anda dentro de cada um de nós e, de repente, sai de nós para ir ao encontro do outro, sem nos dizer nada, e só para tentar perceber o que o outro sente…
- … está bem… Continua lá…
- Passaram-se mais alguns dias até que decidiram que não deveriam mais trocar nem folhas, nem pétalas, pois qualquer dia, em plena Primavera, iriam ficar totalmente desnudados e… o Outono ainda estava muito longe. Como a distância entre as duas margens onde estavam era muito grande, decidiram-se pelo silêncio… e cada um guardar para si as folhas ou as pétalas de que mais gostavam. E prometeram-se guardá-las até… até sempre.
- …
- Gostaste?
- Já acabou?!... mas, oh pai esta história não pode ser real!
- Mas é verdadeira. Sabes? É que há histórias que mesmo que verdadeiras, são irreais e… se tentam dar o passo para o domínio do real, perdem toda a beleza que a verdade do irreal lhes concedeu…


[Na era digital, também da fotografia, Ampliações são as minhas revelações de algumas sugestivas imagens de SONJA VALENTINA; são ampliações escritas, obviamente pessoais, dos pormenores com vida registados pela fotógrafa]

quarta-feira, 25 de março de 2009

NUMA TARDE DE ESTIO [jeans]

Foto © Sonja Valentina


A temperatura do soalho harmonizava-se com o final de tarde de estio. Sentiu-o quando, inadvertidamente, descalçou um dos pés e o poisou no chão, enquanto esperava por ele. Na sua pele, o calor do sol reflectia mais um dia de praia, refrescado pelo aroma do creme e fragrância da colónia frutada que usava. À hora marcada, e como combinado, viera bater à sua porta para um primeiro jantar juntos. Convidara-a a entrar e justificara-se com um imponderável de última hora para a fazer aguardar mais uns minutos. A sua curiosidade feminina varreu, com perspicácia, as paredes da sala, as superfícies dos móveis, as prateleiras… ouviam-se melodias de bossa nova. Partira numa viagem relâmpago de suposições quando foi interrompida ‘desculpa fazer-te esperar…’ Aquela voz grave incomodava-a. Sempre se sentira transtornada com aquela tonalidade que parecia trazer pele interior arrancada a cada palavra. ‘Não tem mal…’ respondeu meio atordoada como se a tivessem acabado de acordar, no alvorar duma madrugada. Imperceptivelmente inspirou a olência da colónia que ele usava e impregnava o ambiente. Cambaleou interiormente. ‘Vamos?’; ‘Claro!’, respondeu-lhe. ‘Não vais descalça, pois não?’ Imbuída duma ebriedade que não estava a conseguir controlar, respondeu ruborizando um pouco: ‘Obrigado!...’ Calçou-se e avançou para a porta. Colocou a mão sobre a chave colocada na fechadura e tentou rodá-la… cavalheirescamente quis ser ele a abrir e a mão dele tocou na pele da mão dela… sentiu-se estremecer e as pernas simularam um desfalecimento. Olhou para trás e encontrou o olhar dele. Os lábios dele esboçaram um sorriso enquanto o olhar interrogava-a com a incerteza das estrelas. Tentou… mas não conseguiu desprender o olhar do dele… eram algemas de desejo que os uniam. Rodou a mão e, palma com palma, deixou seus dedos abraçarem a mão dele. Numa pergunta calada disse-lhe um rio de segredos guardados, de fragilidades, de receios… ele entendeu-os como destinos das suas dúvidas. Colocou-lhe a outra mão à volta da cintura e não precisou puxá-la, pois o corpo dela já se imanizara no seu. Os olhares de ambos cegavam-se mutuamente… e os lábios colaram-se numa ternura sôfrega, louca, sem tempo. Os braços enlaçaram os corpos e o desejo abrandeceu qualquer resistência. Suspiros sem ar, misturavam-se com mãos insurrectas em busca de espaços ignotos, ilusões envolvidas em abraços, tacteando desenhos de carícias e novos risos, desassossegados os troncos despiam-se de culpas, os olhos fechados escondiam pensamentos ausentes… e só os corpos sentiram prazer. Desfolhadas as roupas, as bocas passearam pelas peles deixando rastos de perfumes, tatuagens de sentimentos. Gritaram em surdina o nome do outro e o desejo tornou-se efectivo. … e depois do acto, enquanto prazeres mudos calavam as bocas, sobre o soalho tépido da sala repousavam os despojos daquele final de tarde de estio.
[Na era digital, também da fotografia, Ampliações são as minhas revelações de algumas sugestivas imagens de SONJA VALENTINA; são ampliações escritas, obviamente pessoais, dos pormenores com vida registados pela fotógrafa]

