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sábado, 16 de janeiro de 2010

NO SILÊNCIO DO MUNDO

© cm


No silêncio do mundo
sussurra um eco de sonoridades
fugitivas duma partitura
de que a natureza guarda
o segredo da composição.


Abre-se o infinito do céu

sobre um espelho tranquilo
onde a natureza mergulha
na segurança de permanecer
à superfície das águas.

Descobre-se nas margens dum olhar
a fronteira que delimita a felicidade.
Caminham-se passos novos
nas memórias desejosas de reviver.

Abrem-se na claridade dum novo dia
sonhos arremessados que não submergem,
atraídos pelo sabor dum abraço,
preso ao coro dos sentires
que se dissolve no espelho do mundo.


sábado, 2 de janeiro de 2010

DEIXA-ME...


Deixa-me adivinhar,
deixa-me fantasiar!
Deixa-me voar no teu sonho,
deixa-me sonhar nas tuas asas!
Deixa-me cruzar o céu da ilusão,
deixa-me acreditar que sou o teu destino!
Deixa-me planar sobre o mar,
deixa-me sentir nas ondas os teus abraços!
Deixa-me ser o vento que te canta,
deixa-me despentear-te os pensamentos!
Deixa-me desarrumar-te as horas,
deixa-me olhar-te o tempo!
Deixa-me sossegar no teu sono,
deixa-me acordar no teu regaço!
Vá lá… não digas nada,
mas deixa que leia as tuas palavras, como minhas!


quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

NO PARAPEITO DO TEU OLHAR

Foto de dusan

No teu olhar abres uma janela por onde me pedes para espreitar o mar. Abre-se em toda a sua imensidão numa onda transbordante de querer, saída do teu peito. Olho-o e sinto-lhe as tuas pulsações, em cada vaga que se desenha sob o céu de tempestade que arrasta fogo de emoções, pelas avenidas onde as estrelas se intimidam em brilhar. O horizonte desenha-se à distância dum sonho. Não sei se o agarro pela latitude do oceano, se pela longitude do teu olhar. Funde-se na minha pele o abraço indizível em que a ternura dos corpos adocica o sal espalhado pela espuma no areal das margens. Corre-me nas mãos o curso das marés onde fundeias teus dedos ao largo da paixão. Suspiro. Espreito o amanhã. E no parapeito do teu olhar jaz intacta a tentação de nos deixarmos abraçar pelo escuro iluminado de águas por navegar.


terça-feira, 8 de dezembro de 2009

A TUA VOZ

Foto de Barbara


A tua voz
é uma porta que se abre para amanhã
quando na ombreira,
a ontem
me prendo.


quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

DE SEGREDO EM SEGREDO

Foto de Justin Hofman


De segredo em segredo
levas-me pela mão
até ao cabo da memória,
onde os pensamentos
se esqueceram de lembrar.

Ali, naquele extremo
onde a terra desistiu
de invadir o mar,
e as tuas recordações
são vagas
rebentando na areia
que abres ao meu olhar.

Nem sempre a vida
tem a persistência do oceano,
e as ondas cansam-se
de rebentar na praia
desistente de olhar o mar.

É difícil voltar ao pélago
em demanda duma ilha
perdida na imensidão
sob um céu de nuvens.

Paro!
… entre o caminho errante
e a descoberta dos rumos.

Olho-te!
… nesse espelho de água
estilhaçado no voo das gaivotas.

Mergulho!
… num abraço de maresia
suplicando que o transborde.

Sou istmo deste querer
que os corpos ainda separam
mas os corações desejam.


sexta-feira, 27 de novembro de 2009

CONTEMPLAÇÃO

Foto de Gwenn


No limite do horizonte,
onde a tua contemplação
se fundia em assombro,
o rebentar de cada vaga.

Na altivez da sua crista
nasciam em espuma
gomos duma tarde
banhada de felicidade.

Descobri no teu olhar
o voo dos peixes,
asas em cardume
num céu de água.

No furor do mar
descobri a serenidade
que acalma a corrente
do contínuo ribombar.

