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terça-feira, 15 de setembro de 2009

CARTA EM SILÊNCIO

Foto de Schnette


Pediste-me, um dia, que repousasse as memórias. Antes quisesses que tapasse o sol. Antes me pedisses para secar o mar ou que abraçasse a lua. Tentei… mas sabia da fragilidade da minha aptidão. O rio corria demasiado forte para serenar, as pontes atravessavam-se no seu curso sem desejarem deixar de serem cruzadas. E as memórias não se calaram.

Sempre que a comporta se abria, as águas voltavam a correr com a impetuosidade de quem não pensa e se expande na necessidade de dizer.

Só quando implantaste o silêncio as memórias se contiveram. Não que se tenham calado ou adormecido. Arrumaram-se num estado de hipnose consciente. Cingindo-se ao estado de viverem sem se sentirem desejadas.

O silêncio assumiu a postura de pontuação final. Algumas vezes de questionamento. O silêncio passou a ser a barreira não transponível. A fronteira não ultrapassável. A montanha que desejava, mas não me permitia escalar. Por respeito. Talvez por receio de não te conseguir espreitar quando atingisse o cume.

Quando ousas quebrar esse silêncio sinto-me capaz de atravessar o oceano, esquecer o frio que nos separa e caminhar num voo rasante sobre todas as memórias que um dia me pediste que fizesse repousar. Mas essas memórias demoram há muito um instante em que se querem rever. Cada palavra tua torna-se um travessão a oferecer-lhes o discurso directo. E elas não ponderam. Irrompem pelos caminhos de silêncio e mostram-se. Mas… de novo surge um ponto que as detém.

Cansadas de não viver, as memórias pediram-me que as fechasse num envelope. Ficarão na esperança de que as tuas palavras as venham buscar. Não porque se ofertam, mas apenas porque as desejas rever e dar-lhes vida.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

RUI, HOJE!

Foto de U. Midtgaard

Caro Rui,

Deverá existir 0,099% de possibilidade de que algum dia leias estas linhas. Não faz mal! Escrevo-as mais por mim. E se for importante que tu saibas delas, acredito que algo te o proporcionará.

Inspirado num dos excertos das tuas peças, que só agora conheci apesar de já ter mais de 10 anos, escrevi um outro texto que talvez por aqui deixe qualquer dia. Ao escrevê-lo regressei atrás no tempo. E lembrei muita coisa. Tanta coisa. Foi como reviver o escrever dos textos de imprensa sobre os teus primeiros trabalhos, no teu regresso a Portugal. Voltei ao passado ao relembrar quando te os mostrei, quando discutimos a minha visão sobre as tuas criações e, depois, foi um correr de memórias. O teu receio de que os títulos que escolhias, principalmente o da Cartografia... pudesse ser considerado muito pretensioso. Lembrei e voltei a sentir o meu orgulho na partilha do êxito do teu regresso ao nosso País. Como o ‘mal-amado’ reentrava com o reconhecimento granjeado no estrangeiro por uma porta grande, muito grande. E lembrei algo do que, na altura, não pude evitar escrever-te pelo privilégio que senti de estar envolvido na ‘máquina’ que te trouxe, que te acolheu. E lembrei os arrepios e o apertar de garganta sentidos quando o GA te aplaudiu. E lembrei como fui surpreendido pelo acolhimento das tuas obras quando as apresentámos na Alemanha.

E foi hoje que escrevei esse tal texto e as memórias correram. E foi hoje que te encontrei na rua. Há coincidências inexplicáveis… e foi hoje que conversámos brevemente sobre as mudanças de rota a que a vida nos obriga. A que tu já passaste. A que eu estou a atravessar. E foi hoje que me deste força pela tua experiência recente. E com o teu charme característico me disseste que confiasse, que daqui a pouco tempo já conseguiria ver este momento como ultrapassado. E…

E hoje à noite, no teu rosto, revi o orgulho e a satisfação. Os ‘miúdos’ portaram-se mesmo bem! E eu nem ouvi o que depois lhes disseste. Não preciso de saber! Tu quando falas… sabes como cativar. E eles estavam no céu por te interpretar. E, seguramente, tu terás sido capaz de lhes dizer: ‘Obrigado! Sinto-me orgulhoso do trabalho que fizeram.’ Com lágrimas nos olhos, se preciso. E eles… se estavam no céu, terão subido para lá dele. E eles que estão a finalizar a sua formação, irão recordar para sempre as palavras do ‘Deus’, as tuas palavras. Mas eu não precisei de ouvir essas palavras que nem sei se terão sido essas. Não precisei pois li no teu rosto, enquanto a peça decorria, o orgulho verdadeiro que corria dentro de ti.