segunda-feira, 23 de março de 2009

TRILHOS [trilho(s)]

Foto © Sonja Valentina


Madeiras desfeitas
pisadas por nossos passos
Dias sem glória
Memórias sem laços
Caminhos percorridos
Ligações perdidas
Silêncios eternos
Palavras indevidas
Trilhos anónimos
Transeuntes ausentes
Invernos de dor
Amores doentes
Segredos desfeitos
Vazios descuidados
Promessas incumpridas
Pactos desprezados
Tábuas molhadas
pela embriaguez da manhã
sequiosas de novos passos
numa espera quantas vezes vã?



[Na era digital, também da fotografia, Ampliações são as minhas revelações de algumas sugestivas imagens de SONJA VALENTINA; são ampliações escritas, obviamente pessoais, dos pormenores com vida registados pela fotógrafa] 

terça-feira, 17 de março de 2009

PARA LÁ DAQUELE PORTÃO [portão - vila viçosa]


Para lá daquele portão, em tempos, existiu uma quinta onde havia uma casa. E como em todas as quintas onde existe uma casa, haviam pessoas. Enquanto pessoas viveram nessa quinta onde havia uma casa, houve história. Depois que a casa e a quinta foram abandonadas, a história transformou-se em memória. Contam as memórias dessa história que nessa casa, daquela quinta que existiu para além do portão, houve uma família com muitas gerações. De geração em geração a quinta e casa foram sendo herdadas, sem testamentos, apenas com a vontade de preservar o que era a história dessa tal família, os seus segredos e desventuras. Numa dessas gerações houve um homem que sonhou uma utopia: por cada paixão que vivesse, plantar uma árvore de corações. Ao longo da sua vida, que nem a memória, nem a história, sabem especificar quantos anos foram, esse homem plantou um pomar com árvores de corações. Com a chegada de cada Primavera percorria vagarosamente o pomar, observava com minúcia cada árvore, acreditando que iria encontrar uma que desse o primeiro coração. As Primaveras sucederam-se… os Invernos tornaram-se, a pouco e pouco, mais rigorosos e o peso do tempo começou a curvar o agricultor de corações. Um dia, descrente quanto à fertilidade daquelas árvores, chamou o único neto e contou-lhe o seu segredo. Instruiu-o quanto ao tratamento a dar ao pomar e, como única herança, deixou-lhe o sonho de utopia. Passado algumas semanas o homem faleceu. No exterior, um vento forte varreu a quinta… o rapaz, cumprindo as indicações do avô, correu para junto das árvores e verificou-as uma a uma. Junto duma delas, caída junto à raiz, uma das suas folhas tinha as seguintes palavras sulcadas: ‘Há passos que não se recuam. Os teus guardei-os no meu coração!...’

Para lá daquele portão, em tempos, existiu uma quinta onde havia uma casa. Ou terá sido para cá do portão? Onde agora cresceram ervas daninhas… e para lá do portão seja o futuro?


[Na era digital, também da fotografia, Ampliações são as minhas revelações de algumas sugestivas imagens de SONJA VALENTINA; são ampliações escritas, obviamente pessoais, dos pormenores com vida registados pela fotógrafa]