Quando o sol derreteu na água
inundaram-na estrelas
de origens indefinidas;
caminharam-nos passos
numa navegação
ao encontro da lua.


sábado, 31 de outubro de 2009

NUS LIVROS


Quantos segredos se escondem
por detrás das palavras que se expõem?
Quantos sonhos se revelam
por entre vocábulos que se mascaram?
Quantos termos se perdem
por entre linhas que fogem?
Quantas páginas se escrevem
por entre gritos que se arrepiam?
Quantos voos se traçam
por entre céus que se desenham?
Quantas portas se abrem
por entre versos que se encadeiam?
Quantas origens se descobrem
por entre desejos que se alcançam?
Quantos sentimentos se iludem
por entre significados que se decifram?
Quantos suspiros se ouvem
por entre a nudez que se escreve?

sábado, 24 de outubro de 2009

REDES DE OUTONO


Um bando de gaivotas
transportava pensamentos,
mortalhas da madrugada
consumidas no repouso.
Soprava um vento frio
num suspiro inexplicável,
descoberta de sentidos
aberta pelas palavras.
No mar coberto de névoa
voltavam barcas esquecidas,
remos de braços despidos
ansiosos por atracar.
Por uma janela aberta
entravam segredos despertos,
esconderijos roubados
aos artifícios do coração.
Nas asas do alvorecer
sobrevoei ilhas distantes,
calado roubei sonhos
às mãos dos poetas.
Da areia adormecida
fiz meu leito sem prazo
senti o cheiro do desejo
em cardumes de olhares.
O Outono colorira as redes
dulcificara lágrimas libertas
soltara sorrisos alados
ao assalto dos corações.

domingo, 4 de outubro de 2009

EM JEITO DE DECLARAÇÃO

Foto de Maciej Koniuszy



Não faças da minha vida a tua!

Nem deixes que da tua faça a minha!

Mas...
e que tal se fizéssemos da tua e da minha,
pedaços da nossa vida?

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

ESCREVE-ME


Escreve-me!
há tanto que não o fazes.
Sinto falta
daquelas longas páginas
com olhares da tua alma.
Escreve-me!
aqueles pedaços de ti
por onde passava meus dedos
na espera de guardar
a morfologia da tua pele.
Escreve-me!
aquelas missivas inadiáveis
que penetravam em meu coração
qual míssil de longo alcance
explodindo no deserto
onde agora secam meus desejos.
Escreve-me!
aquelas palavras soltas,
pequenas gotas de cristal
caindo no vidro do meu olhar,
fertilizando vales de esperança
cada vez mais distantes.
Escreve-me!
ou…
se não quiseres,
se não te sentes capaz,
se as palavras já não te expressarem,
dobra em três uma folha branca,
fecha-a num envelope
e envia-ma…
pelo menos saberei
que te lembraste de mim.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

VISÃO NEBULOSA

Foto de Enzo Penna


Para além da neblina há um dia de sol. Ainda que haja uma manhã de chuva por atravessar, para além das nuvens há sol. Para além da névoa da fumaça há um fogo vivo que arde. Para além da poeira há a limpidez do que é definido e preciso.

Na ânsia de te encontrar, desenho-te. Procuro-te entre o nevoeiro, na esperança de te ver brilhar no céu azul. Afasto as nuvens em busca dum caminho cristalino e, porventura, esqueço os esconderijos da bruma.

Por entre a neblina ouço o coração bater. Esqueço poder ser o meu, obcecado na vontade de que seja o teu apelo. Por entre o fumo ouço o meu nome. Julgo seres tu a chamar-me, não identificando a voz da minha consciência reclamando moderação. No meio da poeira pairam palavras que creio serem tuas e que ordeno na composição da minha partitura.

Embaciam-se-me os olhos neste querer sem destino. Turvo a procura no desconhecido guiado pela imaginação. Desfoco a realidade no vapor que encobre o vidro. E como não te desvendo, invento-te... forma sem contorno, esboço sem forma, imagem sem corpo... talvez amanhã esfregue os olhos, arrefeça esta temperatura da ansiedade e se dissipe esta névoa que te simula de sorriso na boca, à minha espera... quando o nevoeiro levantar.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

O REGRESSO ÀS PALAVRAS


Todas as manhãs voltava àquela carta. Refugiava-se no sótão apenas protegido pelas telhas da intimidade. Sentada via aquelas palavras como se fossem, todos os dias, as primeiras. Agulhas de luz penetravam os passos isolados por que optara, mas aquelas linhas eram a mão porque ansiava, os dedos que queria entrelaçar nos seus.