Perdoa-me estas palavras sentimentalonas. Mas são as que sinto como verdadeiras. Hoje! Hoje, neste dia em que me disseste que eu talvez te considerasse romântico por me revelares algo em que acreditaste... Se acreditar com o coração é ser romântico… TU ÉS ROMÂNTICO! Mas é tão bom acreditar com o coração… o pior é que a vida prega-nos partidas.

Um abraço.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

A CARTA QUE NUNCA LI

Foto de Rhana Griffin

Meu amor,

Como queres que escolha uma se me ofereces todas? Foi com a combinação dos seus perfumes e a harmonia das suas cores que me presenteaste. O aroma de cada uma é único, mas deste-me a conhecer o de todas. É singular a tonalidade de cada uma, mas foi a paleta de todas que me proporcionaste. Seria como se me tivesses oferecido um bosque e me pedisses para escolher uma árvore. Como se me oferecesses o céu e me dissesses para escolher uma estrela. Como se me oferecesses o mar e me rogasses que escolhesse uma onda. Como se me pedisses para escolher uma mão, quando é com as duas que me seguras o rosto. Como se tivesse de preferir um braço, quando é com os dois que me abraças. Como se tivesse de escolher um olho, quando é com os dois que me derretes. Como se me oferecesses um dia, e eu tivesse de eleger a manhã, a tarde, a noite, a madrugada… Como se me oferecesses uma planície e eu decidisse qual a estação para nela viver. Como se me oferecesses um poema e eu seleccionasse um verso. Como posso eu escolher? Tivesses sido tu a escolher a que preferias me oferecer…. Como posso eu escolher um sentimento se és o todo que te me ofereces?

domingo, 3 de maio de 2009

CARTA A UM EXTRATERRESTRE

Foto de Amanda Chapman


Querido extraterrestre, 

Sabes que aqui na Terra, o homem desenvolveu muitas formas de observar, de viajar, de contactar com outros astros. Sempre em busca de diferentes formas de vida, descobrindo novos planetas, novas formas de comunicar. Não há muito tempo o homem sonhava chegar ao planeta mais próximo, a Lua. Hoje, sonda noutros mais distantes numa infatigável vontade de saber mais, porventura de se mostrar também a outras ‘gentes’. Foi, por isso, mais fácil, agora, chegar ao teu planeta. Quando eu era criança teria sido impossível perceber se no teu, ou noutro planeta também se ouvia música, se também se viam filmes, se se tirariam fotografias, se se teriam amigos, se existiria a noite e o dia, o dormir e o acordar, se existiria a tristeza, a alegria, a dor, o riso, o sofrimento, o prazer, o amor, a esperança, o desencanto… seria impensável confirmar se aí haveria saudade. 

Há muito, muito tempo o homem levava demasiado tempo para chegar ao outro lado do planeta. Tempo houve em que o homem nem sequer sabia que existia um outro lado do seu próprio planeta. Com o tempo o homem foi aperfeiçoando as suas descobertas e as suas técnicas e hoje as distâncias encurtaram. Nesse tempo tão longínquo o homem deixava a amizade amarrada na alma de outro homem a muitos quilómetros de distância e confiava que ela lá ficasse plantada, viva. E só quando os olhos de ambos se cruzassem, confirmavam a verdade da sua crença. Hoje é mais fácil o homem deixar uma semente de amor no outro lado do mundo e tentar adivinhar quando ele desabrocha, ou não. Obviamente com as certezas e dúvidas que os sentimentos desencadeiam. 

