segunda-feira, 7 de setembro de 2009

CONTRASTES


O cinza predominava nas tonalidades da cidade. Uma camada incolor cobria o céu. Os edifícios deformaram-se sob o peso da incredulidade. Faltava esperança para manterem a verticalidade. O desprazer esvaziara as ruas. A humidade proporcionara o nascimento de musgo pelo chão, sem cor. No pavimento, as pedras da calçada soltaram-se da areia, arrastadas por lágrimas secas, invisíveis, indefinidas, não localizáveis.

Sem se anunciar ela chegou. Inesperadamente sem que se percebesse porque vinha, de onde vinha. Chegou de surpresa como a chuva que interrompe um dia tórrido de Verão. Trouxe consigo a brisa que refresca o cansaço do Estio. Interrompeu a trama da solidão. Afugentou as nuvens. No coração dele espreguiçou-se um sorriso, adormecido nas escarpas da desilusão. As janelas da dúvida abriram-se para deixar entrar a ponderação. Pelo solo pequenos recantos verdes definiam áreas de vida.

E a cidade tomou cor quando ela desvendou o olhar do sol, arrastando jactos de tinta atrás de si. Como uma manhã que lhe acordou o coração.

domingo, 6 de setembro de 2009

ABANDONADO

Foto com o meu Nokia

Arrastaste-me até onde te permiti
como quem se deslumbra no prazer de se dar
a tua imensidão e a tua força
foram a minha atracção,
dei o braço à ilusão
e fui ao encontro dos teus percursos
embalado pelo teu fulgor
acariciei-te em horas de desvario,
num jogo de sedução
penetrava a tua superfície
aguardando que em nova vaga
me levasses mais além
em permanente contacto com a tua pele.
Hoje, abandono-me aqui
não mais me encadeando
nos raios de sol espelhados em ti
já não me reflectes quando te olho
Hoje, lancei ancora
nesta areia que não me pertence
que não desejo
e perdi a esperança
de te esperar...

sábado, 5 de setembro de 2009

NO POEMA

Foto de Pedro Inácio


No poema
apaixonei-me

Senti as mãos que o escreveram
como animal esgravatando a sua galeria
até chegar à luz
Vi o olhar que primeiro o leu
como censor buscando o caminho
para chegar à perfeição
Ouvi o coração que o expressou
como maestro marcando o ritmo
para chegar à elevação

No poema
apaixonei-me
porque te adivinhei
te criei
te inventei
te imaginei

Agora
ouço o coração
que bate apressado
Fecho os olhos
e com as mãos
percorro
cada verso
deste poema
por que me sinto
Apaixonado!

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

DIZ-ME

Foto de Mal Smart

Diz-me que não parta
à procura do céu
por onde desenhas
o teu voo

Diz-me que não tente
adivinhar
os pensamentos que comandam
teus passos

Diz-me que não me iluda
na leitura das palavras
a que atribuo
significados procurados

Diz-me que não transforme
memórias do passado
em cumplicidades do futuro

ou então...
cruza o teu voo no meu céu!
faz dos meus passos, teus pensamentos!
decifra nas minha palavras os teus sentidos!
desenha o teu futuro com o nosso presente!

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

EM VIGÍLIA


Foto de günti


Quando os primeiros acordes da manhã
me resgatam à profundez do sono
resisto à luz da lucidez
e quedo-me no estado de semi-consciência
flutuando numa nuvem de algodão doce,
na vigília de que teus lábios toquem os meus
como uma ilha vagueando
sobre um oceano de afectos por redescobrir,
espero que tuas mãos me contornem a pele
e o teu corpo se deite na areia
onde a rebentação se estende
e, antes de se recolher, esquece a espuma
que ao acordar percebo não ter passado
dum sonho desejado.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

A VOZ... OUTRA VEZ

Foto de Mattias Gustafsson


A porta estava encostada. Nunca fora encerrada. Muito menos esquecida. Como algo que se deixa muito tempo sem uso, estava adormecida. Submergida numa névoa de memórias em que era difícil perceber se esse entorpecimento era intencional ou reflexo da impossibilidade de esquecer.

Permanecia no ar um sabor reconhecido de antecipação, de adivinhação involuntária, de prolepse inexplicável. Intocável. Não verbalizável. Inolvidável. A vontade adormecia nos impulsos calados. O silêncio respondia ao emudecimento. E a emoção obedecia à razão, não procurando sinais, esquecendo-se de se rever no espelho que abria incertezas de poder reflectir. O olhar nunca parou de espreitar e o desejo era só a incapacidade de o deixar de ser, de deixar de olhar.

As palavras tinham deixado de ter regresso. Uma vasilha enviada para a essência da cisterna e que voltava vazia… ou repleta de invisibilidade. Mesmo assim, espaçadamente, o rio corria em direcção à outra margem. Não procurava. Simplesmente lembrava o sorriso no olhar do girassol. As pontes, de não serem atravessadas, também haviam abraçado o estado de sonolência. Nesta mesma manhã, a tentação tocara a pele do impulso e acordara a vontade de lembrar a saudade das palavras.

O gosto da surpresa é um arco-íris de paladares agridoces. Impele o incremento das batidas do coração. Passa um arrepio na pele. Acorda sentires adormecidos e impacienta a inquietude da alma.

Uma suave brisa empurrou a porta. O reconhecimento daquela inflexão soprou um aroma de passado trazido ao presente. Indomáveis, as memórias atravessaram a planície dos instintos, embriagando de éter a manhã. Enquanto o coração galopava, a voz afectuosamente repetia-se num eco de regresso transeunte.

Placidamente o silêncio roubou o lugar ao assombro. As palavras acordaram brotando das escarpas da memória, recusando-se a adormecer na alma. Soltaram-se das raízes da razão, romperam a fresta da porta entreaberta e correram atrás da voz… outra vez.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

CERTEZAS

Tenho-as em molho
ou isoladas
dispersas
ou ligadas entre si
independentes
e dependentes
se algo as humedece
bastam escassos raios de sol para as secar
se demasiado secas
um sorriso é suficiente para as ameigar
se extremamente lânguidas
apenas um estímulo lhes devolve o rumo
se muito limitadas
apenas um verso de vida
lhes devolve a perspicácia
ao frio de Inverno
respondem com o calor da convicção
ao calor do Verão
respondem com a frescura da verificação
à nostalgia do Outono
respondem com a renovação da ideia
ao deslumbre da Primavera
respondem com o cuidado da precaução
Só não as posso aproximar
de algo que arda
pois consomem-se inadvertidamente
e tornam-se cinzas
impossíveis de identificar
difíceis de recuperar