Isolava-se do mundo e percorria palavras que a levavam por aromas de especiarias. Involuntários raptos por arrebatadores campos de paladares há muito guardados.

Através de parágrafos sonhados sentia aqueles vocábulos, expressamente escritos para si, tocarem-lhe a pele. O incenso invadindo as narinas inebriando-lhe os sentidos em essências exóticas exuberantes.

Prosseguia na redescoberta de se descobrir em cada sentido encapuçado, em cada frase encobrindo verdades disfarçadas, desejos que procuravam se revelar. E sentia-se coberta por tecidos de seda, mil cores aquecendo paisagens, paletas de sonhos à espera de pincel para correrem folhas, telas ou o seu corpo que requeria uma imersão de tons de Verão.

Lia. E a cada recomeço sentia-se fruto ansiado por ser tocado, saboreado, apreciado. … alperce, uva, kiwi… a pele num arrepio, o sumo que escorre na tez peganhenta…

Todas as manhãs regressava àquela carta, como se outras não houvesse. Porque aquela era a única que a fazia sentir-se singular. Ali naquele sótão coberto por telhas de cumplicidades sentava-se num voo de regresso à terra mãe, de que bebia o cheiro, engolia descrições, tacteava palavras que já sabia de cor e se esforçava por esquecer, para as olhar como se em cada dia nunca as tivesse lido.

sábado, 12 de setembro de 2009

LER-ME

Foto de Vernon Trent


Perdi-me entre searas de palavras. Espalhei-me em espigas de emoções deixando o sol tocar-me a pele. Sorri humedecida pela ternura da esperança em encontrar o meu trevo. Cresciam os troncos que uma brisa de desejo afastava para eu andar. Alucinei-me no meu pólen de papoila e deitei-me nos rios deslumbrados de estrelas estendidos a meus pés. No céu da noite brilhava o dia e eu era capaz de caminhar nele em posição invertida relativamente ao solo. Descia num chapéu que as aves me abriam quando a minha voz entoava um cântico feminino de vida. De mão dada aos dias, abraçava as noites. O meu sono eram ventos quentes nascidos na raiz do sonho. Corria sem chegar. Mas não me cansava. E chegava antes de lá estar. Antecipadamente na certeza de te ter como destino. E nas tuas palavras descobria o olhar onde mergulhava na cegueira do querer.

Um dia sentei-me e comecei a ler-me esta história. Pedaços de mim escritos no papel. Pedaços dum conto arrancados à minha carne. E parei. Quer eu, quer a minha ouvinte já conhecíamos o argumento. Mais não era do que memórias da pele. Hoje sento-me em frente a mim mesma e recordo este desejo engolido em pequenos tragos. À espera dum novo Estio que antecipe a Primavera onde irei encontrar esse corpo que farei meu. Onde me aprisionarei em abraços, onde me saciarei de beijos e em que adormecerei escrevendo uma seara de palavras que um dia mais tarde me lerei.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

CHEGOU...

Foto de Ursula I Abresch


Chegou com o sorriso de quem regressa,
nada trazia nas mãos,
não consegui ver-lhe o olhar.
Chegou sem se fazer esperar
pois nunca se anuncia,
chega sem nada oferecer.
Decidida a não se dar
traz consigo o sol
embalado numa onda de mar.
Chega como se por aqui já andasse,
como se nunca tivesse partido,
como se sempre em mim ficasse.
Quando chega abre no meu peito um filamento
esventra-me a muralha da tristeza,
aparta as nuvens da saudade
e, sem que saiba, desabotoa-me o peito,
rasga-me a pele, afasta a carne,
e planta a Primavera num chão de sabores,
esplanada de mil sons que não canta
mas oiço, sinto, invento e
vivo!