Sabes que aqui na Terra, foram muitos os homens que disseram ter visto extraterrestres. Sabes que aqui na Terra, foram muitos mais os homens que não acreditaram nesses seres irmãos e tudo fizeram para os desmentir, para os criticar, até mesmo para os condenar. E tem sido muito difícil provar se algum terrestre, na realidade, viu ou não um extraterrestre. Por isso, faz todo sentido a dúvida que levanto a mim próprio sobre a veracidade, ou não, de ter comunicado com um extraterrestre. Como tu! Sabes que há pormenores que de tão reais não parecem ter sido possíveis de experimentar com um extraterrestre. Outros há de tão difícil crença que só são passíveis provirem de um planeta que não este a que chamamos Terra. 

E se eu arriscasse dizer a alguém que comuniquei contigo… não sei o que aconteceria. Talvez me mandassem prender. Não acreditariam. E ir-me-iam fazer imensas perguntas para as quais nem sempre obteriam resposta. Perguntar-me-iam se o extraterrestre falava. E eu responderia que sim. Percebeste-o? E eu responderia que muitas vezes sim, noutras nem por isso, mas que talvez acontecesse o mesmo na comunicação inversa. O extraterrestre olha? E eu responderia que sim. Que tem um olhar muito particular. E sente? Mais uma vez responderia que acho que sim. Caso contrário não diria as coisas que soube dizeres. E tem mãos? E aqui já não poderia ser tão seguro. Talvez… nunca as vi. Como há muitas coisas que não sei. Como mede o seu tempo. Onde fica o seu planeta. Quantos dias tem o seu ano. E muitas, muitas outras coisas. Mas porque não sabes? Não sei… 

Mas, na verdade, sei! Sei que muitas foram as perguntas a que respondi, e algumas para as quais nunca obtive resposta. Sabes que na Terra há um livro intitulado O Principezinho? Acho que sim. Deves saber. Mas se aí no teu planeta nunca o tiveres lido, digo-te que na história há um aviador que estabelece conversa com um ser proveniente de outro planeta. Esse ser é muito sábio, sensível, delicado e muito interrogador. O aviador tenta responder-lhe o melhor que sabe, satisfazer os pedidos o melhor que consegue… mas na permuta muitas vezes fica sem resposta. E a melhor resposta a dar-lhes, talvez devesse ser: ‘Não sei porque eu fui o aviador e o extraterrestre foi o principezinho!’ Mas receio que isto ainda fosse aumentar a confusão. E quem não acreditasse que eu tinha comunicado com um extraterrestre, muito menos seria capaz de entender as palavras deste livro. Por isso acho melhor guardar em sigilo que comuniquei contigo. Fica um segredo nosso. 

Sabes que aqui na Terra, quando se escreve uma carta, endossamo-la para uma morada. Como nunca soube a tua morada não te posso enviar cartas. Aliás, nem sem sei se no teu planeta há carteiros, marcos de correio, selos… Mas sei que posso escrever cartas. Tenho é de deixá-las por aqui. As cartas não têm, necessariamente, de ter resposta. Mas se quiseres responder sei que sabes para onde enviar.

Um abraço [se é que é possível existirem abraços entre seres de diferentes planetas].

domingo, 8 de março de 2009

TELEGRAMA

Nada mais tenho
para te dar
que palavras
habitantes
dum coração triste
carente
com vazios por preencher
emigrantes
dum corpo frio
rejeitado
à procura dum abraço


só palavras

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

CARTA PARA NINGUÉM

Foto © Ewa Brzozowska


Meu amor,

Não te iludas com as palavras que eu escrevo, porque são verdadeiras.

Não te inebries com a frequência das minhas palavras, porque é necessária.

As palavras, meu amor, não são eternas, como o não são os sentimentos. Mas a verdade, a verdade eterniza-se e a verdade com que escrevo as palavras, meu amor, é imortal.

E se eu deixar de escrever palavras, meu amor, não me o digas, não me o lembres, não me perguntes o porquê, não me acuses. Leva as palavras que eu já escrevi e foge, voa para longe.

… para que eu tenha de correr atrás de ti… com outras palavras verdadeiras.

É tão bom ter palavras que foram escritas para nós… só...