domingo, 28 de junho de 2009

RESGATA DE MIM O OLHAR

Foto recolhida aqui


Resgata de mim o olhar
que um dia deixaste no meu
a retinir
como o gotejar duma fonte
que não se deixa secar

Resgata de mim esse olhar
que em mim deixaste a sonhar
brilhante
como o sorriso duma labareda
que não se deixa molhar

Resgata de mim o olhar
que um dia me ofereceste
de surpresa
como a paixão dum poema
que não se deixa silenciar

Resgata de mim aquele olhar
que em mim um dia ateaste
sem anunciar
como os bagos dum areal
que não se deixam abraçar

Resgata de mim o teu olhar
e devolve-mo no infinito do horizonte,
num convite sem palavras, olha-me,
pede-me para entrar nele em segredo
como o céu se atraca no mar
como a chuva penetra na sede
e deixa-me perder nele
para que eu não me resgate
nunca
do teu olhar.

sábado, 20 de junho de 2009

POR UM INSTANTE

Foto de Philip Perold


Se tu fosses o meu olhar
por um instante
no momento em que me ajoelho
frente ao mar
não para orar
mas para observar
a partida das ondas em cada regresso
a certeza da dúvida a cada chegada
Se tu fosses o meu olhar
por um instante
quando prolongo o meu pensamento
até ao horizonte no infinito alcançável
dum desejo na distância indefinida de contemplar
Se tu fosses o meu olhar
por um instante
na precisão das palavras que escrevo
semeadas na pele da emoção
vindimadas em bagos de ternura
Se tu fosses o meu olhar
por um instante
sempre que é meu desejo te ver
nada percepcionarias adiante
pois seria a tua própria imagem
que tentarias obter.

domingo, 14 de junho de 2009

FINAL

Foto de Marius Olsen


Parou o carro. Desligou a ignição e estagnou naquele desconforto renovado de ter de entrar em casa. Ao longo do dia convencia-se de que seria hoje o dia diferente. Estimulava-se a si próprio querendo acreditar que seria hoje o dia em que a normalidade regressaria. E quase acreditava. Mas quando se aprestava para subir e passar a porta, sabia que a casa ainda estaria vazia e o regresso dela só aconteceria mais tarde. Todos os dias mais tarde. Cada dia mais tarde.

Sentado ao volante abriu as páginas do livro em que era protagonista. Tão longe estavam os dias das não dúvidas, em que tudo pareciam certezas eternas de tão seguras e inquestionáveis se mostravam. Aqueles dias em que um momento sem estarem juntos, ou em comunicação, doía no peito como se pequenas partículas lhe fossem arrancadas. Doía tanto quanto a indiferença do presente. Onde estavam os momentos em que o futuro se revelava só deles? Sem a mais ínfima possibilidade de assim não ser. E os projectos nasciam de sonhos sem que houvesse um pormenor que não fosse necessariamente decidido pelos dois. Onde estava o tempo em que ninguém mais no mundo existia para ela, do que ele, e ele para ela? Quão longe estava o tempo em que um simples olhar era suficiente para perceber que eram únicos um para o outro. O tempo em que se fechavam para o mundo, dentro do universo inviolável que era só deles.

Imperceptivelmente as certezas desvaneceram-se, os segredos deixaram de ser necessários, o mundo alargou-se, assim como os olhares. Os sonhos deixaram de ser desejos para se tornarem objectivos. A presença do outro deixou de ser uma necessidade para se tornar um conforto. O futuro continuou a ser a dois mas em passos dados lado a lado e não como se fossem únicos. O universo que havia sido só deles abriu janelas.

Descuidadamente os segredos passaram a ser necessários. As dúvidas tomaram o lugar das certezas. Os olhares deixaram de parar onde antes fora impensável não estarem. Outros objectivos tomaram conta dos desejos e dos sonhos. A partilha de espaço comum passou a ser uma obrigação. O futuro começou a querer dizer tudo menos continuação. O universo que fora deles desapareceu engolido pelo mundo.

Hoje pouco ou nada restava dessa força que os fizera sentir inseparáveis. Hoje não existia nós. Hoje havia um final de história impossível de voltar a ler, de recuperar o meio, muito menos o início.

Abriu a porta, pegou no casaco, saiu. Enquanto a porta se fechava deu os primeiros passos em direcção a casa. Activou o fecho centralizado das portas e concluiu que tinha terminado o prazo de validade do seu casamento.


Há uns dias atrás, no meio dum comentário deixado pela Luísa a um dos meus posts, encontrei umas palavras que me sugeriram aproveitá-las para escrever este texto hoje publicado.


segunda-feira, 1 de junho de 2009

PALAVRAS COREOGRAFADAS

Foto de King Douglas


Rodopias sobre ti mesma num falso tempo de valsa. A mão direita ergue-se acima da cabeça num sinal que tanto poderá ser de chamamento como de adeus, ou ainda o de alguém que se afundando tenta deixar uma marca fora de água. A mão e antebraço esquerdo seguram o decote solto que te tapa o busto.

A primeira impressão de que o inesperado havia provocado a situação, subitamente se desvanece quando as espirais se reproduzem e os braços vão trocando de funções. Torna-se perceptível a intenção de jogar.

Os movimentos desmultiplicam-se. O braço solto passa a ser usado, também, como suporte dum corpo que depois de se erguer, se liberta, antes de voltar ao chão. Deitada e de costas tens dois braços que nada seguram. E eu segredo-te ‘Deixa-o cair…’

É de costas que deixas o vestido cair. As costas nuas ficam viradas para mim. Entro no teu jogo de provocação pudica de sedução e pergunto baixinho: ‘Porque não te viras?’

Sem que me oiças fazes-me a vontade. Não sei se é o teu olhar que conhece as minhas fraquezas, se é o desejo que percorre trilhos diversos mas convergentes.

De frente para mim, a mão tapa-te um seio enquanto o antebraço oculta o outro. O braço livre continua, em permanente troca com o que te protege, a movimentar-te, a apoiar-te, a sussurrar-te, a esconder-te, a gritar-te, a tocar-te.

Por entre tanto movimento, entre tantas palavras não faladas, entre tantas imagens retidas, apagadas, refeitas, transformadas, revelo-te baixinho. ‘Se as tuas mãos fossem as minhas…’

O teu braço esquerdo estende-se no chão enquanto prolongamento do corpo deitado. Estás de costas para mim. É no braço que te apoias para reerguer. A tua mão direita tapa-te o seio oposto quando te voltas de frente. O braço esquerdo cai-te ao longo do tronco. Lentamente o cotovelo direito desce revelando o peito do mesmo lado. Deixas cair a mão direita. E de olhos fixos nos teus pergunto-te: ‘Porque o fizeste?...’

terça-feira, 26 de maio de 2009

RUMO A...

Foto de Renato Corradi

Se eu soubesse que no oceano há uma ilha deserta, ou abandonada, onde fosse possível deitar, no areal, o meu corpo ávido de calor. Se nessa ilha nascesse um ribeiro onde pudesse saciar minha sede de ternura. Se nela se plantassem árvores que dessem como fruto palavras de paixão, e delas rompessem ramos que me abraçassem. Se nessa ilha houvesse um lago onde mergulhasse meus desejos. Se nela existissem videiras de onde se extraísse um licor que me inebriasse o coração. Se no céu que a envolve brilhassem estrelas que em forma de olhar me sorrissem. Se eu soubesse que anseias pela minha chegada… seria caravela de panos desfraldados ao vento, navegando rumo a… uma ilha.

terça-feira, 19 de maio de 2009

ABRO-TE AS MINHAS MÃOS

Foto de Ralf Stelander


Abro-te
as minhas mãos
para que leias
as linhas de sal
sulcadas
pela serenidade
da admiração

Abro-te
as minhas mãos
para que ouças
as melodias do sul
salgadas
pela inquietação
da espera

Jogo com as palavras
que não julgo
por ter julgado
que as palavras jogavam
e não jogo nem julgo
as palavras
que se abrem
em cada linha
em cada melodia

Abro-te
as minhas mãos
para que vejas
os sulcos de palavras
jogadas
sem regras
na contenção da emoção